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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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Lembraram de mim

A Nickelodeon conquista espaço com
programas para pré-adolescentes,
um público esquecido pela televisão

Ricardo Valladares

 
Imagens divulgação

ROCKET POWER

DO QUE TRATA: As aventuras de quatro amigos de uma pequena cidade costeira que vivem andando de skate e surfando

POR QUE FAZ SUCESSO: Eles fazem manobras radicais, mas não são super-heróis. Têm os mesmos conflitos de qualquer criança


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Composto de crianças entre 9 e 12 anos, o público pré-adolescente sempre foi um dos menos contemplados com programas na televisão. Recentemente, contudo, a situação começou a mudar, graças às produções do canal americano Nickelodeon. Desenhos animados como Bob Esponja, Rocket Power, Ei, Arnold! e Os Thornberrys, e comédias com atores reais como Kenan e Kel, vêm fazendo sucesso entre essa meninada não apenas na TV a cabo brasileira, mas também na programação matinal da Rede Globo. "A criança dessa faixa etária já tem uma boa dose de discernimento, mas ainda não possui a audácia dos adolescentes", diz a terapeuta Lídia Aratangy. E é essa particularidade que os desenhos exploram, com tramas que reproduzem muitos dos dilemas e anseios dessa fase da vida.

Embora tenham pontos de partida bastante diversos, Rocket Power, Ei, Arnold! e Os Thornberrys guardam certa semelhança entre si e ajudam a entender quais são as engrenagens que fazem um desenho para pré-adolescentes funcionar direito – além, claro, do visual inspirado e da boa animação. O primeiro lida com um grupo de amigos apaixonados por esportes radicais. O segundo está centrado nas estripulias de meninos e meninas que estão quase lá, mas ainda não chegaram à idade de "ficar". Por fim, Os Thornberrys (cujo longa-metragem está em cartaz atualmente no Brasil) mostra um casal de naturalistas que viaja pelo mundo levando seus filhos – entre os quais uma menina que se comunica com os animais. Um dado essencial de todos esses desenhos é que eles não tratam com condescendência as crianças que já não são "pequenas". E fazem isso, antes de mais nada, propondo ao espectador que ria de si próprio. Os programas também exploram, com bastantes nuances, as relações da garotada com a família. Segundo os especialistas, nessa fase ocorrem as primeiras lutas pela independência, mas ainda não com rebeldia exagerada: ao contrário do que acontece com os adolescentes, a autoridade dos pais permanece intacta. Não é à toa, portanto, que tantos episódios de Rocket Power mostram os seus heróis explorando ao máximo os limites de seu mundinho (a praia onde vivem), para finalmente voltar para casa e receber uma bronca dos pais pelas peraltices. Os Thornberrys lida de maneira ainda mais sutil com esse tema. Leva sua protagonista aos cenários mais fantásticos e selvagens. Ela participa de aventuras, sim, mas seus pais estão logo ali.

 

BOB ESPONJA

DO QUE TRATA: No fundo do oceano, uma esponja quadrada e amarela vive uma série de peripécias. Seus amigos também são animais marinhos

POR QUE FAZ SUCESSO: O nonsense total agrada à garotada, que experimenta aquele nonsense de estar entre a infância e a adolescência

Comparado a esses desenhos, Bob Esponja foge um pouco do padrão. Seu herói é uma esponja marinha quadrada e dentuça, que mora num abacaxi nas profundezas do Oceano Pacífico. À sua volta vivem outros bichos, como lulas e lagostas, freqüentemente mal-humorados, mas quase nunca maldosos. Com atenção pode-se identificar alguma sátira ao estilo de vida da classe média, mas nada que lembre a virulência dos Simpsons ou de um South Park. O forte do desenho é mesmo o nonsense – e não é de espantar que seu criador, o desenhista Stephen Hillenburg, tenha buscado inspiração nos pastelões de Charlie Chaplin e de O Gordo e o Magro, para criar uma combinação perfeita de maluquice e ternura. Esse total nonsense agrada à garotada que também experimenta um nonsense no seu dia-a-dia: o de estar no limbo entre a infância e a adolescência. Nos Estados Unidos, Bob Esponja tornou-se uma febre, gerando uma enxurrada de badulaques nas lojas. No Brasil, ele avança pelo mesmo caminho: produtos oficiais com seu nome já foram lançados e versões piratas podem ser encontradas nas bancas de camelôs.

 

EI, ARNOLD!

DO QUE TRATA: O protagonista é um garoto com mente extremamente fértil. Com seus amigos Helga e Gerald, ele tem experiências típicas de crianças que vivem numa cidade grande

POR QUE FAZ SUCESSO: O segredo está sobretudo na maneira inteligente como reproduz o relacionamento difícil entre meninos e meninas pré-adolescentes, representados por Arnold e Helga

Um dos segredos do Nickelodeon está no fato de haver desenvolvido um sistema de pesquisas que lhe permite monitorar o que seu público quer. O melhor exemplo desse método está na série Os Anjinhos – voltada a uma faixa etária um pouco mais baixa, entre os 4 e os 8 anos. Foi por meio de enquetes com crianças que se definiram as características dos principais personagens. Do mesmo grupo criador da MTV, a Viacom, o Nickelodeon nasceu em 1979. Hoje, é líder nos Estados Unidos, detendo 50% da audiência do segmento infantil. Na TV a cabo brasileira, o canal registrou um crescimento de 49%, de 2001 para 2002. Para tentar alcançar o campeão Cartoon Network, a Nickelodeon deve pôr em prática algumas estratégias nos próximos meses. Por exemplo, pretende inaugurar um horário dedicado a clássicos como Os Flintstones. Isso servirá para atrair os marmanjos nostálgicos, que compõem uma fatia considerável do público do Cartoon. Os investimentos da Nickelodeon no país também estão aumentando. "A diretriz do canal é criar uma linguagem cada vez mais globalizada e cada vez menos americana", diz a diretora de marketing Monika Cavaliere. Em agosto passado, estreou o Patrulha Nick, apresentado por cinco meninos e meninas entre 12 e 16 anos. Além de apresentarem desenhos, eles fazem entrevistas e pequenas reportagens com temática ecológica ou de "conscientização" (sobre como doar livros escolares, por exemplo). Até 2004, um desenho inteiramente produzido no Brasil deve estrear na programação da Nickelodeon.

   
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