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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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Guindaste para os gordões

Indústria dos Estados Unidos
se adapta para atender uma
população cada dia mais obesa

 
KCI
Peso-pesado: guindaste capaz de levantar 500 quilos usado em hospital que cuida de obesos mórbidos

O órgão do governo americano que fiscaliza a aviação civil tomou uma decisão drástica na semana passada: determinou que os passageiros sejam pesados antes de embarcar em aviões pequenos. A medida é uma precaução para evitar acidentes aéreos como o que matou 21 pessoas no começo do ano no Estado da Carolina do Norte. Os investigadores estão certos de que o Beech 1900 caiu logo após a decolagem devido ao excesso de peso – mas não causado pela bagagem, e sim pela gordura dos passageiros. O cálculo de ocupação em aviões de pequeno porte considera 81 quilos por passageiro, o que é a média tradicional de peso de um adulto, mais 9 quilos de bagagem. O problema é que, no que diz respeito a peso, os padrões de normalidade nos Estados Unidos estão totalmente fora de moda. Sete em cada dez adultos estão acima do peso ideal. Um aumento de 46% em relação a duas décadas atrás. E quase um terço dos adultos são considerados obesos, o dobro do registrado em 1991. As crianças seguem pelo mesmo caminho: 25% delas são gordinhas.

A balança na porta das avionetas é apenas um exemplo das mudanças provocadas pela população mais gorda do planeta. Nos últimos anos, surgiu nos Estados Unidos uma indústria milionária de produtos para o conforto dos supergordos. Um deles é assustador: um guindaste capaz de erguer pessoas com até 500 quilos. Similar aos aparelhos usados na construção civil e nas oficinas mecânicas, a peça faz parte de uma série de equipamentos e acessórios adotados nos hospitais americanos que tratam de obesos mórbidos – pessoas que estão 45 quilos ou mais acima do peso ideal e que, muitas vezes, recorrem às cirurgias de redução de estômago como último recurso para emagrecer. Só a indústria especializada em equipamentos médicos para supergordos, que inclui camas mecanizadas e cadeiras de rodas reforçadas, movimenta 150 milhões de dólares por ano e cresce ao ritmo de 15% anuais.

A indústria da dieta é ainda maior – movimentou 40 bilhões de dólares no ano passado, dos quais 1 bilhão referentes a remédios. A pujança reflete, evidentemente, o desejo da maioria de perder alguns quilinhos. O espetacular crescimento da outra indústria, a dos produtos para facilitar a vida dos gordões, mostra uma tendência talvez mais realista: os obesos vieram para ficar e exigem que as medidas-padrão sejam revistas para se tornarem maiores. Nada mais justo, então, que a indústria faça seu papel e ponha um sorriso de alívio no rosto de quem ultrapassou 100 quilos. O mobiliário é um setor que passa por grandes ampliações. A nova cadeira para escritório é 13 centímetros mais larga que as convencionais e tem capacidade para 250 quilos. Para uso doméstico, a oferta mais atraente é a poltrona típica de quem come quilos de salgadinhos na frente da TV, outro hábito bem americano. Estão à venda modelos com 10 centímetros extras na largura e um mecanismo que é um verdadeiro achado: o sistema de molas impulsiona o gordo para ajudá-lo na hora de se levantar. O tamanho médio das camas americanas aumentou 10% em relação às medidas-padrão, adotadas há quarenta anos. Causa furor entre os consumidores um novo tamanho chamado Olympic Queen, com 1,67 metro de largura.

Os gordos e a indústria automobilística já travaram uma verdadeira guerra em torno do tamanho de assentos e dos cintos de segurança – mas as fábricas acabaram por entender que precisam se adaptar às novas medidas da freguesia. Os carros grandes, como jipes e vans, desbancaram os modelos menores em vendas. O assento do ultra-espaçoso Lincoln Navigator, da Ford, ficou 1 polegada maior na versão 2003. O espaço entre o banco e a direção também cresceu. No Focus, que é um modelo compacto, o fabricante reduziu o painel e os bolsos laterais em proveito de bancos mais largos. A Honda aumentou em 6 centímetros a largura dos assentos do Civic, a pedido dos consumidores. A Volvo foi obrigada a fazer um recall de 65.000 peruas porque o peso dos passageiros obesos causava curtos-circuitos no sistema de aquecimento embutido nos assentos. O mercado de roupas extragrandes já fatura 17 bilhões de dólares por ano. Não à toa. O tamanho médio das roupas de metade das americanas saltou do número 36, em 1985, para o 42.

Nada indica que o inchaço dos americanos esteja próximo de ser revertido. Se a população está tão gorda, isso se deve principalmente à ingestão de alimentos cheios de gordura e açúcar. Seguindo a tendência de se adaptarem a consumidores cada vez mais gorduchos, as porções de fast food – refrigerantes, hambúrgueres, batatas fritas e barras de chocolate – mais que dobraram de tamanho nas últimas décadas. "Trata-se de uma gordura barata, de acesso fácil e, infelizmente, muito boa", disse a VEJA o médico Walter Willett, chefe do departamento de nutrição da Universidade Harvard. Ainda bem que as cadeiras estão mais largas.

   
 

 



 

   
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