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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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Bush já está
em guerra

AFP

"Que não haja mal-entendido: se Saddam Hussein não se desarmar completamente, para a segurança de nosso povo e para a paz do mundo, nós lideraremos uma coalizão para desarmá-lo."

George W. Bush, em discurso
no Congresso americano


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George W. Bush não disse isso com todas as letras. Mas deixou claro que os primeiros tiros da guerra contra o Iraque só não foram disparados porque as tropas americanas ainda não estão em posição de combate no Golfo Pérsico. Na terça-feira, o presidente dos Estados Unidos aproveitou o discurso sobre O Estado da União, sua mensagem anual ao Congresso, transmitida pela TV, para emitir uma declaração informal de guerra e preparar os americanos para o conflito iminente. Ele gastou metade do pronunciamento de uma hora para enumerar, metodicamente, os argumentos que justificam uma invasão para depor Saddam Hussein. Disse que o ditador iraquiano estocou armas de destruição em massa com o plano perverso de controlar pela força o petróleo do Golfo Pérsico. Acrescentou que Saddam se aliou aos terroristas da Al Qaeda. E que é um tirano para seu próprio povo. Nas palavras de Bush, o ataque, com ou sem o respaldo de uma resolução das Nações Unidas, é uma "questão de semanas". Na prática, a contagem regressiva para a queda de Saddam teve início três meses antes, quando a Casa Branca começou a despachar sua máquina de guerra para o Golfo. Mas faltavam aos Estados Unidos apoio interno e externo e motivos cabais que justificassem uma escalada militar que não se via desde a Guerra do Golfo, contra o mesmo Iraque, em 1991. Todos esses obstáculos parecem agora contornados ou, simplesmente, deixaram de ser levados em conta pelos guerreiros da Casa Branca.

Antes do discurso, apenas 47% dos americanos apoiavam uma intervenção militar no Iraque sem respaldo da ONU. Depois que Bush terminou sua exposição, o índice de aprovação pulou para 67%. Números assim são uma alegria para um presidente com a popularidade em queda e às voltas com a recessão econômica. Bush conseguiu também isolar a resistência à guerra liderada pela França e Alemanha com a divulgação de um manifesto de apoio a sua posição, assinado por outros oito países europeus: Inglaterra, Espanha, Itália, Portugal, Dinamarca, Polônia, Hungria e República Checa. A brecha no processo diplomático foi facilitada pela apresentação ao Conselho de Segurança da ONU do primeiro relatório dos inspetores encarregados de vistoriar as instalações iraquianas suspeitas de armazenar armas químicas e biológicas. Eles não encontraram as provas do crime, mas denunciaram a falta de colaboração do governo de Bagdá. Era o argumento que o presidente americano procurava para fundamentar sua acusação de que o ditador do Iraque pretende apenas ganhar tempo e enganar a comunidade internacional.

O próximo passo do governo americano é lançar uma ofensiva diplomática para ampliar o apoio à guerra. Na quarta-feira, o secretário de Estado, Colin Powell, deverá apresentar na ONU as provas que Bush afirma ter sobre dois pontos cruciais. Primeiro, que Saddam esconde armas de destruição em massa. Além disso, haveria também provas das ligações de Saddam com o terrorismo. As informações vazadas pela Casa Branca no fim da semana indicavam que se trata de fotos de satélites mostrando o transporte de material suspeito, gravações telefônicas de encontros entre integrantes do regime de Bagdá e terroristas da Al Qaeda, a organização responsável pelos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos.

Os americanos só têm a ganhar se conseguirem a autorização da ONU para invadir o Iraque e derrubar Saddam Hussein. Para isso, precisarão reverter a resistência à guerra manifestada por Rússia e China, além da França – países com poder de veto no Conselho de Segurança. É duvidoso que a estratégia de convencimento funcione a toque de caixa, como quer Bush. Está difícil para o governo americano explicar, sobretudo a seus tradicionais aliados europeus, por que a Coréia do Norte, que é uma ditadura comunista com armas nucleares, pode ser tratada por via diplomática e Saddam não. Ou a razão pela qual Bagdá deve ser obrigada a obedecer às resoluções da ONU, mas Israel está dispensado de tal compromisso.

O mal-estar em relação à guerra ultrapassa a "velha Europa", como o secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, desdenhosamente chamou a França e a Alemanha. Só 30% dos ingleses apóiam a guerra incondicionalmente. Na Espanha, são apenas 13%. "Ninguém duvida que o regime de Saddam é indefensável", escreveu a revista americana Newsweek, "mas os europeus querem que qualquer julgamento do assunto seja feito pelo Conselho de Segurança da ONU, e não por Washington". Jacques Chirac, o presidente da França, diz que a "guerra é sempre a pior solução", especialmente no Oriente Médio. Para Chirac, a guerra só vai incentivar o terrorismo antiamericano. Norman Schwarzkopf, o general que comandou as forças americanas na Guerra do Golfo, em 1991, diz que, por razões estratégicas, seria melhor Bush esperar até que os demais países estejam convencidos da necessidade de depor Saddam pela força.

Com seu poderio bélico incomparável, os Estados Unidos não teriam problemas de resolver sua pendenga com Saddam sem a ajuda externa. Mas têm motivos de sobra para tentar ampliar o leque de apoio a uma intervenção militar no Iraque. O primeiro é de ordem política. Os americanos querem evitar o desgaste de assumir sozinhos o papel de força invasora e, posteriormente, de ocupação num país árabe. Não é difícil imaginar como os fundamentalistas islâmicos poderiam usar a guerra para fomentar o ódio aos EUA na região. O aspecto econômico é igualmente importante para a Casa Branca. O apoio de países vizinhos, como Turquia e Arábia Saudita, com suas bases aéreas e instalações militares, é fundamental para baratear os custos de uma intervenção em grande escala. Estimativa de um comitê do Congresso americano mostra que, em três meses, os gastos com pessoal, operações e transporte de armas deverão consumir até 12,5 bilhões de dólares. Isso para não falar nos custos para reconstruir o Iraque após o conflito e bancar a manutenção de uma força militar estrangeira no país.

Bush, na metade do mandato, está entrando num período de campo minado em relação à política econômica de seu governo. O maior temor do atual presidente americano é repetir o fiasco de seu pai, George Bush, que ganhou a Guerra do Golfo, mas acabou perdendo a reeleição depois de ser atropelado por uma recessão econômica. O problema do Pentágono é adequar o cronograma militar ao diplomático. O objetivo é deixar um prazo para que Bush costure as alianças necessárias a tempo de manter os planos de iniciar a ofensiva contra Saddam entre a metade e o fim de fevereiro – antes, portanto, do verão no Hemisfério Norte. Até lá, os Estados Unidos terão em posição de combate sua força máxima, o que pode chegar a 250 000 soldados. Os estrategistas americanos apostam no poderio bélico despachado para o Golfo para decidir a guerra e derrubar Saddam entre três e oito semanas, sem sobressaltos.

O Pentágono já admite que tropas especiais estão operando, em pequeno número, no norte do Iraque. Na região, onde a minoria curda usufrui certa autonomia, quase não há forças do governo de Bagdá. É uma estratégia que lembra a usada no Afeganistão. A diferença é que no Iraque não se pode contar com a ajuda de forças oposicionistas, como ocorreu no país dos talibãs. Em 1991, os EUA e seus aliados precisaram de seis semanas de bombardeios e menos de 72 horas de combate por terra para liquidar a fatura. Então, apenas 5% das bombas americanas eram guiadas por laser ou satélites – hoje, esse índice chega a 85% do arsenal. O Iraque, por sua vez, teve sua capacidade militar reduzida pela metade. A tendência desta vez é restringir os bombardeios aéreos aos centros de comando, quartéis das tropas de elite, sistemas de defesa e bases de lançamento de mísseis e tentar antecipar ao máximo a invasão por terra – de preferência à noite, para tirar proveito do equipamento usado pelos soldados que permite visão noturna. "Se os bombardeios conseguirem neutralizar rapidamente a Guarda Republicana Especial, a principal tropa de elite de Saddam, são grandes as chances de rendição dos demais líderes militares", disse a VEJA o contra-almirante da reserva Stephen Baker, analista do Centro de Informação de Defesa, instituto de pesquisa com sede em Washington. Nada disso faz a guerra inevitável. Saddam pode sucumbir à pressão e salvar a pele partindo para o exílio. Pode também frustrar ou adiar os planos bélicos de Bush com o simples ato de entregar à ONU todas ou, pelo menos, algumas das armas proibidas. De qualquer forma, os dias de poder de Saddam estão contados.

 
 
   
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