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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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Cortada em nove pedaços

A história brutal do médico que
esquartejou a ex-amante na
sala de cirurgia de sua clínica

Rosana Zakabi e Sandra Brasil

 
Jorge Luis da Conceição/AE
O cirurgião Farah: uma noite inteira trabalhando para eliminar as provas de seu crime

Foi um crime horrendo tanto pelo resultado quanto pelo método frio adotado pelo autor, o cirurgião plástico Farah Jorge Farah, de 53 anos, que tem uma clínica de cirurgia plástica num bairro de classe média de São Paulo há vinte anos. A maior parte de sua clientela é composta de beneficiários de convênios médicos populares. Com muitos clientes, o médico trabalhava seis dias por semana. Descansava aos sábados, em razão de sua religião. Na sexta-feira 24, ele trabalhou até as 6 da tarde. Depois que sua secretária e também o último paciente do dia tinham saído, o interfone tocou. Era sua ex-amante, a dona-de-casa Maria do Carmo Alves, de 46 anos. Farah abriu os dois portões de ferro e a deixou passar. Logo estavam discutindo. Ele diz que ela portava uma faca e pretendia matá-lo, que entraram em luta corporal e depois disso não se lembra de mais nada.

Pelo que a polícia conseguiu reconstituir até o fim da semana passada, um psicopata que ninguém suspeitava existir em Farah agiu daí em diante. Maria do Carmo foi morta e esquartejada. Num roteiro tétrico, Farah usou instrumentos e conhecimentos cirúrgicos para cortar, dissecar e escalpelar o corpo e destruir partes que pudessem levar à identificação da mulher. Depois limpou sua sala de cirurgia, tratou órgãos e membros como num laboratório de faculdade, ensacou os pedaços e os guardou no porta-malas de um carro. Dois dias após o assassinato, contou seu feito à família, internou-se numa clínica psiquiátrica e foi entregue à polícia por seus advogados. Nos depoimentos, não disse onde colocou fragmentos do corpo que não foram encontrados pelos peritos. Acusou Maria do Carmo de persegui-lo desde que encerrara o caso amoroso com ela, dois anos atrás.

A necropsia, alguns depoimentos de testemunhas e as análises dos peritos da polícia revelaram alguns detalhes que Farah omitiu e ajudam a recompor o crime. A vítima pode ter sido esfaqueada no pescoço. Provavelmente, foi arrastada logo em seguida para a sala de cirurgia da clínica. O médico não iniciou de imediato o esquartejamento. Primeiro foi para o prédio onde mora, a alguns quarteirões dali, pôs o carro na garagem, ficou cerca de quatro horas no apartamento e voltou a pé para o consultório. O corpo de Maria do Carmo já estaria sobre uma maca. Acredita-se que, na primeira incisão, ele tenha feito um longo corte, do pescoço até o púbis, para retirar as vísceras e diminuir o peso do cadáver. Farah é franzino, anda com a ajuda de uma bengala. Sem os órgãos internos, o corpo ficou 20% mais leve e pôde ser manuseado com mais facilidade. A partir daí, pelas marcas deixadas nos membros decepados de Maria do Carmo, supõe-se que o cirurgião tenha iniciado um trabalho para desfigurá-la e impedir seu reconhecimento.

 
A sala de cirurgia: dezesseis instrumentos cirúrgicos diferentes usados na operação e partes do corpo depositadas na banheira, com formol e água sanitária

Com incisões cuidadosas, foi retirada a pele da região peitoral e do lado esquerdo do rosto. Na face, ele usou uma delicada técnica cirúrgica, removendo a camada superficial sem danificar os músculos, como numa plástica. As pontas dos dedos dos pés e das mãos receberam o mesmo tratamento, com o uso de um instrumento próprio para descolar a pele. Também foram retiradas derme e epiderme da área posterior da coxa direita. Anos atrás, Farah extraiu um nódulo desse local. Havia ali uma cicatriz que podia ajudar na identificação da mulher. Seguindo a lógica de quem pretende ocultar um crime, a polícia calcula que seu próximo passo foi cortar a mulher em pedaços. O corpo foi dividido em nove partes – cabeça, braços, mãos, pernas, tronco e bacia com coxas. A maior parte dos cortes, muito precisos, seccionou músculos, ligamentos e nervos apenas nas juntas, sem danificar os ossos. Foram descobertos vestígios de sangue em oito tesouras, quatro bisturis, três pinças e em um martelinho cirúrgico.

Uma vez separados, os pedaços foram depositados numa banheira e cobertos com formol e água sanitária, uma providência que evita a decomposição e esconde o odor. Depois, escorridos e em alguns casos até torcidos, os membros seccionados ficaram praticamente sem sangue. Os líquidos representam uma parte expressiva do peso de um humano adulto. Só então, bem mais leves, as partes foram guardadas em cinco sacos plásticos pretos. De um corpo que tinha 66 quilos, restaram menos de 30. Os órgãos internos não foram localizados. Suspeita-se que o médico os tenha picado e se livrado deles de alguma forma. Por fim, Farah realizou uma grande faxina em seu consultório.

Eram 11 horas da manhã de sábado quando o marido de Maria do Carmo, o porteiro João Augusto de Lima, tocou a campainha do consultório. Ele suspeitava do caso entre a mulher e o médico. Ela tinha desaparecido. Achou que devia procurá-la ali. Farah disse que não a havia visto, anotou seu telefone celular num pedaço de papel e pediu que Lima ligasse se precisasse de algo. O porteiro notou que o chão da clínica estava molhado e sentiu cheiro de água sanitária antes de ir embora.

Arquivo pessoal
Maria do Carmo: ele diz que ela tinha uma faca e queria matá-lo


Por volta do meio-dia, ele ligou para os pais perguntando se eles poderiam buscá-lo na clínica. Eles disseram que sim e seguiram até o local num Gol vermelho. A mãe do médico, Amalia Farah, de 78 anos, subiu ao encontro do filho no consultório. Enquanto isso, o pai, o aposentado Jorge Farah, 83 anos, foi fazer uma visita a um familiar. Demorou uma hora para voltar. No consultório, Amalia presenciou uma cena de choro do médico. "Meu filho pediu que eu orasse muito por ele, mas não me disse o motivo", contou depois, em seu depoimento à polícia. Quando Jorge Farah retornou à clínica, o médico foi com a mãe até o carro e pediu que esperassem enquanto ele ia buscar um "material de trabalho" no consultório. Fez duas viagens para pegar os cinco sacos e acomodá-los no porta-malas do Gol. Depois, dirigiu o automóvel dos pais até o prédio em que eles residem. Estacionou na garagem e foi para o apartamento.

Lá, atendeu uma paciente conhecida da família. Passou a tarde inteira com os pais. À noite, pediu ao pai que o levasse até seu apartamento, do outro lado da cidade. Na garagem, o médico transferiu os sacos de plástico para o porta-malas de seu carro, um Daewoo, despediu-se do pai e subiu.

Amalia atendeu a um telefonema do filho na tarde de domingo. Ele ligou de casa e contou rapidamente que havia matado e esquartejado Maria do Carmo. A mãe do médico passou mal, teve um desmaio, caiu ao lado do telefone. Jorge Farah a socorreu, pegou o aparelho e ouviu a mesma narrativa. O cirurgião, segundo os familiares contaram depois à polícia, falava em cometer suicídio. Um psiquiatra foi enviado ao seu encontro e o levou para uma clínica, num bairro distante. Pouco tempo depois, os advogados acionados pela família procuraram a polícia para revelar o crime. O delegado responsável pelo caso, Ítalo Miranda Júnior, já trabalhou em um caso parecido. Em 1976 ele prendeu o bandido conhecido por "Chico Picadinho", condenado por matar e esquartejar duas mulheres. "Nada do que vi se compara ao que fez esse médico", disse.

 

COMPANHEIROS DE CELA

O esquartejador está junto com o pediatra
Eugênio Chipkevitch, que molestava seus pacientes

 
Helvio Romero/AE
Oslaim Brito/Ag. Estado
Farah, ainda jovem, e Chipkevitch: conversas sobre anestésicos e preocupação com a depressão

Desde a noite do dia 27, Farah Jorge Farah divide com outras cinco pessoas uma cela de 10 metros quadrados no 13º Distrito Policial, na Zona Norte da capital paulista – uma instalação especialmente separada para receber presos que têm diploma de curso superior. Ali estão um ginecologista detido por prática de aborto e o pediatra Eugênio Chipkevitch, acusado de abusar sexualmente de pelo menos quarenta adolescentes. A polícia encontrou em seu apartamento e em seu consultório dezenas de fitas de vídeo que mostram o médico molestando garotos sedados. Na cadeia desde março de 2002, o pediatra logo se entendeu com Farah. Na tarde de terça-feira, segundo os carcereiros, os dois falaram sobre técnicas de aplicação de anestesia. Chipkevitch chegou a dizer que Farah estava com depressão e que precisava de tratamento urgente. Na cela, há televisão, geladeira e banheiro. Para a polícia, o cirurgião plástico e o pediatra podem ter desvios de comportamento semelhantes. Suspeita-se que Farah também abusasse sexualmente de suas pacientes. Na semana passada, três ex-clientes dele estiveram na delegacia para denunciá-lo por abusos. Uma delas informou que manteve relações sexuais com Farah. O médico tinha muitas amigas entre suas clientes e costumava freqüentar a casa de algumas.

Farah cobrava preços bem abaixo dos comumente praticados no mercado de cirurgia plástica. Em média, suas operações custavam 30% do que pedem outros profissionais pelos mesmos trabalhos. Era possível fazer uma cirurgia de mama em sua clínica por menos de 1 000 reais. Em outros estabelecimentos, o preço médio é 4 000 reais. "Ele não aceitava cheques nem dava recibos", disse a telefonista Sandra Maria Pinto Sampaio, que fez uma redução de mama com o médico dez anos atrás e testemunhou seu método econômico. "Pediu que eu levasse três toalhas de rosto limpas e usou-as na minha cirurgia." Sandra é uma das ex-pacientes que agora o acusam de abuso.


Com reportagem de Cristina Charão

 

   
 
   
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