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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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De volta ao governo

Sem o brilho do passado, o PMDB
deixa-se
seduzir por cargos
e fecha acordo com o PT

Maurício Lima

 
Ed Ferreira/AE
As duas correntes do PMDB selam acordo com as lideranças do governo Lula

O PT e o PMDB selaram na semana passada um acordo de cooperação entre os dois partidos. Para o PMDB, a aliança significa a volta ao governo depois de longos e sofridos trinta dias de oposição que ameaçaram interromper dezessete anos de casamento do partido com o poder. Ficou combinado que o senador José Sarney, do PMDB, presidirá o Senado nos próximos dois anos. O partido também vai indicar nomes para o segundo e terceiro escalões do governo, enquanto espera surgir uma vaga no ministério de Lula. Para o PT, o acordo traz uma solução e um problema. A solução é a garantia de que o governo não terá dificuldades para aprovar projetos e emendas no Congresso Nacional. O PMDB possui a maior bancada no Senado e é a terceira força da Câmara dos Deputados. O problema é que o novo aliado é um gigante sem rosto. Seus quadros abrigam figuras notáveis da política e também figuras que se tornaram notáveis pelo tamanho dos escândalos que as envolvem.

O governo petista está realizando auditorias em duas pastas que foram ocupadas por peemedebistas na última administração. Em ambas, Transportes e Integração Nacional, já surgiram indícios fortes de que havia esquemas milionários de favorecimento a figuras da legenda. O mais recente alvoroço envolvendo políticos tinha um deputado do PMDB como personagem principal. Pinheiro Landim renunciou ao ser flagrado vendendo sentenças judiciais a traficantes. Renunciou, mas, como foi reeleito no ano passado, tomará posse, porque a renúncia, no Congresso, passa a borracha na irregularidade cometida em legislatura anterior. Antes dele, o presidente do Congresso, senador Jader Barbalho, do PMDB do Pará, seguiu o mesmo caminho ao ser pilhado na lista de beneficiários de uma milionária fraude bancária. Luiz Estevão, do PMDB do Distrito Federal, foi o primeiro senador da História a ter o mandato cassado. Ele é acusado de desviar recursos de obras públicas. O governador Mão Santa, do PMDB do Piauí, perdeu o cargo por fraude eleitoral. Dos cinco governadores eleitos no ano passado pelo PMDB, um, o governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, tem uma força-tarefa federal em seu encalço investigando suas relações com grileiros de terras na capital. Sua situação é tão complicada que o presidente Lula disse em público que gostaria de conversar com todos os governadores, à exceção de dois. A um deles Lula deu nome: Joaquim Roriz.


Celso Junior/AE
Luiz Estevão: chegou a ser preso pelo desvio de verba do TRT de São Paulo


Existem algumas explicações para a grande incidência de escândalos que envolvem o PMDB. Uma delas é o tamanho do partido. Mesmo sem registrar desempenho excepcional na última eleição, o PMDB é a legenda com a maior capilaridade em todo o Brasil. Está presente em 70% dos municípios e governa um quinto das cidades brasileiras. É o segundo partido em número de governadores e elegeu um contingente enorme de vereadores. O tamanho exagerado faz com que o número de casos de corrupção também seja maior. Outra razão – e talvez a principal – é que o partido está há muito tempo no governo. Depois de chegar ao poder com José Sarney, em 1985, o PMDB não foi mais para a oposição. Esteve presente nos governos de Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e agora está embarcando na canoa petista. Com Lula, será a sexta vez seguida que o PMDB estará, de alguma maneira, fazendo parte da base aliada e dividindo o governo. "Essa perenidade favorece a adoção de velhas práticas e a instalação de esquemas que não se desmontam e, pelo contrário, tendem a se perpetuar", diz a socióloga Fátima Pacheco Jordão.

O acordo com o PT foi o desfecho de uma briga dentro da legenda para saber qual PMDB participaria do governo. Havia os que se aproximaram dos petistas desde o início da campanha e que, por razões óbvias, queriam o partido fechado com o governo. Ainda no primeiro turno da eleição, doze diretórios estaduais pediram votos para Lula. Mas havia também uma ala forte que apoiou o tucano José Serra e, por isso, se sentia desprestigiada e defendia uma posição de distanciamento. Na semana passada, as divergências entre os dois grupos foram contornadas com a conveniente decisão de que todos participarão do governo. Cargos já estão prometidos para o PMDB que queria ser oposição. Sempre preocupado com a ética, o PT conseguiu construir uma estupenda aliança política atraindo para o governo todo o PMDB – o dos notáveis e também o de Pinheiro Landim, Jader Barbalho e Joaquim Roriz.

 
 
   
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