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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
Brasil Diplomacia

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O "amigo" da Venezuela

Cuidado, Chávez, com essa
mania de vir ao
Brasil. Brasileiro
não gosta de arroz-de-festa

 
Paulo Liebert/AE
Chávez, no Fórum Social Mundial: recarregando as baterias populistas

Durante o mês de janeiro, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, esteve três vezes no Brasil. Na posse de Luiz Inácio Lula da Silva, ele veio oferecer seus cumprimentos formais. No dia 18, abalou-se de Caracas para discutir o Grupo de Amigos da Venezuela, uma entidade que se formou sob os auspícios da diplomacia brasileira. Finalmente, no domingo passado, Chávez desembarcou em Porto Alegre para o Fórum Social Mundial, grande encontro de ativistas e simpatizantes da esquerda. Essas três visitas enfileiradas de um mesmo chefe de Estado ao Brasil são um fato inédito, um verdadeiro espanto. Elas revelam o estado de alta ansiedade em que se encontra o presidente venezuelano. Acossado por uma greve geral que completaria dois meses neste domingo e por uma oposição que gostaria de vê-lo fora do cargo antes do término de seu mandato, Chávez está ávido de apoio político tanto formal quanto informal. E parece ter metido na cabeça que o Brasil é o lugar ideal para consegui-lo. Por enquanto, o governo Lula lhe deu o primeiro e os festivos militantes reunidos em Porto Alegre lhe deram o segundo. Mas esses consolos podem não durar muito.

Chávez é o protótipo do visitante trapalhão, que não se cansa de cometer gafes. Já em sua primeira viagem, ele fez Lula esperar por cinqüenta minutos para um café-da-manhã. Como tinha uma boa desculpa esquerdista – teria passado a madrugada conversando com Fidel Castro –, relevou-se a descortesia. O encontro número dois, contudo, já foi bem desconfortável. Chávez veio reclamar da presença dos Estados Unidos no Grupo de Amigos da Venezuela e pedir a Lula que nele fossem incluídos Cuba, China, Rússia e França. Lula disse que não havia clima para mudanças. Chávez acatou os argumentos, mas, ao sair da reunião, numa entrevista coletiva que concedeu de cócoras, na rua, informou aos jornalistas que voltaria a bater na mesma tecla em breve. Deixou a impressão de que poderia converter-se numa grande dor de cabeça.

 
Sergio Sbragia
Jorge Rosenberg
Zeffirelli no Rio: também conhecido como "Tia Zefa" O cantor Sting e o cacique Raoni: acusado de autopromoção

Foi o que se verificou alguns dias depois, em Caracas, quando a multinacional brasileira de bebidas AmBev recebeu, em sua sede local, a visita de uma equipe de funcionários do governo venezuelano. Eles traziam uma ordem para que todo o estoque de bebidas que se encontrava armazenado fosse posto à venda. A medida foi interpretada pelo governo brasileiro como uma resposta à negativa de Lula em discutir a ampliação do Grupo de Amigos da Venezuela – uma espécie de provocação, que só não foi mais grave porque não teve a presença de militares, ao contrário do que havia acontecido numa ação semelhante, pouco antes, na central venezuelana da Coca-Cola. "Lula ficou muito irritado", diz um alto funcionário do Itamaraty. E essa irritação se manifestou na época da terceira passagem de Hugo Chávez pelo Brasil. Quase ao mesmo tempo em que o venezuelano circulava pelo Fórum Social de Porto Alegre, Lula dava entrevistas no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, e era obrigado a rebater comparações entre o governo petista e o governo chavista. Lula qualificou as comparações de "inconseqüentes". Pela primeira vez procurou dissociar-se de maneira clara do colega venezuelano, dizendo que as preocupações do Brasil não eram "por Chávez nem pela oposição, mas pela própria Venezuela, onde temos interesses".

Mesmo aos olhos dos brasileiros que o apreciam por considerá-lo uma espécie de ícone da "resistência ao imperialismo", Chávez pode perder rapidamente a graça. Vem bem ao caso recordar aquilo que o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda dizia a respeito da índole cordial do brasileiro. Ela se traduz em gestos de simpatia que não são necessariamente profundos. Ela também inclui uma boa dose de volubilidade – e pode passar da adoração ao aborrecimento em dois tempos. Há muitos exemplos desse tipo de comportamento envolvendo celebridades que se tornaram figurinhas fáceis no Brasil. No começo dos anos 80, por exemplo, o cineasta italiano Franco Zeffirelli passou a fazer visitas regulares ao Rio de Janeiro. Num primeiro momento, a sociedade carioca adorou receber o diretor famoso. Pouco depois, zombava dele, aplicando-lhe o apelido de "Tia Zefa". Outro caso é o do cantor Sting. No fim dos anos 80, ele se envolveu com a causa da preservação da Amazônia. Foi fotografado em meio aos índios e tornou-se parceiro do cacique Raoni, a quem levou para uma turnê pela Europa. Sting foi presença constante no Brasil até 1992 – quando subitamente começaram a achar que ele era um artista um tanto chato, que usava a causa indígena para se autopromover. A história do compositor australiano Nick Cave é ainda mais melancólica. Saudado como gênio do rock até meados dos anos 90, ele causou frisson ao mudar-se para São Paulo. Mas logo passou a ser tratado como "espalha-rodinhas" nas festas da cidade – aquele que faz as pessoas se dispersarem quando chega. Embora adore uma certa dose de camaradagem, o brasileiro não perdoa o famoso que se torna próximo demais. Para manter a aura, é melhor agir como a atriz francesa Brigitte Bardot, que passou por Búzios uma única vez nos anos 60 e é celebrada até hoje, com direito inclusive a estátua na cidade. Se fosse esperto, Chávez agiria como Bardot. Mas aí já é pedir demais.

 
 
   
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