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Fome Zero, confusão
dez
O programa
que é a menina-dos-olhos
de Lula nasce
marcado pela improvisação
e por críticas
Monica Weinberg
Evelson de Freitas/AE
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| Gisele
entrega um vale de 50 000 reais a Graziano: governo ainda não
abriu as contas onde serão depositadas as doações
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Nesta semana
será lançado nas minúsculas Guaribas e Acauã,
no Piauí, o piloto de uma das ações do projeto Fome
Zero, menina-dos-olhos (e do marketing) do governo petista. Trata-se do
Cartão Alimentação, com o qual pessoas pobres poderão
sacar 50 reais por mês para a compra de comida. Finalizado a toque
de caixa, a mando do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o programa
nasce marcado pela improvisação e por uma proeza: todos
os especialistas em ações sociais, não importam as
suas simpatias políticas, acham a iniciativa do Fome Zero um equívoco
em vários aspectos. A improvisação deve ser creditada,
principalmente, ao ministro Extraordinário de Segurança
Alimentar e de Combate à Fome, José Graziano. Até
o momento, o seu trabalho parece obedecer à máxima do finado
apresentador Chacrinha. Ou seja, Graziano veio para confundir, e não
para explicar.
Não
está suficientemente explicado, para começar, como serão
punidos aqueles que usarem o dinheiro do cartão para comprar itens
proibidos, como refrigerantes, cigarros ou bebidas alcoólicas.
Graziano garante que quem não comprovar que cumpriu as regras por
três meses seguidos ficará sem o benefício. Seus subordinados,
no entanto, continuam a falar outra língua. "Não acho que
a pessoa deva perder o benefício. O nosso papel é educar",
afirma Rosângela Maria de Souza, coordenadora do programa no Piauí.
Outro ponto que permanece obscuro diz respeito à implicância
de Graziano com biscoito recheado. Sabe-se lá por quê, o
ministro não quer ouvir falar de pobre comendo biscoito recheado.
Essa prevenção, num ministro de Lula, é surpreendente.
Durante a campanha presidencial, Lula contou que uma de suas dolorosas
lembranças da infância era do dia em que o pai lhe negou
um sorvete. Na última hora, o biscoito recheado de Graziano foi
retirado da lista de itens proibidos, mas os comitês gestores, encarregados
de controlar as compras dos pobres em cada cidade atendida pelo programa,
poderão "contra-indicar" o produto, seja lá o que isso for.
O modo de fiscalizar é mais um enrosco. Depois de ser bombardeado
por causa da idéia de exigir que nos confins do Piauí o
sujeito apresente nota fiscal da compra feita com o dinheiro do cartão,
Graziano e seus assessores resolveram que valem também anotações
feitas pelo dono do armazém. Isso significa que, na prática,
se preferir comprar cigarro a feijão, a pessoa encontrará
poucos entraves para transgredir a norma. Também é provável
que as restrições transformem os cartões em moedas
de troca com deságio, num mecanismo semelhante ao que ocorre com
os passes de ônibus nas grandes cidades. E, por fim, quem vai fiscalizar
os comitês gestores? Esse tipo de burocracia, como já foi
sobejamente provado, propicia o surgimento de tiranetes locais, que exercerão
seu poder de controle para barganhar favores e obter ganhos pessoais.
Os especialistas
encaram tudo isso com um misto de preocupação e perplexidade.
Eles consideram um retrocesso concentrar esforços na simples distribuição
de alimentos, e não em programas de promoção social,
como os que exigem das famílias que as crianças freqüentem
a escola e cuidem da saúde de seus integrantes. "Esses são
programas menos assistencialistas. Ao não se restringirem à
comida, dão condições para a pessoa superar a pobreza",
diz Zilda Arns, coordenadora da Pastoral da Criança. Os mais avançados
programas sociais do mundo seguem nessa direção entre
eles, o Bolsa-Escola e o Bolsa-Alimentação, lançados
pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. O Fome Zero, da maneira como
vem sendo estruturado, é um primor de tutelagem. Seus idealizadores
querem inspecionar o que as pessoas consomem e colocá-las de castigo
se elas saírem da linha. Partem da suposição de que
os pobres gastam mal, o que não é verdade, e de que só
precisam encher a pança. Um levantamento feito no ano passado com
os beneficiários do Bolsa-Alimentação, programa que
não restringe os gastos das pessoas atendidas, mostra que eles
despendiam metade do que recebiam com comida. Boa parte do restante servia
para comprar remédios e material escolar. Tutelar rima com humilhar
e a própria configuração do cartão
indica que Graziano e seu pessoal não são lá muito
hábeis em termos de relações humanas. Na pressa de
lançar o programa, eles pegaram o cartão que já era
usado nos programas sociais do governo FHC e tascaram em cima os dizeres
"Fome Zero". Imagine só o constrangimento de apresentar um cartão
desses num banco.
Os brasileiros
são um povo generoso. Desde que os petistas falaram pela primeira
vez no Fome Zero, milhares de pessoas se mobilizaram para arrecadar alimentos
e doar dinheiro. Na semana passada, sob a luz de holofotes, a supermodelo
Gisele Bündchen entregou um vale de 50.000
reais a Graziano, parte do cachê que embolsou para desfilar num
evento de moda em São Paulo. Muitas empresas já demonstraram
vontade de colaborar, mas o Ministério de Segurança Alimentar
ainda não montou nenhuma estrutura para receber as doações,
sejam elas em espécie ou em dinheiro. O que foi anunciado até
o momento é que no próximo dia 15 serão divulgados
os números de duas contas correntes nas quais as pessoas poderão
depositar suas contribuições. O Fome Zero é dez
uma confusão nota dez.
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