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Edição 1 788 - 5 de fevereiro de 2003
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Nosso homem no mundo

Lula vai à Europa sob a bandeira da normalidade e volta abençoado – pelo
FMI – como um "socialista maduro"

Vilma Gryzinski

 
J. F. Diorio/AE
Em Porto Alegre, torta no rosto de Genoíno

Roberto Castro/AE
Em Davos, beijinho, de Anne Krueger, em Palocci: conciliando o desejável ao possível


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Lula não resolveu o problema da fome no mundo. Lula não ofereceu uma alternativa pacífica à guerra que o presidente George W. Bush prepara contra o Iraque. Lula não matou o dragão do neoliberalismo. Nem com os subsídios aos produtos agrícolas europeus ele acabou.

Ainda bem. Se prevalecesse a versão irracionalmente exuberante sobre os resultados da viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Davos, para o Fórum Econômico Mundial, e das visitas de Estado à Alemanha e à França, é possível que o Brasil tivesse hoje como chefe de governo um caso de megalomania galopante. No campo da realidade, o presidente fez uma viagem muitíssimo bem-sucedida, durante a qual foi recebido com enorme amabilidade, propôs unanimidades (quem pode ser contra a idéia de um programa mundial de combate à fome?) e, mais importante que tudo, transmitiu uma imagem de normalidade. Por sua presença e postura, deixou no ar a concepção de que é normal que o novo presidente do Brasil, antes de ir a Davos, passe no Fórum de Porto Alegre – como é normal, embora de péssima educação política, que descontentes descarreguem a ira sob a forma da torta atirada à face do presidente do PT, José Genoíno. É normal que Lula seja contra a guerra, contra o protecionismo, contra a fome e contra a pobreza. E é normal que diga isso tudo e siga uma política econômica austera, racional e realista.

Essa é, evidentemente, a mais importante das normalidades e a que constituiu o alicerce da boa recepção obtida pelo presidente. Governantes do mundo desenvolvido e grandes investidores ainda estão dando um longo suspiro de alívio em face da reversão de expectativas negativas criadas em torno da vitória de um presidente de esquerda no Brasil. "Tanto para a Europa quanto para os Estados Unidos, é infinitamente mais tranqüilizador ter na América Latina, em vez de uma esquerda populista, uma esquerda racional, que quer dar um passo à frente, mas também conciliar o desejável ao possível", analisa o cientista social Paulo Resende, da PUC-SP. A manutenção de fundamentos econômicos como austeridade fiscal e metas de inflação, da mesma forma que a indicação de um banqueiro de reputação internacional para dirigir o Banco Central, é tão fiel ao governo anterior que, segundo um observador diplomático, Lula "deveria pagar copyright ao presidente Fernando Henrique Cardoso". É por causa disso que o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Horst Koehler, contemplou-o com um elogio que já ganhou vida própria: "socialista maduro". O beijinho da vice-diretora-gerente do Fundo, a implacável Anne Krueger, no ministro da Fazenda, Antônio Palocci, teve menos destaque, mas nem por isso foi menos simbólico.

A política econômica equilibrada, no entanto, não basta para explicar o entusiasmo despertado por Lula e o congestionamento em sua agenda. Em Davos, o presidente se encontrou com os dois Bill, o Gates, da Microsoft, e o Clinton, e com o ex-bicho-papão George Soros. A espanhola Ana Botín, herdeira do Banco Santander, pediu conversa e detalhes do programa Fome Zero. O presidente da Polônia, Aleksander Kwasniewski, também – mas não conseguiu tempo. Lula trocou comentários espirituosos com o primeiro-ministro da Alemanha, Gerhard Schroeder, em Berlim, e declarações de afinidade com o presidente da França, Jacques Chirac ("Temos posições quase idênticas em relação ao Iraque", disse o anfitrião. Contra a guerra, ça va sans dire). Em recepção na embaixada brasileira em Paris, quatro ex-primeiros-ministros franceses, todos do Partido Socialista (Lionel Jospin, Laurent Fabius, Pierre Mauroy e Michel Rocard), encantaram-se com o presidente brasileiro. Uma enxurrada de artigos na imprensa saudou a teoria da ponte entre os dois mundos, Davos e Porto Alegre. Também se difundiu a tese de que Lula representaria um novo modelo para a alquebrada esquerda francesa, mas esse é o tipo de assunto que merece se esvanecer tão rapidamente quanto surgiu – em especial quando se lembra que, em outras eras, os líderes que vinham do Terceiro Mundo para salvar o Primeiro iam do chinês Mao Tsé-tung ao cambojano Pol Pot.

Para examinar os outros motivos da bem-sucedida visita é preciso entrar um pouco no terreno da cultura e da psicologia. Lula é capaz de falar com uma sinceridade e uma exposição de sentimentos que, no Brasil, já despertam enorme reação favorável. Imagine-se então na Europa, de disciplina emocional mais rígida e inevitável consciência culpada dos ricos diante dos desvalidos da terra. O alemão Koehler sentiu pessoalmente os resultados do efeito Lula. Para ilustrar os males da corrupção, ele veio com o exemplo de um amigo, fabricante de sapatos, que hesitava em abrir um negócio no Brasil por causa do que ouvira falar sobre os métodos ilegítimos da terra. Lula contrapôs com a própria história de vida, recuperando o caso da mãe, que "morreu pobre e analfabeta", como vítima indireta do desvio de dinheiro público. Tudo isso regado a lágrimas copiosas. A conversa acabou com o diretor-gerente do FMI fazendo um pedido emocionado: "Posso lhe dar um abraço?".

Além da boa vontade reservada a um líder político emotivo, diferente, que passou por dificuldades imagináveis hoje pela maioria dos europeus, deu duro no chão de fábrica e perdeu um dedo no torno, também contou no clima positivo da viagem o lugar ocupado pelo Brasil no imaginário europeu. "Na maior parte das pesquisas, o Brasil é associado à criatividade. Quando se pensa no país, o que vem à cabeça é exotismo, fronteira, grande escala, dinamismo", diz o professor português Manuel Villaverde Cabral, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. "Se um líder como Lula tivesse saído de um país pequeno, ou mesmo de uma nação grande mas sem o charme do Brasil, dificilmente faria tanto sucesso." É verdade que um europeu, confrontado com exotismos do Novo Mundo, seja um papagaio, uma sambista ou um presidente-operário, geralmente entreabre um sorriso de encantamento, embora às vezes tingido pelo ar docemente paternalista, desejoso talvez de que essas energias em estado bruto injetem um sopro de renovação na alma do Velho Continente. Do outro lado, os subdesenvolvidos não resistem a anotar com sofreguidão todos os gestos de boa vontade e gentileza, num indício de que até num país esplendidamente auto-suficiente em termos de psicologia coletiva, como o Brasil, ainda ansiamos pela aprovação "deles" – os ricos, os cultos, os bem-sucedidos.

Isso não significa que Lula não tenha tido motivos para comemorar a viagem – como o fez, sem pudores. "A sociologia não previa que um ser humano pudesse, ao mesmo tempo, ser respeitado num encontro em Porto Alegre e em Davos", auto-elogiou-se o presidente. A linguagem é tortuosa, mas todo mundo entendeu a mensagem. Viajar é bom, ser bem recebido pelos grandes do mundo é ótimo e ser tratado com consideração excepcional, melhor ainda. Fernando Henrique Cardoso demorou para descobrir isso: em seu primeiro mandato, só foi à Europa quatro meses depois da posse. Em um mês de governo, Lula acumulou muito mais milhagem: esteve no Equador, na Suíça, na Alemanha e na França. Ainda bem que ninguém nem se lembra mais das críticas do candidato Lula às viagens de FHC. Nem das críticas do candidato José Serra ao candidato Lula, durante a campanha. Em sua propaganda, o tucano sugeriu abertamente que ele próprio, José Serra, é que tinha competência para encarar os grandes do mundo – e que a Lula faltava preparo para esse confronto. A viagem de Lula à Europa desmentiu o preconceito tucano. Lula não apenas está à altura da tarefa. Ele ultrapassou qualquer expectativa positiva que se pudesse ter a seu respeito nesse terreno.


Com reportagem de Raul Juste Lores,
Thaís Oyama e Eduardo Salgado

 
 

   
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