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Nosso
homem no mundo
Lula vai à Europa
sob a bandeira da normalidade e volta abençoado pelo
FMI como um "socialista maduro"
Vilma Gryzinski
J. F. Diorio/AE
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| Em
Porto Alegre, torta no rosto de Genoíno |
Roberto Castro/AE
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Em
Davos, beijinho, de Anne Krueger, em Palocci: conciliando o desejável
ao possível |

Veja também |
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Lula
não resolveu o problema da fome no mundo. Lula não ofereceu
uma alternativa pacífica à guerra que o presidente George
W. Bush prepara contra o Iraque. Lula não matou o dragão
do neoliberalismo. Nem com os subsídios aos produtos agrícolas
europeus ele acabou.
Ainda bem. Se prevalecesse a versão irracionalmente exuberante
sobre os resultados da viagem do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva a Davos, para o Fórum Econômico Mundial, e das visitas
de Estado à Alemanha e à França, é possível
que o Brasil tivesse hoje como chefe de governo um caso de megalomania
galopante. No campo da realidade, o presidente fez uma viagem muitíssimo
bem-sucedida, durante a qual foi recebido com enorme amabilidade, propôs
unanimidades (quem pode ser contra a idéia de um programa mundial
de combate à fome?) e, mais importante que tudo, transmitiu uma
imagem de normalidade. Por sua presença e postura, deixou no ar
a concepção de que é normal que o novo presidente
do Brasil, antes de ir a Davos, passe no Fórum de Porto Alegre
como é normal, embora de péssima educação
política, que descontentes descarreguem a ira sob a forma da torta
atirada à face do presidente do PT, José Genoíno.
É normal que Lula seja contra a guerra, contra o protecionismo,
contra a fome e contra a pobreza. E é normal que diga isso tudo
e siga uma política econômica austera, racional e realista.
Essa é, evidentemente, a mais importante das normalidades e a que
constituiu o alicerce da boa recepção obtida pelo presidente.
Governantes do mundo desenvolvido e grandes investidores ainda estão
dando um longo suspiro de alívio em face da reversão de
expectativas negativas criadas em torno da vitória de um presidente
de esquerda no Brasil. "Tanto para a Europa quanto para os Estados Unidos,
é infinitamente mais tranqüilizador ter na América
Latina, em vez de uma esquerda populista, uma esquerda racional, que quer
dar um passo à frente, mas também conciliar o desejável
ao possível", analisa o cientista social Paulo Resende, da PUC-SP.
A manutenção de fundamentos econômicos como austeridade
fiscal e metas de inflação, da mesma forma que a indicação
de um banqueiro de reputação internacional para dirigir
o Banco Central, é tão fiel ao governo anterior que, segundo
um observador diplomático, Lula "deveria pagar copyright ao presidente
Fernando Henrique Cardoso". É por causa disso que o diretor-gerente
do Fundo Monetário Internacional, Horst Koehler, contemplou-o com
um elogio que já ganhou vida própria: "socialista maduro".
O beijinho da vice-diretora-gerente do Fundo, a implacável Anne
Krueger, no ministro da Fazenda, Antônio Palocci, teve menos destaque,
mas nem por isso foi menos simbólico.
A política econômica equilibrada, no entanto, não
basta para explicar o entusiasmo despertado por Lula e o congestionamento
em sua agenda. Em Davos, o presidente se encontrou com os dois Bill, o
Gates, da Microsoft, e o Clinton, e com o ex-bicho-papão George
Soros. A espanhola Ana Botín, herdeira do Banco Santander, pediu
conversa e detalhes do programa Fome Zero. O presidente da Polônia,
Aleksander Kwasniewski, também mas não conseguiu
tempo. Lula trocou comentários espirituosos com o primeiro-ministro
da Alemanha, Gerhard Schroeder, em Berlim, e declarações
de afinidade com o presidente da França, Jacques Chirac ("Temos
posições quase idênticas em relação
ao Iraque", disse o anfitrião. Contra a guerra, ça va
sans dire). Em recepção na embaixada brasileira em Paris,
quatro ex-primeiros-ministros franceses, todos do Partido Socialista (Lionel
Jospin, Laurent Fabius, Pierre Mauroy e Michel Rocard), encantaram-se
com o presidente brasileiro. Uma enxurrada de artigos na imprensa saudou
a teoria da ponte entre os dois mundos, Davos e Porto Alegre. Também
se difundiu a tese de que Lula representaria um novo modelo para a alquebrada
esquerda francesa, mas esse é o tipo de assunto que merece se esvanecer
tão rapidamente quanto surgiu em especial quando se lembra
que, em outras eras, os líderes que vinham do Terceiro Mundo para
salvar o Primeiro iam do chinês Mao Tsé-tung ao cambojano
Pol Pot.
Para examinar os outros motivos da bem-sucedida visita é preciso
entrar um pouco no terreno da cultura e da psicologia. Lula é capaz
de falar com uma sinceridade e uma exposição de sentimentos
que, no Brasil, já despertam enorme reação favorável.
Imagine-se então na Europa, de disciplina emocional mais rígida
e inevitável consciência culpada dos ricos diante dos desvalidos
da terra. O alemão Koehler sentiu pessoalmente os resultados do
efeito Lula. Para ilustrar os males da corrupção, ele veio
com o exemplo de um amigo, fabricante de sapatos, que hesitava em abrir
um negócio no Brasil por causa do que ouvira falar sobre os métodos
ilegítimos da terra. Lula contrapôs com a própria
história de vida, recuperando o caso da mãe, que "morreu
pobre e analfabeta", como vítima indireta do desvio de dinheiro
público. Tudo isso regado a lágrimas copiosas. A conversa
acabou com o diretor-gerente do FMI fazendo um pedido emocionado: "Posso
lhe dar um abraço?".
Além da boa vontade reservada a um líder político
emotivo, diferente, que passou por dificuldades imagináveis hoje
pela maioria dos europeus, deu duro no chão de fábrica e
perdeu um dedo no torno, também contou no clima positivo da viagem
o lugar ocupado pelo Brasil no imaginário europeu. "Na maior parte
das pesquisas, o Brasil é associado à criatividade. Quando
se pensa no país, o que vem à cabeça é exotismo,
fronteira, grande escala, dinamismo", diz o professor português
Manuel Villaverde Cabral, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais
da Universidade de Lisboa. "Se um líder como Lula tivesse saído
de um país pequeno, ou mesmo de uma nação grande
mas sem o charme do Brasil, dificilmente faria tanto sucesso." É
verdade que um europeu, confrontado com exotismos do Novo Mundo, seja
um papagaio, uma sambista ou um presidente-operário, geralmente
entreabre um sorriso de encantamento, embora às vezes tingido pelo
ar docemente paternalista, desejoso talvez de que essas energias em estado
bruto injetem um sopro de renovação na alma do Velho Continente.
Do outro lado, os subdesenvolvidos não resistem a anotar com sofreguidão
todos os gestos de boa vontade e gentileza, num indício de que
até num país esplendidamente auto-suficiente em termos de
psicologia coletiva, como o Brasil, ainda ansiamos pela aprovação
"deles" os ricos, os cultos, os bem-sucedidos.
Isso não significa que Lula não tenha tido motivos para
comemorar a viagem como o fez, sem pudores. "A sociologia não
previa que um ser humano pudesse, ao mesmo tempo, ser respeitado num encontro
em Porto Alegre e em Davos", auto-elogiou-se o presidente. A linguagem
é tortuosa, mas todo mundo entendeu a mensagem. Viajar é
bom, ser bem recebido pelos grandes do mundo é ótimo e ser
tratado com consideração excepcional, melhor ainda. Fernando
Henrique Cardoso demorou para descobrir isso: em seu primeiro mandato,
só foi à Europa quatro meses depois da posse. Em um mês
de governo, Lula acumulou muito mais milhagem: esteve no Equador, na Suíça,
na Alemanha e na França. Ainda bem que ninguém nem se lembra
mais das críticas do candidato Lula às viagens de FHC. Nem
das críticas do candidato José Serra ao candidato Lula,
durante a campanha. Em sua propaganda, o tucano sugeriu abertamente que
ele próprio, José Serra, é que tinha competência
para encarar os grandes do mundo e que a Lula faltava preparo para
esse confronto. A viagem de Lula à Europa desmentiu o preconceito
tucano. Lula não apenas está à altura da tarefa.
Ele ultrapassou qualquer expectativa positiva que se pudesse ter a seu
respeito nesse terreno.
Com reportagem de Raul Juste Lores,
Thaís Oyama e Eduardo Salgado
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