Ilustração Alê Setti
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Vou morrer em 2035. É um dado estatístico irrefutável,
de acordo com um teste que fiz no suplemento feminino de um
jornal. Levando em conta a minha data de nascimento, os meus
hábitos alimentares, o país onde vivo, a falta
de exercícios físicos, a taxa de colesterol, os
avanços da ciência e a idade em que morreram os
meus avós, chego aos 73 anos. Pessoalmente, acho pouco.
Acharia pouco mesmo que me garantissem 150 ou 200 anos de vida.
Porque esse troço de morrer é meio besta. Discordo
da morte. Considero-a totalmente desnecessária. A eutanásia,
por exemplo. Claro que sou favorável, mas jamais pensaria
em me submeter a ela. Em vez de morrer, prefiro passar o resto
da eternidade num leito de hospital, com dores tremendas, cego,
com os braços e as pernas amputados, dando trabalho aos
meus parentes. Pode ser que a morte faça algum sentido
para quem acredita em alma, em paraíso, em mula-sem-cabeça.
Eu nunca acreditei nessas coisas. A morte, para mim, é
inútil e ilógica. Eu a aboliria.
Como ninguém
vai abolir a morte, em 2035 inexoravelmente desapareço
do mapa. Viro pó. Fim. Isso significa que, fazendo uma
conta simples, vou viver menos no século XXI do que vivi
no século XX. Tecnicamente, pertenço ao século
passado. Pior: ao milênio passado. Tudo me liga a ele.
A minha profissão escritor é típica
do segundo milênio. Tende a acabar logo no comecinho do
terceiro. As minhas idéias também se formaram
no milênio passado. De agora em diante, só posso
tentar reciclá-las, com maior ou menor destreza. Os meus
amigos serão aqueles poucos que restarem do velho milênio.
Caso você queira se tornar meu amigo, esqueça:
no terceiro milênio, não pretendo fazer nenhum
novo amigo. Não pretendo, igualmente, deixar descendentes.
Se, por alguma desgraça, eles aparecerem, vão
pensar em mim como num fóssil do milênio passado,
mais ou menos como eu penso em Sancho III, o rei navarro que
viveu na virada do primeiro para o segundo milênio. Sancho
III morreu em 1035, exatamente 1.000
anos antes de mim.
O fato é
que o novo milênio nem começou e já estou
com raiva dele. Porque me sinto excluído. Não
que o milênio passado tivesse me incluído em alguma
coisa. Pelo contrário. Sou de uma geração
azarada, que ficou bem no meio do caminho: jovem demais para
participar do próprio milênio, o segundo, e velha
demais para enfrentar o terceiro. Juntamente com todos os meus
coetâneos, terei de viver como uma espécie de pária
até 2035, ano da minha triste e prematura morte. Pode
parecer uma desvantagem enorme. O meu objetivo, nos próximos
anos, é tentar reverter essa desvantagem a meu favor.
Na qualidade de pária, não tenho a menor responsabilidade
em relação ao passado ou ao futuro: posso agir
como bem entendo. É o que vou fazer. Esperneando de maneira
mesquinha contra o terceiro milênio. Queixando-me obtusamente
de tudo o que inventarem de agora em diante. Este milênio
não é meu. Este milênio não me quer.
Este milênio eu não vou ver. Então, ele
que não conte comigo. E que se dane a posteridade.