Edição 1 630 -5/1/2000

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Entre dois milênios


Ilustração Alê Setti


Vou morrer em 2035. É um dado estatístico irrefutável, de acordo com um teste que fiz no suplemento feminino de um jornal. Levando em conta a minha data de nascimento, os meus hábitos alimentares, o país onde vivo, a falta de exercícios físicos, a taxa de colesterol, os avanços da ciência e a idade em que morreram os meus avós, chego aos 73 anos. Pessoalmente, acho pouco. Acharia pouco mesmo que me garantissem 150 ou 200 anos de vida. Porque esse troço de morrer é meio besta. Discordo da morte. Considero-a totalmente desnecessária. A eutanásia, por exemplo. Claro que sou favorável, mas jamais pensaria em me submeter a ela. Em vez de morrer, prefiro passar o resto da eternidade num leito de hospital, com dores tremendas, cego, com os braços e as pernas amputados, dando trabalho aos meus parentes. Pode ser que a morte faça algum sentido para quem acredita em alma, em paraíso, em mula-sem-cabeça. Eu nunca acreditei nessas coisas. A morte, para mim, é inútil e ilógica. Eu a aboliria.

Como ninguém vai abolir a morte, em 2035 inexoravelmente desapareço do mapa. Viro pó. Fim. Isso significa que, fazendo uma conta simples, vou viver menos no século XXI do que vivi no século XX. Tecnicamente, pertenço ao século passado. Pior: ao milênio passado. Tudo me liga a ele. A minha profissão – escritor – é típica do segundo milênio. Tende a acabar logo no comecinho do terceiro. As minhas idéias também se formaram no milênio passado. De agora em diante, só posso tentar reciclá-las, com maior ou menor destreza. Os meus amigos serão aqueles poucos que restarem do velho milênio. Caso você queira se tornar meu amigo, esqueça: no terceiro milênio, não pretendo fazer nenhum novo amigo. Não pretendo, igualmente, deixar descendentes. Se, por alguma desgraça, eles aparecerem, vão pensar em mim como num fóssil do milênio passado, mais ou menos como eu penso em Sancho III, o rei navarro que viveu na virada do primeiro para o segundo milênio. Sancho III morreu em 1035, exatamente 1.000 anos antes de mim.

O fato é que o novo milênio nem começou e já estou com raiva dele. Porque me sinto excluído. Não que o milênio passado tivesse me incluído em alguma coisa. Pelo contrário. Sou de uma geração azarada, que ficou bem no meio do caminho: jovem demais para participar do próprio milênio, o segundo, e velha demais para enfrentar o terceiro. Juntamente com todos os meus coetâneos, terei de viver como uma espécie de pária até 2035, ano da minha triste e prematura morte. Pode parecer uma desvantagem enorme. O meu objetivo, nos próximos anos, é tentar reverter essa desvantagem a meu favor. Na qualidade de pária, não tenho a menor responsabilidade em relação ao passado ou ao futuro: posso agir como bem entendo. É o que vou fazer. Esperneando de maneira mesquinha contra o terceiro milênio. Queixando-me obtusamente de tudo o que inventarem de agora em diante. Este milênio não é meu. Este milênio não me quer. Este milênio eu não vou ver. Então, ele que não conte comigo. E que se dane a posteridade.

 

 


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