Edição 1 630 -5/1/2000

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Não sou um robô

Recém-casado, o jogador briga com a sogra,
pena sua pior fase no futebol
e pede paciência aos torcedores

Thaís Oyama

Ronaldo Luís Nazário de Lima, agora homem casado, continua bom menino: chama a mulher de esposa, briga com a sogra mas não fala mal dela, faz caridade e liga, sim, para o que dizem sobre ele. Prova disso é que, vencido pelas críticas, decidiu vender a reluzente Ferrari vermelha, sonho comprado com alarde e que alguns consideraram uma afronta à indigência nacional. Recuperando-se de uma cirurgia no joelho, o atacante amarga repouso forçado em sua cobertura na Barra, Rio de Janeiro, onde ele, 23 anos, e a mulher, Milene Domingues, de 20, se divertem escrevendo versinhos um para o outro – para depois saírem colando os papéis pela casa. Feliz no amor, mas muito infeliz no jogo, Ronaldinho, o Fenômeno, eleito melhor do mundo duas vezes, o ídolo mundial que fatura 15 milhões de dólares por ano, atravessa a pior fase de sua carreira. A gangorra da sorte – e os humores da torcida – começa a mareá-lo. Em entrevista a VEJA, ele reclamou da pressão: "Queria que as pessoas tivessem mais paciência comigo. Não sou uma máquina de fazer gol".

Veja – Você foi eleito duas vezes o melhor jogador do mundo. Na última eleição do melhor jogador da Europa, feita pela revista France Football, recebeu só 2 dos mais de 700 votos. Conheceu o céu, desceu ao inferno...
Ronaldo –
Estou vivendo ele agora.  

Veja – E como é?
Ronaldo –
É duro. Mas todo mundo viveu, até o Pelé. Ele ficou dez jogos sem marcar um gol. Eu estou sofrendo com a impossibilidade de jogar. Não é pelo fato de estar jogando mal, é que eu não estou jogando. Estou fazendo de tudo para me recuperar, mas há pessoas que não entendem, não têm paciência. O que eu mais queria era estar jogando. Jogador de futebol só é feliz quando joga. Só que eu não sou um robô, daqueles que quebrou, mete ali um parafuso e está bom.  

Veja – Na Itália, apedrejaram seu carro depois da derrota para a Udinese. Você chegou a ameaçar deixar a Inter...
Ronaldo –
Não é só na Itália, não. Esse negócio de apedrejar carro começou no Brasil.  

Veja – Você fica com muita raiva quando isso acontece?
Ronaldo –
Fico chateado, claro. A torcida é muito exigente. Na França, na Inglaterra, na Holanda, as pessoas vão a um jogo de futebol para ver um espetáculo. É como ir ao teatro. No Brasil, na Itália e na Espanha é diferente. Os torcedores daqui só faltam achar que têm direito a receber salário do time para o qual torcem. São tão fanáticos, tão apaixonados, que se vêem no direito de quebrar seu carro quando você erra. Eles não entendem que ninguém erra por querer. Eu não sou uma máquina de fazer gol.

Veja – Você teve medo de operar o joelho?
Ronaldo –
Não havia como evitar. Só pedi para tomar anestesia geral para não ver nada. Quando fiz a primeira cirurgia, em 1996, fiquei apavorado. Tinha aquela história de que, quando a gente mexe no joelho, nunca mais fica a mesma coisa. Mas eu me recuperei. Vou me recuperar de novo.  

Veja – Você já teve receio de nunca mais voltar a jogar?
Ronaldo –
Nem penso nisso. Eu sei que vou ter de recomeçar praticamente do zero, mas só penso na virada, em voltar a ser o melhor do mundo. Quase toda noite eu sonho que estou jogando na praia. Às vezes, acordo e esqueço que estou do jeito que estou. Aí, dou uma andada, o joelho dói e eu caio na real de novo.  

Veja – Você tem procurado vincular cada vez mais sua imagem a causas humanitárias. Ir para Kosovo, visitar as vítimas da guerra, foi idéia sua?
Ronaldo –
Não. Foi do Rodrigo (Rodrigo Paiva, seu assessor).  

Veja – Esse esforço para passar a imagem de bom menino é uma forma de compensar a má fase no futebol?
Ronaldo –
Não é para compensar. A idéia foi do Rodrigo, mas topei na hora, porque pobreza é uma coisa que eu entendo, que eu vivi. Nunca passei fome, mas vi muita gente perto de mim passar. Essa viagem foi uma das coisas mais emocionantes da minha vida. Fiz aquela doação de 30.000 reais e todo mundo falou, mas ninguém sabe que eu já tinha dado 80.000 reais. Antes eu fazia tudo na moita, sem publicidade. Agora aprendi que fazer publicidade das minhas caridades tem seu lado bom.  

Veja – Como assim?
Ronaldo –
Quando fui ao Instituto Nacional do Câncer, no Rio, avisamos todo mundo. O Jornal Nacional deu e, no final, falou: se você quiser fazer como o Ronaldinho, liga para tal número. Isso eu acho legal. Num país carente como o nosso, os ídolos têm mais conceito do que muitos políticos. Eu tenho de dar o exemplo.  

Veja – Ter de ficar dando exemplo sempre não é chato? Não pesa?
Ronaldo –
Pesa quando faço besteira.  

Veja – Que tipo de besteira?
Ronaldo –
Umas besteiras a gente sempre faz. Que nem esse negócio de comprar a Ferrari. Para mim, não era uma besteira, era um sonho. Desde pequeno eu sonhava em ter uma Ferrari. Mas o sonho virou pesadelo. Virou escândalo. Todo mundo me criticou porque eu paguei 500.000 reais num carro. Então, resolvi vender. Não vou mais andar de Ferrari. Já curti esse carro. Andei com ele nas férias.  

Veja – Foi para evitar esse tipo de coisa que você optou por um casamento simples?
Ronaldo –
Já pensou se no dia de Natal eu fizesse uma festa igual à que alguns socialites e políticos fazem? Iam cair de pau.  

Veja – Você reclama muito da imprensa. Acha que é injustiçado? Ronaldo – Já fui.

Veja – Em que situações?
Ronaldo –
O que fizeram comigo aqui no Brasil depois da Copa do Mundo foi triste, mas passou.  

Veja – Fizeram o quê?
Ronaldo –
Quando tive aquele problema, que foi um problema médico, eu expliquei tudo, contei mil vezes a história, e os jornalistas sempre achavam que eu estava escondendo o jogo, mentindo. Falaram até que eu tinha sido envenenado.  

Veja – É verdade que você pediu para dormir com seu pai na noite depois da convulsão?
Ronaldo –
Fui para a cama dele de manhã.

Veja – Por quê?
Ronaldo –
Sei lá, porque sou normal.  

Veja – Você acha que tem uma vida normal?
Ronaldo –
Acho que eu tenho direito de ter uma vida normal, na medida do possível. Não entendo e acho um absurdo todo mundo querer saber o que foi que eu comprei, por que foi que eu casei, por que é que a sogra não foi à festa...  

Veja – Qual o problema entre você e dona Lúcia (mãe de Milene Domingues, mulher do jogador)?
Ronaldo –
Eu não tenho problema nenhum. Só não acho legal a Milene continuar fazendo embaixada grávida (dona Lúcia foi contra a idéia de a filha interromper contratos profissionais por causa da gravidez). Pelo menos nesse período da gravidez, quero que ela fique sossegada, mais perto de mim. A mãe dela pensa diferente. Mas o fato de ela não falar comigo não significa nada para mim. O que eu quero é que ela volte a falar com a filha dela.  

Veja – Vocês se casaram com separação de bens. Foi difícil a negociação?
Ronaldo –
Não. Hoje em dia todo mundo toma esses cuidados. A gente jogou aberto. Eu quero ficar com ela para o resto da vida, mas, se amanhã ou depois vem uma separação, ela mesma acha justo não ter participação no que eu ganhei antes do casamento. Mas acho chato ficarem falando disso. Todo mundo ficou dizendo que a gente se casou depois de dois meses de namoro, que isso era absurdo e não sei o quê mais. Vou fazer o quê? Eu amo a Milene e ela me ama. Gosto de tudo nela: do jeito dela, da tranqüilidade que ela tem. Ela ri o tempo todo.  

Veja – A gravidez pegou vocês de surpresa?
Ronaldo –
Não foi programada, mas também não fizemos nada para evitar. Estou feliz com isso. A gente quer ter cinco filhos.  

Veja – O primeiro vai se chamar Ronald. Por que não Ronaldo?
Ronaldo –
Não queria que fosse igual ao meu nome, queria que fosse parecido. Não queria fazer como o Romário, que botou Romário, Romarinho... E também porque a Milene gostou do nome. A gente come muito no McDonald's, e tem o Ronald McDonald lá. Aí, ficou Ronald.

Veja – A maioria dos seus amigos é do tempo em que você morava em Bento Ribeiro (subúrbio carioca). No futebol não se fazem amigos?
Ronaldo –
O futebol é um mundo meio falso. Eu conto nos dedos de uma mão os amigos de verdade que eu fiz lá. Você fica meses numa concentração: dorme, acorda, janta junto e, depois, a pessoa vai embora e nem te telefona. O Zamorano (da seleção chilena) e o Moriero (italiano), que jogam comigo na Inter, moram no meu prédio. Eu nunca fui à casa deles e eles nunca foram a minha.  

Veja – E há muita competição entre vocês?
Ronaldo –
Tem em todo lugar, né? Quando eu entrei para a Inter, uns jogadores fizeram uma panelinha para me deixar de lado. Não quero falar quem são.  

Veja – Como assim, "panelinha"?
Ronaldo –
Aquelas bobagens, de fazer piadinha que você não entende, falar mal pelas costas. Acho que foi por inveja. Por causa da fama, da imprensa correndo atrás.

Veja – Você é assediado até nas ruas de Hong Kong, não pode sair à vontade na rua. Continua gostando de conversar horas pela internet sem se identificar?
Ronaldo –
Internet é bom. Eu fico batendo papo furado mesmo, falando do Flamengo, vendo o que as pessoas pensam. O engraçado é que, às vezes, eu digo que sou o Ronaldo, o jogador, e ninguém acredita. Também gosto de brincar de videokê com minha tia e meus primos. Tenho duas máquinas de videokê, uma na Itália e outra na casa da minha mãe.

Veja – Você canta o quê?
Ronaldo –
Canto mais pagode. Mas a música que eu canto melhor é uma do Cazuza: Exagerado. Quando você canta, a máquina te dá uma nota, que vai de zero a 100. Eu já tirei 99.

Veja – Você sempre diz que seu sonho é jogar no Flamengo. Quando é que isso vai acontecer?
Ronaldo –
Vai chegar a hora. Tenho mais cinco anos de contrato com a Inter e, mesmo que não tivesse, não vou sair de lá derrotado. Nem me passa pela cabeça isso. Voltar para o Brasil também é complicado por causa do calendário dos jogos daqui. É um absurdo o que fazem com o atleta no Brasil. Na Europa, os jogadores fazem, no máximo, sessenta jogos por ano. Aqui, chega a quase 100. É uma falta de respeito com o atleta.  

Veja – Você recebe tratamento de pop star na Europa. Gosta da badalação?
Ronaldo –
Não fico na badalação. Vou a algumas festas. Lá na Itália você vive encontrando artistas. Conheci o Ricky Martin, a Gwyneth Paltrow, a Madonna. Tirei até foto com ela.  

Veja – Muita gente diz que seu rendimento caiu por causa de suas atividades extracampo. Festas, campanhas publicitárias, compromissos beneficentes...
Ronaldo –
Nunca deixei de cumprir nenhum compromisso profissional por causa das minhas coisas. Acho engraçado isso. Se eu estivesse fazendo gol, ninguém iria reclamar que estou fazendo isso ou aquilo. É sempre assim: quando você está por cima, todo mundo fala bem. Quando está numa fase ruim, só metem o pau. É por isso que eu fiquei emocionado com o convite da Organização das Nações Unidas, ONU (em fevereiro, o jogador recebe o título de embaixador mundial contra a fome). Eles não me chamaram quando eu estava no auge. Me chamaram agora que estou por baixo.

Veja – Das críticas que você andou recebendo, qual a que mais o chateou?
Ronaldo –
O Pelé andou falando umas coisas desagradáveis de mim. Mas ele brigou com todo mundo: com o Senna, com o Romário, com o Zico. Eu não quero ser o Pelé, não tenho a ambição de ser Pelé. Quero entrar para a história como Ronaldo. Mas o Pelé acredita na minha volta. Ele disse isso.  

Veja – É verdade que a Inter está pressionando você para fazer terapia?
Ronaldo –
É mentira isso. A Inter tem uma psicóloga, como a maioria dos grandes clubes, mas ela atende todos os jogadores, não só eu.  

Veja – Você tem medo de alguma coisa?
Ronaldo –
Não tenho medo de nada.  

Veja – De nada?
Ronaldo –
Só de escuro.  

Veja – Dorme de luz acesa?
Ronaldo –
Tudo aceso.  

Veja – Mas é medo de quê? De ladrão?
Ronaldo –
Não. Das coisas que vêm a minha imaginação.  

Veja – Você reclamava quando era chamado na Itália de Fenômeno. Por quê?
Ronaldo –
Porque acho exagerado. Esse apelido só me deu problemas. Sou bom no que faço, mas estou sujeito a erros. As pessoas às vezes acham que eu sou um extraterrestre.

Veja – E você acha que é o quê?
Ronaldo –
Eu? Eu acho que sou um cara legal.

 


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