Não sou um robô
Recém-casado, o jogador briga com a sogra,
pena sua pior fase no futebol
e pede paciência aos torcedores
Thaís Oyama
Ronaldo Luís Nazário de Lima, agora homem casado,
continua bom menino: chama a mulher de esposa, briga com a sogra
mas não fala mal dela, faz caridade e liga, sim, para
o que dizem sobre ele. Prova disso é que, vencido pelas
críticas, decidiu vender a reluzente Ferrari vermelha,
sonho comprado com alarde e que alguns consideraram uma afronta
à indigência nacional. Recuperando-se de uma cirurgia
no joelho, o atacante amarga repouso forçado em sua cobertura
na Barra, Rio de Janeiro, onde ele, 23 anos, e a mulher, Milene
Domingues, de 20, se divertem escrevendo versinhos um para o
outro para depois saírem colando os papéis
pela casa. Feliz no amor, mas muito infeliz no jogo, Ronaldinho,
o Fenômeno, eleito melhor do mundo duas vezes, o ídolo
mundial que fatura 15 milhões de dólares por ano,
atravessa a pior fase de sua carreira. A gangorra da sorte
e os humores da torcida começa a mareá-lo.
Em entrevista a VEJA, ele reclamou da pressão: "Queria
que as pessoas tivessem mais paciência comigo. Não
sou uma máquina de fazer gol".
Veja Você foi eleito duas vezes o melhor jogador
do mundo. Na última eleição do melhor jogador
da Europa, feita pela revista France Football, recebeu
só 2 dos mais de 700 votos. Conheceu o céu, desceu
ao inferno...
Ronaldo Estou vivendo ele agora.
Veja E como é?
Ronaldo É duro. Mas todo mundo viveu, até
o Pelé. Ele ficou dez jogos sem marcar um gol. Eu estou
sofrendo com a impossibilidade de jogar. Não é
pelo fato de estar jogando mal, é que eu não estou
jogando. Estou fazendo de tudo para me recuperar, mas há
pessoas que não entendem, não têm paciência.
O que eu mais queria era estar jogando. Jogador de futebol só
é feliz quando joga. Só que eu não sou
um robô, daqueles que quebrou, mete ali um parafuso e
está bom.
Veja Na Itália, apedrejaram seu carro depois
da derrota para a Udinese. Você chegou a ameaçar
deixar a Inter...
Ronaldo Não é só na Itália,
não. Esse negócio de apedrejar carro começou
no Brasil.
Veja Você fica com muita raiva quando isso
acontece?
Ronaldo Fico chateado, claro. A torcida é
muito exigente. Na França, na Inglaterra, na Holanda,
as pessoas vão a um jogo de futebol para ver um espetáculo.
É como ir ao teatro. No Brasil, na Itália e na
Espanha é diferente. Os torcedores daqui só faltam
achar que têm direito a receber salário do time
para o qual torcem. São tão fanáticos,
tão apaixonados, que se vêem no direito de quebrar
seu carro quando você erra. Eles não entendem que
ninguém erra por querer. Eu não sou uma máquina
de fazer gol.
Veja Você teve medo de operar o joelho?
Ronaldo Não havia como evitar. Só pedi
para tomar anestesia geral para não ver nada. Quando
fiz a primeira cirurgia, em 1996, fiquei apavorado. Tinha aquela
história de que, quando a gente mexe no joelho, nunca
mais fica a mesma coisa. Mas eu me recuperei. Vou me recuperar
de novo.
Veja Você já teve receio de nunca mais
voltar a jogar?
Ronaldo Nem penso nisso. Eu sei que vou ter de recomeçar
praticamente do zero, mas só penso na virada, em voltar
a ser o melhor do mundo. Quase toda noite eu sonho que estou
jogando na praia. Às vezes, acordo e esqueço que
estou do jeito que estou. Aí, dou uma andada, o joelho
dói e eu caio na real de novo.
Veja Você tem procurado vincular cada vez mais
sua imagem a causas humanitárias. Ir para Kosovo, visitar
as vítimas da guerra, foi idéia sua?
Ronaldo Não. Foi do Rodrigo (Rodrigo Paiva,
seu assessor).
Veja Esse esforço para passar a imagem de
bom menino é uma forma de compensar a má fase
no futebol?
Ronaldo Não é para compensar. A idéia
foi do Rodrigo, mas topei na hora, porque pobreza é uma
coisa que eu entendo, que eu vivi. Nunca passei fome, mas vi
muita gente perto de mim passar. Essa viagem foi uma das coisas
mais emocionantes da minha vida. Fiz aquela doação
de 30.000 reais e todo mundo
falou, mas ninguém sabe que eu já tinha dado 80.000
reais. Antes eu fazia tudo na moita, sem publicidade. Agora
aprendi que fazer publicidade das minhas caridades tem seu lado
bom.
Veja Como assim?
Ronaldo Quando fui ao Instituto Nacional do Câncer,
no Rio, avisamos todo mundo. O Jornal Nacional deu e,
no final, falou: se você quiser fazer como o Ronaldinho,
liga para tal número. Isso eu acho legal. Num país
carente como o nosso, os ídolos têm mais conceito
do que muitos políticos. Eu tenho de dar o exemplo.
Veja Ter de ficar dando exemplo sempre não
é chato? Não pesa?
Ronaldo Pesa quando faço besteira.
Veja Que tipo de besteira?
Ronaldo Umas besteiras a gente sempre faz. Que nem
esse negócio de comprar a Ferrari. Para mim, não
era uma besteira, era um sonho. Desde pequeno eu sonhava em
ter uma Ferrari. Mas o sonho virou pesadelo. Virou escândalo.
Todo mundo me criticou porque eu paguei 500.000
reais num carro. Então, resolvi vender. Não vou
mais andar de Ferrari. Já curti esse carro. Andei com
ele nas férias.
Veja Foi para evitar esse tipo de coisa que você
optou por um casamento simples?
Ronaldo Já pensou se no dia de Natal eu fizesse
uma festa igual à que alguns socialites e políticos
fazem? Iam cair de pau.
Veja Você reclama muito da imprensa. Acha que
é injustiçado? Ronaldo Já fui.
Veja Em que situações?
Ronaldo O que fizeram comigo aqui no Brasil depois
da Copa do Mundo foi triste, mas passou.
Veja Fizeram o quê?
Ronaldo Quando tive aquele problema, que foi um problema
médico, eu expliquei tudo, contei mil vezes a história,
e os jornalistas sempre achavam que eu estava escondendo o jogo,
mentindo. Falaram até que eu tinha sido envenenado.
Veja É verdade que você pediu para dormir
com seu pai na noite depois da convulsão?
Ronaldo Fui para a cama dele de manhã.
Veja Por quê?
Ronaldo Sei lá, porque sou normal.
Veja Você acha que tem uma vida normal?
Ronaldo Acho que eu tenho direito de ter uma vida
normal, na medida do possível. Não entendo e acho
um absurdo todo mundo querer saber o que foi que eu comprei,
por que foi que eu casei, por que é que a sogra não
foi à festa...
Veja Qual o problema entre você e dona Lúcia
(mãe de Milene Domingues, mulher do jogador)?
Ronaldo Eu não tenho problema nenhum. Só
não acho legal a Milene continuar fazendo embaixada grávida
(dona Lúcia foi contra a idéia de a filha interromper
contratos profissionais por causa da gravidez). Pelo menos
nesse período da gravidez, quero que ela fique sossegada,
mais perto de mim. A mãe dela pensa diferente. Mas o
fato de ela não falar comigo não significa nada
para mim. O que eu quero é que ela volte a falar com
a filha dela.
Veja Vocês se casaram com separação
de bens. Foi difícil a negociação?
Ronaldo Não. Hoje em dia todo mundo toma esses
cuidados. A gente jogou aberto. Eu quero ficar com ela para
o resto da vida, mas, se amanhã ou depois vem uma separação,
ela mesma acha justo não ter participação
no que eu ganhei antes do casamento. Mas acho chato ficarem
falando disso. Todo mundo ficou dizendo que a gente se casou
depois de dois meses de namoro, que isso era absurdo e não
sei o quê mais. Vou fazer o quê? Eu amo a Milene
e ela me ama. Gosto de tudo nela: do jeito dela, da tranqüilidade
que ela tem. Ela ri o tempo todo.
Veja A gravidez pegou vocês de surpresa?
Ronaldo Não foi programada, mas também
não fizemos nada para evitar. Estou feliz com isso. A
gente quer ter cinco filhos.
Veja O primeiro vai se chamar Ronald. Por que não
Ronaldo?
Ronaldo Não queria que fosse igual ao meu
nome, queria que fosse parecido. Não queria fazer como
o Romário, que botou Romário, Romarinho... E também
porque a Milene gostou do nome. A gente come muito no McDonald's,
e tem o Ronald McDonald lá. Aí, ficou Ronald.
Veja A maioria dos seus amigos é do tempo
em que você morava em Bento Ribeiro (subúrbio
carioca). No futebol não se fazem amigos?
Ronaldo O futebol é um mundo meio falso. Eu
conto nos dedos de uma mão os amigos de verdade que eu
fiz lá. Você fica meses numa concentração:
dorme, acorda, janta junto e, depois, a pessoa vai embora e
nem te telefona. O Zamorano (da seleção chilena)
e o Moriero (italiano), que jogam comigo na Inter, moram
no meu prédio. Eu nunca fui à casa deles e eles
nunca foram a minha.
Veja E há muita competição entre
vocês?
Ronaldo Tem em todo lugar, né? Quando eu entrei
para a Inter, uns jogadores fizeram uma panelinha para me deixar
de lado. Não quero falar quem são.
Veja Como assim, "panelinha"?
Ronaldo Aquelas bobagens, de fazer piadinha que você
não entende, falar mal pelas costas. Acho que foi por
inveja. Por causa da fama, da imprensa correndo atrás.
Veja Você é assediado até nas
ruas de Hong Kong, não pode sair à vontade na
rua. Continua gostando de conversar horas pela internet sem
se identificar?
Ronaldo Internet é bom. Eu fico batendo papo
furado mesmo, falando do Flamengo, vendo o que as pessoas pensam.
O engraçado é que, às vezes, eu digo que
sou o Ronaldo, o jogador, e ninguém acredita. Também
gosto de brincar de videokê com minha tia e meus primos.
Tenho duas máquinas de videokê, uma na Itália
e outra na casa da minha mãe.
Veja Você canta o quê?
Ronaldo Canto mais pagode. Mas a música que
eu canto melhor é uma do Cazuza: Exagerado. Quando
você canta, a máquina te dá uma nota, que
vai de zero a 100. Eu já tirei 99.
Veja Você sempre diz que seu sonho é
jogar no Flamengo. Quando é que isso vai acontecer?
Ronaldo Vai chegar a hora. Tenho mais cinco anos
de contrato com a Inter e, mesmo que não tivesse, não
vou sair de lá derrotado. Nem me passa pela cabeça
isso. Voltar para o Brasil também é complicado
por causa do calendário dos jogos daqui. É um
absurdo o que fazem com o atleta no Brasil. Na Europa, os jogadores
fazem, no máximo, sessenta jogos por ano. Aqui, chega
a quase 100. É uma falta de respeito com o atleta.
Veja Você recebe tratamento de pop star na
Europa. Gosta da badalação?
Ronaldo Não fico na badalação.
Vou a algumas festas. Lá na Itália você
vive encontrando artistas. Conheci o Ricky Martin, a Gwyneth
Paltrow, a Madonna. Tirei até foto com ela.
Veja Muita gente diz que seu rendimento caiu por
causa de suas atividades extracampo. Festas, campanhas publicitárias,
compromissos beneficentes...
Ronaldo Nunca deixei de cumprir nenhum compromisso
profissional por causa das minhas coisas. Acho engraçado
isso. Se eu estivesse fazendo gol, ninguém iria reclamar
que estou fazendo isso ou aquilo. É sempre assim: quando
você está por cima, todo mundo fala bem. Quando
está numa fase ruim, só metem o pau. É
por isso que eu fiquei emocionado com o convite da Organização
das Nações Unidas, ONU (em fevereiro, o jogador
recebe o título de embaixador mundial contra a fome).
Eles não me chamaram quando eu estava no auge. Me chamaram
agora que estou por baixo.
Veja Das críticas que você andou recebendo,
qual a que mais o chateou?
Ronaldo O Pelé andou falando umas coisas desagradáveis
de mim. Mas ele brigou com todo mundo: com o Senna, com o Romário,
com o Zico. Eu não quero ser o Pelé, não
tenho a ambição de ser Pelé. Quero entrar
para a história como Ronaldo. Mas o Pelé acredita
na minha volta. Ele disse isso.
Veja É verdade que a Inter está pressionando
você para fazer terapia?
Ronaldo É mentira isso. A Inter tem uma psicóloga,
como a maioria dos grandes clubes, mas ela atende todos os jogadores,
não só eu.
Veja Você tem medo de alguma coisa?
Ronaldo Não tenho medo de nada.
Veja De nada?
Ronaldo Só de escuro.
Veja Dorme de luz acesa?
Ronaldo Tudo aceso.
Veja Mas é medo de quê? De ladrão?
Ronaldo Não. Das coisas que vêm a minha
imaginação.
Veja Você reclamava quando era chamado na Itália
de Fenômeno. Por quê?
Ronaldo Porque acho exagerado. Esse apelido só
me deu problemas. Sou bom no que faço, mas estou sujeito
a erros. As pessoas às vezes acham que eu sou um extraterrestre.
Veja E você acha que é o quê?
Ronaldo Eu? Eu acho que sou um cara legal.