Edição 1 630 -5/1/2000

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Propostas para o milênio

Princípios a que devem subordinar-se
as políticas públicas brasileiras

 

Ilustração Alê Setti

O
s admiradores do escritor italiano Italo Calvino, dentre os quais eu me incluo, vão certamente reconhecer esse título. Foi nesses termos que ele se apresentou, em junho de 1984, para um ciclo de seis conferências em Harvard, das quais completou apenas cinco. Só existem notas sobre a sexta, jamais feita.

 

A expectativa em Harvard era de que Calvino viria ensinar, modelar e prever os rumos da literatura. Se conhecesse bem o Brasil, Brasília especialmente, teria adotado nosso gingado e trazido consigo um Plano Nacional de Desenvolvimento da Literatura, PNDL, ou o rascunho de uma Lei de Diretrizes e Bases da Literatura Universal, LDBLU, destinada a eleger prioridades de forma a alocar recursos para novos escritores. Em vez disso, todavia, sua idéia foi enunciar, conforme explicou sua mulher, Esther, na publicação póstuma das cinco conferências, "valores literários que mereciam ser preservados no curso do próximo milênio". As melhores lições do milênio que passou, destiladas para o próximo.

Essa forma de reunir desejos para o futuro me parece especialmente propícia também para os debates sobre o desenvolvimento brasileiro ou, ao menos, muito mais útil que esses nossos PNDs e PPAs, que nada mais são que listas de rubricas orçamentárias do lado das despesas invariavelmente em valor muito superior ao das receitas disponíveis. Como se o irrealismo denotasse ambição, e não irresponsabilidade.

Nos dias de hoje, o desenvolvimento econômico não apenas deixou de ser uma questão de gasto público como, pelo contrário, passou a depender de os governos obedecerem a determinados princípios limitadores, na ausência dos quais sua atuação é basicamente negativa. Tendo em vista o objetivo maior de produzir crescimento com justiça social, cinco princípios a que devem subordinar-se as políticas públicas brasileiras no próximo milênio podem ser enunciados como se segue.

1. Extroversão – O desenvolvimento do país, da empresa e das pessoas dependerá fundamentalmente de se encontrar bons termos com o ambiente a nossa volta. A auto-suficiência é uma proposição fracassada e ultrapassada. Nenhum homem, empresa ou país é uma ilha em um mundo trespassado por fibras ópticas. Felizes serão aqueles que maximizarem seu intercâmbio, sujeitando-se a uma disciplina maior e integrando-se em grupos e redes cujo valor é um múltiplo da soma de seus membros.

2. Horizontalismo – O Estado deve corrigir as injustiças, é claro, mas deve evitar eleger favoritos e campeões. Deve promover a meritocracia, ensinar a pescar e não fornecer benesses de forma arbitrária, como ainda se faz em áreas "estratégicas", ou com problemas. Este é um país propenso a transformar todos os desfavorecidos em pensionistas do Estado, na forma de clientelas políticas. O Estado deve tratar a economia de forma horizontal, oferecendo oportunidades iguais a todos, portanto deve preocupar-se com questões sistêmicas, holísticas e macroeconômicas.

3. Equilíbrio – Infeliz da sociedade que impõe ao Estado deveres sob a forma de despesas, para os quais não lhe entrega, sob a forma de tributos, os recursos para executar. Ou que cria obrigações futuras (sob forma de dívidas e pensões), mas não economiza para depois cumprir. Quando a sociedade condena o Estado ao desequilíbrio, as políticas públicas serão predatórias: vão tributar os pobres por meio da inflação ou penhorar o futuro com dívidas impagáveis. A responsabilidade fiscal há de entrar na lei penal.

4. Leveza – Cresceram em demasia as responsabilidades do Estado, que deve desembaraçar-se de todas as suas empresas a fim de concentrar-se no fornecimento, em níveis básicos, de bens públicos, como educação e saúde, assim como em pesquisa tecnológica e cultura. As burocracias dificilmente trabalham melhor que os mercados, que também não são perfeitos, mas certamente são mais baratos para o contribuinte.

5. Transparência – Os governos, no Brasil, raramente se exibem no que é importante. Você sabe qual o déficit do município onde mora? E o do Brasil? Sem leveza nem transparência, as políticas públicas exibirão doses preocupantes de corrupção, nepotismo, fisiologismo, males que devemos mobilizar-nos para combater. A internet vai ajudar e transformar a política, mas vai revelar que as maiorias são silenciosas por desinteresse, dado que a política é uma chatice mesmo.

O título da sexta conferência era "Consistência", e as anotações de Calvino apontavam para o tema "começar e terminar". Vamos, então, terminar de forma simples: se os cinco princípios acima nomeados não forem adotados consistentemente, ou seja, se não entrarem para o mundo das leis e dos costumes, e não se transformarem em regras limitadoras de verdade, sua eficácia será muito pequena, como, aliás, costuma ser o caso dos planos de desenvolvimento.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)

 


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