Paulo Fridman
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Ei-nos no novo milênio! Por mais que lembremos que se
trata de uma simples convenção, que nada realmente
mudou desde a semana passada, que nosso planeta e nosso país
continuam os mesmos, a mudança no calendário
convida a um momento de reflexão a respeito de onde
nos encontramos e o que podemos esperar nos "novos tempos"
à nossa frente.
Se olharmos apenas as estatísticas de
renda per capita, o Brasil entra neste novo século
mais ou menos onde se encontrava há vinte anos. O que
convenhamos não é motivo de festa alguma,
pois significa que, desde 1980, a economia brasileira apenas
cresceu na mesma proporção de sua população.
Mas é também inegável que
em outros aspectos o Brasil mudou dramaticamente no
mesmo período. Além de termos reconquistado
a liberdade, fortalecemos o regime democrático ao colocar
a lei acima até de um presidente, virtualmente acabamos
com a inflação que tanto contribuiu para tornar
a distribuição de renda ainda mais injusta,
e demos uma arrancada na direção de uma moderna
economia de mercado com a privatização de empresas
estatais e a abertura do país para o mundo.
Ou seja, demos os primeiros passos indispensáveis
para poder dar os próximos.
O que falta fazer? Uma enormidade de coisas,
começando (desculpem a insistência) pelas reformas
ainda pendentes da utópica Constituição
de 1988, que deu tudo para todos sem a menor preocupação
em como pagar isso. Pois sem a reforma tributária e
a criação de um sistema de previdência
social justo e viável, continuaremos sem a menor possibilidade
de equilibrar as contas públicas. Isso significa que
estaremos condenados a continuar pagando taxas de juros que
ao mesmo tempo inviabilizam novos investimentos por
parte das empresas nacionais, liquidam nossa competitividade
internacional, limitam o crescimento da economia (e a criação
de empregos) e transformam nossa dívida pública
num taxímetro enlouquecido.
Infelizmente, nossas demais prioridades também
continuam sendo as de sempre, mas há pelo menos uma
tendência animadora à vista: os 48 milhões
de jovens (um contingente maior do que a população
inteira de muitos países importantes) inscritos na
pré-escola, ensino fundamental e ensino médio
brasileiro finalmente começam a receber a atenção
e recursos de que tanto precisam. Isso é realmente
fundamental, em todos os sentidos da palavra. Pois se não
melhorarmos dramaticamente a qualidade do ensino básico,
não apenas estaremos tirando de nossos filhos e netos
as chances de um futuro melhor, mas também liquidando
de vez com a esperança de criar um país próspero
e desenvolvido num mundo em que o grande diferencial está
não nos recursos físicos, mas sim no conhecimento
e na capacidade de lidar com uma torrente de informação
e mudanças cada vez mais aceleradas.
Aqui, como em todo o resto, precisamos lembrar
que a tarefa não é apenas dos governos, mas
de todos nós. Não podemos nos satisfazer com
as previsões de "um ano melhor": precisamos arregaçar
as mangas para fazê-lo acontecer. Não surgirão
escolas melhores sem a participação dos pais
dos alunos. Não teremos governos mais eficientes e
eficazes (e isso inclui o Legislativo e o Judiciário)
sem a cobrança permanente de um eleitorado esclarecido.
Não acabaremos com a corrupção e impunidade
se não estivermos dispostos a denunciar as mazelas
de quem nos espolia. Não seremos mais competitivos
sem o empenho das empresas e seus empregados. E nem sequer
discutiremos o que realmente conta se a mídia não
focalizar além dos assuntos de interesse do
público as grandes questões de interesse
público.
O futuro que desejamos depende mais do que nunca
da disposição de nos engajarmos em todos
os níveis na tarefa de moldá-lo com as
próprias mãos.