Edição 1 630 -5/1/2000

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A tarefa de moldar o futuro não é só dos governos, mas de todos nós

Se não melhorarmos dramaticamente a qualidade
do ensino básico, estaremos tirando de nossos filhos
e netos as chances de um futuro melhor e liquidando
a esperança de criar um país próspero


Paulo Fridman


Ei-nos no novo milênio! Por mais que lembremos que se trata de uma simples convenção, que nada realmente mudou desde a semana passada, que nosso planeta e nosso país continuam os mesmos, a mudança no calendário convida a um momento de reflexão a respeito de onde nos encontramos e o que podemos esperar nos "novos tempos" à nossa frente.

Se olharmos apenas as estatísticas de renda per capita, o Brasil entra neste novo século mais ou menos onde se encontrava há vinte anos. O que – convenhamos – não é motivo de festa alguma, pois significa que, desde 1980, a economia brasileira apenas cresceu na mesma proporção de sua população.

Mas é também inegável que – em outros aspectos – o Brasil mudou dramaticamente no mesmo período. Além de termos reconquistado a liberdade, fortalecemos o regime democrático ao colocar a lei acima até de um presidente, virtualmente acabamos com a inflação que tanto contribuiu para tornar a distribuição de renda ainda mais injusta, e demos uma arrancada na direção de uma moderna economia de mercado com a privatização de empresas estatais e a abertura do país para o mundo.

Ou seja, demos os primeiros passos indispensáveis para poder dar os próximos.

O que falta fazer? Uma enormidade de coisas, começando (desculpem a insistência) pelas reformas ainda pendentes da utópica Constituição de 1988, que deu tudo para todos sem a menor preocupação em como pagar isso. Pois sem a reforma tributária e a criação de um sistema de previdência social justo e viável, continuaremos sem a menor possibilidade de equilibrar as contas públicas. Isso significa que estaremos condenados a continuar pagando taxas de juros que – ao mesmo tempo – inviabilizam novos investimentos por parte das empresas nacionais, liquidam nossa competitividade internacional, limitam o crescimento da economia (e a criação de empregos) e transformam nossa dívida pública num taxímetro enlouquecido.

Infelizmente, nossas demais prioridades também continuam sendo as de sempre, mas há pelo menos uma tendência animadora à vista: os 48 milhões de jovens (um contingente maior do que a população inteira de muitos países importantes) inscritos na pré-escola, ensino fundamental e ensino médio brasileiro finalmente começam a receber a atenção e recursos de que tanto precisam. Isso é realmente fundamental, em todos os sentidos da palavra. Pois se não melhorarmos dramaticamente a qualidade do ensino básico, não apenas estaremos tirando de nossos filhos e netos as chances de um futuro melhor, mas também liquidando de vez com a esperança de criar um país próspero e desenvolvido num mundo em que o grande diferencial está não nos recursos físicos, mas sim no conhecimento e na capacidade de lidar com uma torrente de informação e mudanças cada vez mais aceleradas.

Aqui, como em todo o resto, precisamos lembrar que a tarefa não é apenas dos governos, mas de todos nós. Não podemos nos satisfazer com as previsões de "um ano melhor": precisamos arregaçar as mangas para fazê-lo acontecer. Não surgirão escolas melhores sem a participação dos pais dos alunos. Não teremos governos mais eficientes e eficazes (e isso inclui o Legislativo e o Judiciário) sem a cobrança permanente de um eleitorado esclarecido. Não acabaremos com a corrupção e impunidade se não estivermos dispostos a denunciar as mazelas de quem nos espolia. Não seremos mais competitivos sem o empenho das empresas e seus empregados. E nem sequer discutiremos o que realmente conta se a mídia não focalizar – além dos assuntos de interesse do público – as grandes questões de interesse público.

O futuro que desejamos depende mais do que nunca da disposição de nos engajarmos – em todos os níveis – na tarefa de moldá-lo com as próprias mãos.

 


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