Roberto Pompeu de Toledo
Woody Allen no Rio
"Para impressionar a namorada e mostrar-lhe que podia
agir como
um bravo, ele decide subir ao Morro dos Macacos
para enfrentar o temido FB.
Foi então que
"
Há uma campanha para que Woody Allen escolha o Rio de Janeiro
como locação para um de seus próximos filmes. O que não
falta são assuntos para a história. Woody sai do supermercado
com o carrinho cheio e começa a descarregar a mercadoria no porta-malas
do carro. Tira as verduras, a carne, o azeite e, quando enfim tira o sabão
em pó surpresa! , aparece um cadáver no fundo do
carrinho. "Quem disse que estávamos precisando disso?", reclama
sua namorada (Diane Keaton). "Você nunca presta atenção
na lista de compras." Segue-se uma tortuosa discussão, como em Annie
Hall.
O filme também pode começar num consultório
de psicanalista. Woody, no divã, diz à doutora (Mia Farrow, reconciliada
com o ex-marido em razão do excitante projeto de filmar no Rio) que,
não bastasse o abalo que sofreu em Nova York com o caso das torres gêmeas,
agora vem ao Rio e assiste à cena de um helicóptero abatido no
ar. "Eu levo a desgraça para onde vou", afirma. A psicanalista,
como em Zelig, intriga-se com aquele caso peculiar. Estava diante de
um Zelig ao contrário: em vez do homem camaleão, que ficava igual
às pessoas que tinha em volta, eram as coisas que ficavam iguais por
onde ele andava. E não adiantava dizer ao paciente que Nova York conhecera
um episódio único, enquanto o Rio sofria de um desfile continuado
de balas perdidas, policiais ladrões, gente torrada em "micro-ondas".
Em uma terceira possível história, o fraco e indeciso
Woody, querendo mostrar à namorada (Scarlett Johansson), como em Bananas, que pode virar um bravo, decide subir ao Morro dos Macacos para caçar
o temido FB. Segue-se que se revela tão audaz que acaba aclamado como
o novo chefe do tráfico e então
Nenhum dos entrechos está
à altura de fazer pelo Rio o que os filmes de Allen já fizeram
por Londres e Barcelona, sem falar de Nova York a câmera demorando-se
nos encantos dessas cidades e no melhor que podem oferecer? Calma, apressado
leitor. Ainda não chegamos ao fim. Intervalo para comprar pipoca.
***
O melhor da escolha do Rio para sediar a Olimpíada de 2016
é ter oferecido à cidade um prazo. O Rio precisa de prazos. O
Brasil precisa de prazos. O pior que pode acontecer é a cidade recair
nos modelos da Rio 92 e dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Nos dois casos, armou-se
uma cidade Potenkim para recepcionar os visitantes. Potenkim, para quem não
sabe, era o ministro que antes da viagem da rainha Catarina da Rússia
à Crimeia mandou armar cenários pelas aldeias por onde ela passaria,
de modo a impressioná-la com a beleza e a prosperidade da nova conquista
de seu império. É fácil armar um esquema policial-militar
que garanta a tranquilidade por três semanas, mas é também
uma vergonha. É contemplar os estrangeiros com uma fantasia e os nativos,
condenados à volta da rotina selvagem assim que o evento termina, com
um desaforo.
O prazo que o Rio ganhou é estreito a ponto de exigir ação
imediata, mas largo o suficiente para o cumprimento dos objetivos. Um inimigo
é a retórica, que tão brasileiramente considera que um
problema está sendo enfrentado tão logo se começa a fazer
discurso dizendo que está sendo enfrentado. Outro é a condescendência,
tanto das autoridades quanto de eminentes cariocas, quando se refugiam no argumento
de que outras cidades conhecem tanta ou mais violência, ou de que só
partes da cidade são afetadas.
***
Woody não é na verdade o novo chefe do tráfico;
só finge sê-lo. De dentro, empreende o trabalho de desmantelar
a quadrilha. Alia-se ao governador Sérgio Cabral e também tem
papel decisivo na denúncia e desestruturação da corrupção
policial. Aqui a história se interrompe e aparece o aviso: "Sete
anos depois
". Sete anos depois, ei-lo de volta ao Rio para a Olimpíada.
A cidade não está apenas tranquila. Também se civilizou.
Ninguém estaciona nas calçadas e respeitam-se as faixas de pedestres.
Woody confessa que, como o diretor cego de Dirigindo no Escuro, que simulava
construir cenas que na verdade lhe eram sopradas, não teve nenhum papel
na regeneração da cidade. Foi tudo obra de brasileiros, enfim
honestos, sérios e devotados com vigor a uma causa. Em seus filmes, Woody
Allen frequentemente faz a mocinha ficar com ele no final. Neste, ele conhece
uma turista espanhola (Penélope Cruz) e o resto da história é
a câmera mostrando o casal a beijar-se no alto do Corcovado, a discutir
a relação enquanto caminha no calçadão de Ipanema,
a confessar suas inseguranças enquanto circunda de bicicleta a Lagoa
Rodrigo de Freitas, e não se sabe o que mais admirar se os personagens,
os diálogos ou a cidade. The end.
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