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• Música: John Neschling lança o livro Música MundanaMúsicaMolto agitatoO maestro John Neschling, que fez da Osesp a orquestra
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Montagem sobre fotos de Lailson Santos![]() |
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| DISCIPLINA CONTRA A MEDIOCRIDADE Na montagem, John Neschling empunha a batuta: "Na arte, não existe democratismo" |
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| • Áudio: Entrevista com John Neschling |
| • Trecho: Música Mundana |
Em Otello, ópera de Giuseppe Verdi baseada na tragédia de William Shakespeare, protagonista ciumento mata a mulher, Desdêmona, e, depois de reconhecer seu equívoco, crava um punhal no próprio peito. Momentos antes do suicídio, ele diz: "Otello fu" ("Otello é passado"). Pois o maestro carioca John Neschling, de 62 anos, parafraseia essa passagem dramática para falar de sua relação atual com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), que ele dirigiu por doze anos. "Para mim, ela faz parte do passado. Osesp fu", diz Neschling, em entrevista a VEJA. O grupo sinfônico, no entanto, desperta no maestro a mesma paixão e ciúme que Otello sentia pela amada Desdêmona. Na próxima semana, John Neschling lança Música Mundana (Rocco; 190 páginas; 29,50 reais), livro em que conta as principais passagens de sua vida pessoal e profissional a Osesp, claro, preenche boa parte da narrativa.
Neschling foi o grande responsável pela reestruturação da Osesp, que transformou num conjunto respeitável, com uma sala de concertos (a Sala São Paulo) invejada por maestros do primeiro escalão, instrumentistas de padrão internacional e salários acima da média brasileira. Seu estilo centralizador, contudo, deu ensejo a polêmicas que o foram desgastando. Neschling foi demitido em janeiro, quando estava em férias, e substituído interinamente pelo francês Yan Pascal Tortelier. O maestro brasileiro guarda a frustração de não ter conduzido a transição da orquestra para uma nova fase, com um novo diretor artístico. Música Mundana esclarece alguns pontos da crise que precipitou a sua demissão, mas é um livro discreto, econômico em nomes e detalhes.
Que tipo de autoridade um maestro tem de exercer sobre a orquestra?
Na arte, as hierarquias são tão importantes quanto no Exército.
Não tem como colocar 100 pessoas tocando a mesma coisa, do jeito que
cada uma quer. Tem de haver uma liderança. Reger uma orquestra é
trabalho psicológico da mais alta precisão. Não é
uma coisa fácil você trabalhar com 100 pessoas diferentes, todas
elas sensíveis, todas elas artistas, muitas frustradas por estarem na
última estante para o resto da vida. Na arte, não existe democratismo.
Não se pode deixar a música na mão do coletivo, porque
ele tende à mediocridade.
Os músicos não buscam a excelência por si
sós?
Os músicos defendem a média. Não querem sobressair
porque, permanecendo na média, estão seguros. Imagino que no jornalismo,
na medicina, na publicidade seja a mesma coisa. Ao longo do tempo, a média
ganha sempre.
Fotos AP e Bettmann/Corbis/Latinstock![]() |
| TEMPLO MUSICAL DO RACISMO Montagem de ópera do alemão Richard Wagner (à direita) no tradicional Festival de Bayreuth: "Ainda é um templo de exaltação da ideologia nazista" |
As correntes musicais modernas mais extremas, como o atonalismo,
afugentam o público?
O atonalismo em si, não. Mas o racionalismo
da música do século XX afugentou, sim. O maestro e compositor
Leonard Bernstein falava da física na música: há uma escala
harmônica, em que cada som que você ouve tem um centro tonal. Se
você se afasta conscientemente desse centro, acaba afastando as pessoas
da música, porque elas querem sentir a fisicalidade da melodia. Eu entendo
isso. O público gostava de ouvir compositores modernos como Schoenberg
quando eu os fazia na Osesp. Não havia uma rejeição. Outro
dia, encontrei um ouvinte na rua que lembrou da 13ª Sinfonia do
Shostakovich. Ele disse: "Pô, maestro, depois que eu ouvi aquilo,
fui tomar um chope. É muito dramático". Perguntei se ele
compraria um disco com aquela sinfonia, e ele disse que não. Eu respondi:
"Foi por isso que programei aquela música: para você ouvir
aquilo que não ouviria em casa". A obrigação de uma
orquestra paga pelo governo é mostrar coisas que as pessoas não
conhecem.
Em 1984, quando era diretor artístico do Teatro Municipal
do Rio de Janeiro, o senhor se recusou a reger um concerto estrelado pela cantora
Clementina de Jesus. Por quê?
O concerto com Clementina era uma proposta
do Darcy Ribeiro, então vice-governador do Rio de Janeiro. Não
sou populista, cada lugar tem sua linguagem. Você não precisa fazer
partido-alto no Teatro Municipal, como também não precisa levar
ópera para o partido-alto. Não acho que se deva "deselitizar"
o Teatro Municipal. E, quando falo de elite, não estou falando de pessoas
que têm dinheiro: elite é quem quer ouvir aquela linguagem, que
exige mais concentração e mais estudo. Não fui contra a
Clementina de Jesus, fui contra essa deturpação da linguagem.
E disse que o Darcy era um antiantropólogo, porque queria impingir ao
Teatro Municipal um tipo de público que não conhecia o local,
nem sua linguagem, e não tinha interesse pela música tocada no
teatro.
Seus pais foram judeus austríacos que aportaram no Brasil
fugindo do nazismo. Em Música Mundana, o senhor diz que hoje tem orgulho
de não ter nacionalidade austríaca. Por quê?
Sou uma consequência
da cultura austríaca, mas não sou um grande fã da Áustria
como caráter nacional. Ela foi um dos poucos países que receberam
o nazismo de braços abertos, feliz da vida, e depois da guerra foi um
dos primeiros países a se declarar vítima absoluta da invasão
nazista. Há uma desfaçatez austríaca nessa facilidade com
que eles expulsaram toda uma geração que contribuiu de forma tão
fantástica para a cultura do país. Estudei na Áustria e
morei lá muito tempo. Pedi um passaporte austríaco, que foi negado.
Trabalhava então na Ópera de Viena, e seria mais fácil
fazer contratos como austríaco. Recusaram o meu passaporte por razões
ridículas. Fiquei com uma certa vaidade de terem negado. Até hoje
eu me orgulho de não ser austríaco. O antissemitismo na Áustria,
além disso, é uma coisa muito entranhada.
No livro, o senhor chama atenção para o paradoxo
da música de Richard Wagner, um antissemita que teve e tem grandes regentes
judeus.
Os melhores regentes de Wagner são judeus. O primeiro foi Hermann
Levy, que era filho de um rabino. Eu não tenho problemas em reger Wagner.
Mas não concordo com aqueles, como James Levine ou Daniel Barenboim,
que vão a Bayreuth (cidade alemã, sede de um grande festival
dedicado às óperas de Wagner). Lá ainda é um
centro de ideologia nazista.
No tempo em que foi casado com a atriz Lucélia Santos,
o senhor tomou o santo-daime. Por que buscou essa experiência?
Sempre
fui extremamente curioso nos assuntos espirituais. Nunca consegui ser agnóstico
e nunca consegui ser crente. O daime foi uma dessas buscas. Daime, mescalina,
essas experiências extrassensoriais de que o Aldous Huxley falava já
me interessaram. Mas há muito tempo não bebo nem fumo nada. Foi
na caretice que eu cheguei mais perto do gnosticismo. Encontrei no judaísmo
muitas respostas para o que eu estava procurando nessa época: uma compreensão
da bondade no ser humano, e não necessariamente a busca das dádivas
lá de cima.
O que acarretou sua saída da Osesp?
Foi uma decisão
ideológica do conselho da Fundação Osesp, que entrou em
um caminho que não considero correto, um caminho tipicamente americano
tanto que um dos consultores é o Henry Fogel, que foi presidente
da League of the American Orchestras. Ele é o papa de uma nova linha
de administração, na qual o diretor artístico deve ser
diminuído em relação ao diretor executivo, e na qual uma
orquestra tem de se sustentar exclusivamente com o aporte financeiro da sociedade.
Isso nos Estados Unidos é possível. No Brasil, ainda não.
O governo é responsável por grande parte do orçamento da
Osesp. A primeira consequência dessa nova linha foi o aumento no preço
dos ingressos e das assinaturas. Eu insisto na ideia de que a orquestra precisava
de ingressos baratos. Uma das grandes vantagens de uma orquestra do estado é
que ela pode educar um público, como eu eduquei durante doze anos, com
peças novas. Na programação da Osesp no ano que vem, as
únicas peças brasileiras são as que eu já tinha
encomendado. Quanto à tese de que foram meus problemas pessoais com o
governador José Serra que acarretaram a saída, eu não a
endosso. O governador evidentemente não simpatizava comigo, e hoje eu
posso dizer claramente que não simpatizo com ele. Mas Serra tinha mais
que fazer do que ficar pensando em mim. E eu também tinha mais que fazer
do que ficar pensando nele.
Seu contrato ia até 2010. Seria o fim de seu ciclo ou o
senhor queria ficar mais?
Nunca vi necessidade da eternidade no poder. Acho
perigoso, inclusive, uma pessoa ficar tempo demais. É normalíssimo
que as orquestras continuem depois de perder o maestro. Só que há
orquestras mais estruturadas e menos estruturadas. E há formas e formas
de fazer a sucessão. Eu me propunha a ficar algum tempo mais, sair de
cena gradualmente. Queria fazer a transição aos poucos, para manter
a orquestra com a mesma glória, com o mesmo espírito que ela tinha
antes. Isso não foi possível, e eu lamento muito. Já está
provado que não será possível achar um maestro até
2012. Como uma filha, eu queria entregar a Osesp ao noivo e não
que ela fugisse de casa. Não foi assim. Agora, minha questão é
continuar vivendo como músico digno. A Osesp é passado.