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• Música: John Neschling lança o livro Música MundanaCinemaEla é um sonhoPor que Zooey Deschanel, com seus extraordinários
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Armando Gallo/Retna Ltd./Corbis/ Latinstock![]() |
A ANTI-MEGAN FOX |
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Zooey Deschanel tem olhos imensos, com íris cristalinas de um azul violáceo. Todos os cineastas com que ela já trabalhou trataram de achar um jeito (muitos jeitos, se possível) de fotografar em close esses olhos extraordinários não só pela cor, mas pela capacidade de emitir franqueza: quando sombras e luzes cruzam sua superfície, não é só efeito dos cílios espessos e escuros, mas porque é neles, e só neles, que ela expõe os pensamentos e sentimentos que raras vezes deixa suas personagens articular abertamente. Aos 29 anos, mas com uma beleza delicada de menina, Zooey é o tipo de mulher que costuma ser descartada como "bonitinha" por homens afeitos a atributos mais dramáticos mas é exatamente o tipo de mulher por quem homens românticos, que olham nos olhos e que reagem a apelos como senso de humor, ou uma voz grave e cheia, se apaixonam com perdição e para sempre. Homens, por exemplo, como Tom, o protagonista de 500 Dias com Ela (500 Days of Summer, Estados Unidos, 2009), que estreia nesta sexta-feira no país.
Segundo informa o narrador desse lindo e inteligente antirromance, Tom foi desde a adolescência excessivamente exposto à vertente tristonha do pop britânico e assistiu vezes demais a A Primeira Noite de um Homem de onde formou a ideia de que existe uma pessoa predestinada para ele, e que ele não será feliz até encontrá-la. Quando Summer, a personagem de Zooey, começa a trabalhar no escritório para o qual ele redige cartões de felicitações, Tom é atingido pelo proverbial raio: essa é a mulher pela qual ele esperava. Desse instante até a resolução do relacionamento, 500 dias se passarão. O diretor Mark Webb, de quem nunca se presumiria ser um estreante, não os percorre pela ordem. Passa-se do dia 28 para o 488 e então para o dia 1, por exemplo, como se Tom estivesse folheando um caderno e detendo-se nas páginas que exemplificam as emoções que ele experimentou nos diferentes momentos dessa jornada às vezes, inclusive, voltando a páginas pelas quais já passara e entendendo-as de forma diversa. Ou, mais precisamente, procurando entender por que, se Summer é certa para ele, ele não é certo para Summer.
Não é apenas por causa da direção talentosa de Webb, ou da interpretação sentida de Joseph Gordon-Levitt (também ele um ator único), que 500 Dias se tornou, como Juno, ainda que em proporção mais modesta, objeto de adoração entre uma parcela do público jovem americano: o acerto primordial do filme é entender o que faria de uma garota uma musa para um sujeito como Tom, e então identificar em Zooey Deschanel essa garota. Não que fosse preciso um grande salto de imaginação, dado que Zooey já é uma musa plena em certos círculos.
Ela é filha de um dos mais respeitados cinegrafistas americanos (Caleb Deschanel, de Os Eleitos) e tem nome tirado de um romance de J.D. Salinger. Como cantora, faz parte de um duo, o She & Him, cultuado entre ouvintes bem-pensantes; usa vestidos de saia rodada e casaquinhos comportados que em outras mulheres ficariam patéticos, mas nela são o epítome do cool; e acaba de se casar com Ben Gibbard, vocalista da banda Death Cab for Cutie, uma sensação indie. Ao contrário de outras musas do meio independente, porém, Zooey é cada vez mais requisitada também em produções comerciais (como Um Duende em Nova York, com Will Ferrell, e Sim, Senhor, com Jim Carrey) porque traz algo único: a capacidade de transferir para seus personagens sua sinceridade, o comportamento sem afetação, a personalidade radiosa e até o figurino singular. Zooey é, de certa forma, um ideal oposto ao de ícones como Megan Fox a feminilidade exaltada não na forma, mas na essência. Para homens sensíveis como Tom, que depois de uma noite com ela se imaginam dançando You Make My Dreams, de Hall & Oates, no meio do Central Park, trata-se, enfim, de um sonho de mulher. Ainda que um sonho inatingível.
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