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Claudio de Moura Castro

O médico da
filha do médico

"Quando a experiência é preterida em favor
do diploma, os interesses das corporações podem
estar prevalecendo sobre a vontade coletiva"

 
Ilustração Ale Setti

Engravidou a filha do titular de obstetrícia de uma excelente escola de medicina. Ficou com o caso o seu ssistente mais sênior, também abarrotado de títulos acadêmicos e publicações. Lá pelo meio da gravidez, configurou-se o perigo de uma eclampse (patologia ligada à gravidez). O pai chamou o assistente e comunicou-lhe que estava passando o caso para outro médico. Pergunta então o assistente: por que trocá-lo por outro de clínica popular, com um mero diploma de medicina, sem outros títulos e publicações? A resposta é incisiva: "Porque ele já tratou mais de 500 casos de eclampses e você não".

Saiu recentemente o relatório do MEC examinando as condições de oferta das escolas de medicina. Contaram muitos pontos os títulos e publicações do assistente preterido no caso acima. Não foi considerada a experiência do médico da clínica popular, o que salvou a filha do titular de obstetrícia, pois o questionário não inclui prática profissional.

Dois professores-mestres, a mando do MEC, visitaram um curso de direito e perguntaram a dois professores mais velhos por que não tinham mestrado. Responde um deles que, quando jovem, não havia mestrado. Depois, fez carreira no Ministério Público, chegando a desembargador. Aí, mais velho, escreveu alguns dos livros adotados no curso de mestrado do petulante visitador.

Há muitos outros exemplos desse tipo, em que a bagagem profissional preterida é mais importante do que os diplomas. O pintor Portinari, o pianista Jacques Klein e o violonista Turíbio Santos não poderiam ser professores em universidade federal. Pelé poderia ensinar futebol porque tem diploma de educação física (e não pelo seu passado desportivo), mas não poderia ser chefe de departamento, pois não tem mestrado. O compositor Bruno Kiefer só era chefe do departamento de música da UFRGS porque tinha um doutorado em matemática, e não pela qualidade de suas sonatas. A boa notícia é que Caetano Veloso agora pode ensinar música, pois ganhou um doutorado honoris causa. A má notícia é uma supervalorização dos diplomas, sobretudo do diploma irrelevante ou desconectado do real desempenho. Em certas áreas, como as artes, a publicação acadêmica é um equívoco.

Felizmente, o Conselho Nacional de Educação já disse claramente que experiência é importante – ao contrário do velho Conselho Federal da Educação, que nunca ousou fazê-lo. O ministro e as lideranças da Secretaria de Educação Superior (Sesu) vêm também defendendo o mérito da prática.

Mas o problema não está nessas cúpulas, e sim nas entranhas da burocracia e nas indomáveis corporações de ofício das profissões. São elas que definem os princípios e zelam por eles. São os vampiros cuidando dos bancos de sangue. São os mais diplomados – mas profissionalmente inexperientes – dizendo que só diploma é importante, criando assim reserva de mercado para as promoções e as chefias. São os formuladores de concurso para professor, esquecendo de incluir a experiência.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) é um ator importante no ensino do direito, mas não pode tomar decisões em nome da sociedade, pois representa o interesse de um grupo (volonté de tous, no dizer de Rousseau), e não o interesse coletivo (volonté générale). Infelizmente, ainda sobrevive uma visão populista sob cuja lógica os interesses privados ou corporativos são defendidos e os professores de medicina, engenharia, economia ou direito se arvoram em representar não os interesses da classe mas o interesse coletivo. Mas esse erro é primário, esses grupos não podem mandar soberanamente, sem os "checks and balances" de outras forças vivas da sociedade – como os consumidores, pessoas mais neutras, de outras áreas ou representando interesses opostos.

A sociedade brasileira reagiu a um autoritarismo, às vezes atrabiliário, com uma visão igualmente equivocada: uma pseudodemocracia, em que a responsabilidade passa de um governo constituído democraticamente para hordas de grupos de interesse, nos quais predomina a força do mais organizado e mais aguerrido. O pior já passou, mas as dificuldades do MEC mostram que o caminho ainda é longo.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)

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