Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Sobrenatural de Almeida
em duas versões

Um celebrado artilheiro e um goleiro
azarado protagonizam histórias
impossíveis nos campos de futebol

O último minuto é o mais mítico dos momentos de uma partida de futebol. No último minuto, num jogo parelho, as últimas e escassas forças se mobilizam. O cansaço já trava as pernas e obnubila os reflexos. Os movimentos se arrastam em ritmo de pesadelo. Mesmo assim, quando o jogo vale a pena e o time é brioso, tenta-se. Com o fôlego que resta, como quem joga a cartada final da respiração boca a boca, tenta-se arrombar a porta da impossibilidade. De resto, e se o Sobrenatural de Almeida hoje está jogando no nosso time?

Se o(a) leitor(a) ainda não o conhece, vamos às apresentações. Leitor(a), Sobrenatural de Almeida. Sobrenatural de Almeida, leitor(a). Muito prazer, muito prazer. Ou melhor: talvez não seja o caso de dizer "muito prazer" diante de tão sinistro personagem. Sobrenatural de Almeida é uma criação de Nelson Rodrigues. Se ele fosse visível, o figurino provável seria o de um hominho magro, faces macilentas, boca chupada, arcado, terno preto sobrando-lhe nas escassas carnes, camisa preta, sapato preto, guarda-chuva preto pendurado no braço. Mas ele é invisível. Costumava, segundo Nelson Rodrigues, pousar no travessão defendido pelo Fluminense, o time do coração do grande cronista e teatrólogo, e aprontar-lhe as mais inverossímeis surpresas.

O Sobrenatural de Almeida tinha a camisa do Brasil por baixo do terno preto na decisão da Copa América. No último minuto, aliás último segundo, ultimíssimo, e note-se que no futebol o último segundo vem atrás da prorrogação, que de si já é um último choro contra a fatalidade do decurso de prazo, o Brasil conseguiu o empate que possibilitou a disputa de pênaltis e a conseqüente vitória contra a Argentina.

Quais são os critérios do Sobrenatural de Almeida? Bem, o Sobrenatural, por dever de ofício, não declina seus critérios. Pode-se intuir que, numa disputa de pênaltis, sua atenção esteja voltada para aquelas linhas de jogadores abraçados que se formam no meio do campo, para avaliar quais os sinceros e quais os que apenas fingem fervor místico, para premiar os sinceros e punir os fingidores, mas isso é apenas adivinhação. O que se sabe é que o Sobrenatural de Almeida pousou no meio da área argentina e possibilitou que o chute de Adriano atingisse as redes, naquele sagrado segundo final.

Esse jogo todo mundo viu, todo mundo comentou e dele extraiu sua dose de emoção e perplexidade. Bem menos espectadores viram, dado que agora se tratava de um jogo banal, apenas a rotina de mais uma rodada do Campeonato Brasileiro, o jogo disputado três dias depois em Caxias do Sul entre Juventude e São Paulo. O Sobrenatural de Almeida dessa vez empoleirou-se, um pé em cada ombro, no pobre goleiro do Juventude, Eduardo Martini. Martini foi apanhar uma bola fácil, cruzada da esquerda bem em sua direção, e a bola bateu-lhe nas mãos e voltou como pipoca ao tocar no fundo da panela, oferecendo-se em seguida, como vil meretriz, ao adversário. Este só teve o trabalho de empurrá-la para o gol. Foi um frango de proporções pantagruélicas.

O Sobrenatural de Almeida ainda não estava satisfeito. Tinha cismado com o rapaz, e algum tempo depois ei-lo fazendo com que Eduardo Martini, ao tentar mandar longe, com o pé, uma bola que lhe tinha sido recuada, furasse espetacularmente. A leitora não sabe o que é furar? Leitora, furar. Furar, leitora. Mas não se diga, ainda aqui, muito prazer, porque furar é das piores desgraças que podem acometer um jogador de futebol. É quando se vai tentar o chute e se erra a bola. Chuta-se a terra, a grama, o ar, tudo, menos a bola, que prossegue seu curso, impassível. O goleiro ainda tentou alcançar de volta a bola que se encaminhava, solerte, contra o próprio gol, no esforço patético e desengonçado de segurar o frango pelas penas, mas o adversário que corria junto chegou antes e empurrou-a para a rede. O Juventude perdeu de 2 a 1, por culpa direta, pessoal e intransferível, do goleiro Eduardo Martini.

Adriano e Martini experimentaram sensações opostas. Adriano, na noite da vitória contra a Argentina, dormiria ao embalo da reprise, no cinema da mente, do glorioso lance do último segundo. Já Martini... Pode-se imaginar a noite que o esperava, depois do jogo contra o São Paulo. Mas, no momento em que deixava o gramado, ele mostrou que, mesmo vaiado, mesmo ferido e ludibriado pela pior das artimanhas do Sobrenatural de Almeida, ainda abrigava, por baixo da pele de frangueiro, um coração intacto. Com voz firme, sem deter a caminhada rumo ao vestiário, disse ao repórter que lhe estendia o microfone: "Peço desculpas à torcida. Tive uma atuação ruim e desestruturei a minha equipe". Qual o ministro que diz isso, qual o deputado, qual o diretor do Banco Central, depois dos frangos pantagruélicos que, eles também, costumam engolir? Qual o empresário, o executivo, o jornalista? O presidente Lula anda à cata de heróis. Adriano seria o herói óbvio da semana. Seria... Porque, pensando bem, comportamento raro foi o de Eduardo Martini. Pelo critério da hombridade, herói é ele.

 

 
 
 
 
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