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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Sobrenatural de Almeida
em duas versões
Um celebrado artilheiro e um goleiro
azarado protagonizam histórias
impossíveis nos campos de futebol
O último minuto é o mais mítico
dos momentos de uma partida de futebol. No último minuto,
num jogo parelho, as últimas e escassas forças se
mobilizam. O cansaço já trava as pernas e obnubila
os reflexos. Os movimentos se arrastam em ritmo de pesadelo. Mesmo
assim, quando o jogo vale a pena e o time é brioso, tenta-se.
Com o fôlego que resta, como quem joga a cartada final da
respiração boca a boca, tenta-se arrombar a porta
da impossibilidade. De resto, e se o Sobrenatural de Almeida hoje
está jogando no nosso time?
Se o(a) leitor(a) ainda não o conhece,
vamos às apresentações. Leitor(a), Sobrenatural
de Almeida. Sobrenatural de Almeida, leitor(a). Muito prazer, muito
prazer. Ou melhor: talvez não seja o caso de dizer "muito
prazer" diante de tão sinistro personagem. Sobrenatural de
Almeida é uma criação de Nelson Rodrigues.
Se ele fosse visível, o figurino provável seria o
de um hominho magro, faces macilentas, boca chupada, arcado, terno
preto sobrando-lhe nas escassas carnes, camisa preta, sapato preto,
guarda-chuva preto pendurado no braço. Mas ele é invisível.
Costumava, segundo Nelson Rodrigues, pousar no travessão
defendido pelo Fluminense, o time do coração do grande
cronista e teatrólogo, e aprontar-lhe as mais inverossímeis
surpresas.
O Sobrenatural de Almeida tinha a camisa do
Brasil por baixo do terno preto na decisão da Copa América.
No último minuto, aliás último segundo, ultimíssimo,
e note-se que no futebol o último segundo vem atrás
da prorrogação, que de si já é um último
choro contra a fatalidade do decurso de prazo, o Brasil conseguiu
o empate que possibilitou a disputa de pênaltis e a conseqüente
vitória contra a Argentina.
Quais são os critérios do Sobrenatural
de Almeida? Bem, o Sobrenatural, por dever de ofício, não
declina seus critérios. Pode-se intuir que, numa disputa
de pênaltis, sua atenção esteja voltada para
aquelas linhas de jogadores abraçados que se formam no meio
do campo, para avaliar quais os sinceros e quais os que apenas fingem
fervor místico, para premiar os sinceros e punir os fingidores,
mas isso é apenas adivinhação. O que se sabe
é que o Sobrenatural de Almeida pousou no meio da área
argentina e possibilitou que o chute de Adriano atingisse as redes,
naquele sagrado segundo final.
Esse jogo todo mundo viu, todo mundo comentou
e dele extraiu sua dose de emoção e perplexidade.
Bem menos espectadores viram, dado que agora se tratava de um jogo
banal, apenas a rotina de mais uma rodada do Campeonato Brasileiro,
o jogo disputado três dias depois em Caxias do Sul entre Juventude
e São Paulo. O Sobrenatural de Almeida dessa vez empoleirou-se,
um pé em cada ombro, no pobre goleiro do Juventude, Eduardo
Martini. Martini foi apanhar uma bola fácil, cruzada da esquerda
bem em sua direção, e a bola bateu-lhe nas mãos
e voltou como pipoca ao tocar no fundo da panela, oferecendo-se
em seguida, como vil meretriz, ao adversário. Este só
teve o trabalho de empurrá-la para o gol. Foi um frango de
proporções pantagruélicas.
O Sobrenatural de Almeida ainda não
estava satisfeito. Tinha cismado com o rapaz, e algum tempo depois
ei-lo fazendo com que Eduardo Martini, ao tentar mandar longe, com
o pé, uma bola que lhe tinha sido recuada, furasse espetacularmente.
A leitora não sabe o que é furar? Leitora, furar.
Furar, leitora. Mas não se diga, ainda aqui, muito prazer,
porque furar é das piores desgraças que podem acometer
um jogador de futebol. É quando se vai tentar o chute e se
erra a bola. Chuta-se a terra, a grama, o ar, tudo, menos a bola,
que prossegue seu curso, impassível. O goleiro ainda tentou
alcançar de volta a bola que se encaminhava, solerte, contra
o próprio gol, no esforço patético e desengonçado
de segurar o frango pelas penas, mas o adversário que corria
junto chegou antes e empurrou-a para a rede. O Juventude perdeu
de 2 a 1, por culpa direta, pessoal e intransferível, do
goleiro Eduardo Martini.
Adriano e Martini experimentaram sensações
opostas. Adriano, na noite da vitória contra a Argentina,
dormiria ao embalo da reprise, no cinema da mente, do glorioso lance
do último segundo. Já Martini... Pode-se imaginar
a noite que o esperava, depois do jogo contra o São Paulo.
Mas, no momento em que deixava o gramado, ele mostrou que, mesmo
vaiado, mesmo ferido e ludibriado pela pior das artimanhas do Sobrenatural
de Almeida, ainda abrigava, por baixo da pele de frangueiro, um
coração intacto. Com voz firme, sem deter a caminhada
rumo ao vestiário, disse ao repórter que lhe estendia
o microfone: "Peço desculpas à torcida. Tive uma atuação
ruim e desestruturei a minha equipe". Qual o ministro que diz isso,
qual o deputado, qual o diretor do Banco Central, depois dos frangos
pantagruélicos que, eles também, costumam engolir?
Qual o empresário, o executivo, o jornalista? O presidente
Lula anda à cata de heróis. Adriano seria o herói
óbvio da semana. Seria... Porque, pensando bem, comportamento
raro foi o de Eduardo Martini. Pelo critério da hombridade,
herói é ele.
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