Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Livros
Homem de família

Nos contos do inglês Hanif Kureishi,
os órfãos da revolução sexual
correm de volta ao lar


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

A genética ainda está nos devendo um remedinho que retarde definitivamente o envelhecimento. O escritor inglês Hanif Kureishi, porém, achou um jeito simples para resolver a parada sem se meter nos intrincados recessos do DNA: o protagonista do conto-título de O Corpo e Outras Histórias (tradução de Sergio Tellaroli; Companhia das Letras; 304 páginas; 43,50 reais) passa por um transplante de cérebro, abandonando sua carcaça de sessentão para viver aventuras eróticas em um corpo de 20 e poucos anos. Não vá o leitor buscar os fundamentos científicos para esse argumento extravagante: é só uma fantasia. E uma crítica – alegórica, mas nem por isso menos óbvia – à obsessão contemporânea por juventude e beleza. Nesse e nos outros sete contos do livro, Kureishi, o autor pop que se celebrizou pelo roteiro gay inter-racial do filme Minha Adorável Lavanderia, faz o elogio de valores associados à maturidade: família e fidelidade.

O protagonista de O Corpo é um dramaturgo que conheceu seu auge em Londres, no "fim da década de 50 e começo da de 60". As datas não são inocentes: configuram uma espécie de marco espiritual para os personagens do livro, todos, mesmo os mais jovens, filhos (ou órfãos) da liberação sexual que tentam reconstruir a velha família nuclear. Não é um esforço fácil, como fica patente no sensível Tchau, Mãe, em que mãe e filho tentam uma reconciliação em uma visita ao cemitério. E a família também é palco dos choques raciais e culturais que são típicos da literatura do autor, um inglês de ascendência paquistanesa.

Kureishi, que já havia explorado a dor do divórcio no romance Intimidade, agora celebra a felicidade em família. Mas o novo livro não vai desapontar moderninhos e descolados. Kureishi não é condescendente. Longe de serem modelos de sapiência, seus personagens maduros se expõem de forma patética. O protagonista de O Corpo, por exemplo, descobre que está velho quando tem de colocar óculos para ver a revista pornográfica que estimula sua masturbação.

 

 
 
 
 
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