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Livros
Homem de família
Nos contos
do inglês Hanif Kureishi,
os órfãos da revolução sexual
correm de volta ao lar

Jerônimo Teixeira
A genética
ainda está nos devendo um remedinho que retarde definitivamente
o envelhecimento. O escritor inglês Hanif Kureishi, porém,
achou um jeito simples para resolver a parada sem se meter nos intrincados
recessos do DNA: o protagonista do conto-título de O
Corpo e Outras Histórias (tradução
de Sergio Tellaroli; Companhia das Letras; 304 páginas; 43,50
reais) passa por um transplante de cérebro, abandonando sua
carcaça de sessentão para viver aventuras eróticas
em um corpo de 20 e poucos anos. Não vá o leitor buscar
os fundamentos científicos para esse argumento extravagante:
é só uma fantasia. E uma crítica alegórica,
mas nem por isso menos óbvia à obsessão
contemporânea por juventude e beleza. Nesse e nos outros sete
contos do livro, Kureishi, o autor pop que se celebrizou pelo roteiro
gay inter-racial do filme Minha Adorável Lavanderia,
faz o elogio de valores associados à maturidade: família
e fidelidade.
O protagonista
de O Corpo é um dramaturgo que conheceu seu auge em
Londres, no "fim da década de 50 e começo da de 60".
As datas não são inocentes: configuram uma espécie
de marco espiritual para os personagens do livro, todos, mesmo os
mais jovens, filhos (ou órfãos) da liberação
sexual que tentam reconstruir a velha família nuclear. Não
é um esforço fácil, como fica patente no sensível
Tchau, Mãe, em que mãe e filho tentam uma reconciliação
em uma visita ao cemitério. E a família também
é palco dos choques raciais e culturais que são típicos
da literatura do autor, um inglês de ascendência paquistanesa.
Kureishi,
que já havia explorado a dor do divórcio no romance
Intimidade, agora celebra a felicidade em família.
Mas o novo livro não vai desapontar moderninhos e descolados.
Kureishi não é condescendente. Longe de serem modelos
de sapiência, seus personagens maduros se expõem de
forma patética. O protagonista de O Corpo, por exemplo,
descobre que está velho quando tem de colocar óculos
para ver a revista pornográfica que estimula sua masturbação.
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