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Livros
Autor-enciclopédia
Thomas Pynchon compõe um caudaloso mas
divertido painel do século XVIII americano

Moacyr Scliar
Divulgação
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UM MAPA POP
Os Estados Unidos nas tintas do artista
plástico Jasper Johns, contemporâneo de Pynchon:
reinvenções da América |
Thomas Pynchon é o escritor cult
por excelência. Tem hábitos reclusos e quase
não se conhecem fotos suas. Um episódio recente do
desenho Os Simpsons o retratou com um saco de papel
devidamente enfiado na cabeça. Além disso, seu nome
está associado ao nascimento da famigerada "literatura pós-moderna".
Em outras palavras, ele é tido como um autor difícil.
Esse julgamento não está errado, mas a complexidade
de Pynchon é de tipo especial: ele escreve romances difíceis
de ler, mas igualmente difíceis de largar. O escritor americano
conjuga referências eruditas e teorias paranóicas a
um senso de humor impagável, e assim conquista leitores para
livros caudalosos e enciclopédicos como O Arco-Íris
da Gravidade ou o mais recente Mason & Dixon (tradução
de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 842 páginas;
73,50 reais).
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Como todas as obras de Pynchon, Mason &
Dixon está longe de ser uma narrativa realista. Mas seu
ponto de partida é um episódio real. Para resolver
uma disputa de terras entre Thomas Penn e Frederick Calvert, proprietários
das regiões onde hoje estão os Estados de Pensilvânia
e Maryland, a Sociedade Real, que congregava os cientistas ingleses,
enviou à América, em 1763, o astrônomo Charles
Mason e seu assistente Jeremiah Dixon à época,
também cabia aos astrônomos o trabalho de topógrafos.
Ao longo de quatro anos, a dupla traçou a divisa das áreas
coloniais contestadas. A missão acabou adquirindo um significado
metafórico: tratava-se de impor ordem a um Novo Mundo caótico.
A linha Mason-Dixon também teve outro papel no futuro da
nação. No século XIX, seria a separação
simbólica entre o sul agrário e o norte industrializado
que se enfrentaram na Guerra da Secessão.
Mason e Dixon formam uma daquelas duplas clássicas
que, começando com Dom Quixote e Sancho, chegaram ao Gordo
e ao Magro: Jeremiah Dixon é um homem prático, engraçado,
que vive o aqui e agora, enquanto Charles Mason, contemplativo viúvo,
é o paradigma da introspecção. Os dois cientistas
aventureiros nos são apresentados pelo reverendo Wicks Cherrycoke,
que está narrando a história a seus sobrinhos. Ansioso
por captar a atenção de seus ouvintes, Cherrycoke
mistura realidade e ficção, o que, por sua vez, permite
a Pynchon introduzir digressões (nem sempre fáceis
de seguir) sobre aventuras em alto-mar, ciência, política,
religião, magia. Na sua longa travessia, Mason e Dixon vão
encontrando dezenas de personagens, com histórias paralelas
que compõem um grande painel não apenas da América
colonial como da mentalidade setecentista. A linguagem de época
utilizada por Pynchon e muito bem traduzida em português
é um desafio. Mas vale a pena encará-lo e atravessar
essa história surpreendente.
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Intimidade com o carrasco
"Mason explica que, há cerca
de um ano ou mais, tem tido por costume freqüentar
os Enforcamentos para logo em seguida ficar a parlar
com os Verdugos e seus Aprendizes, pagando-lhes cervejas
na taberna local (...). Mason já se viu empurrado
e arrastado por multidões de Marujos tentando
arrancar às mãos de Estudantes de Medicina
cadáveres de Companheiros de Bordo falecidos
em terra firme, longe da proteção Mar,
e sua Bolsa, e também sua Pessoa, já
foram atacadas por Agentes públicos e privados,
não obstante: "Não há nada
igual, é Londres em estado puro", exclama ele."
Trecho de Mason
& Dixon
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