Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
Autor-enciclopédia

Thomas Pynchon compõe um caudaloso mas
divertido painel do século XVIII americano


Moacyr Scliar

 
Divulgação
UM MAPA POP
Os Estados Unidos nas tintas do artista plástico Jasper Johns, contemporâneo de Pynchon: reinvenções da América

Thomas Pynchon é o escritor cult por excelência. Tem hábitos reclusos e quase não se conhecem fotos suas. Um episódio recente do desenho Os Simpsons o retratou – com um saco de papel devidamente enfiado na cabeça. Além disso, seu nome está associado ao nascimento da famigerada "literatura pós-moderna". Em outras palavras, ele é tido como um autor difícil. Esse julgamento não está errado, mas a complexidade de Pynchon é de tipo especial: ele escreve romances difíceis de ler, mas igualmente difíceis de largar. O escritor americano conjuga referências eruditas e teorias paranóicas a um senso de humor impagável, e assim conquista leitores para livros caudalosos e enciclopédicos como O Arco-Íris da Gravidade ou o mais recente Mason & Dixon (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 842 páginas; 73,50 reais).

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Como todas as obras de Pynchon, Mason & Dixon está longe de ser uma narrativa realista. Mas seu ponto de partida é um episódio real. Para resolver uma disputa de terras entre Thomas Penn e Frederick Calvert, proprietários das regiões onde hoje estão os Estados de Pensilvânia e Maryland, a Sociedade Real, que congregava os cientistas ingleses, enviou à América, em 1763, o astrônomo Charles Mason e seu assistente Jeremiah Dixon – à época, também cabia aos astrônomos o trabalho de topógrafos. Ao longo de quatro anos, a dupla traçou a divisa das áreas coloniais contestadas. A missão acabou adquirindo um significado metafórico: tratava-se de impor ordem a um Novo Mundo caótico. A linha Mason-Dixon também teve outro papel no futuro da nação. No século XIX, seria a separação simbólica entre o sul agrário e o norte industrializado que se enfrentaram na Guerra da Secessão.

Mason e Dixon formam uma daquelas duplas clássicas que, começando com Dom Quixote e Sancho, chegaram ao Gordo e ao Magro: Jeremiah Dixon é um homem prático, engraçado, que vive o aqui e agora, enquanto Charles Mason, contemplativo viúvo, é o paradigma da introspecção. Os dois cientistas aventureiros nos são apresentados pelo reverendo Wicks Cherrycoke, que está narrando a história a seus sobrinhos. Ansioso por captar a atenção de seus ouvintes, Cherrycoke mistura realidade e ficção, o que, por sua vez, permite a Pynchon introduzir digressões (nem sempre fáceis de seguir) sobre aventuras em alto-mar, ciência, política, religião, magia. Na sua longa travessia, Mason e Dixon vão encontrando dezenas de personagens, com histórias paralelas que compõem um grande painel não apenas da América colonial como da mentalidade setecentista. A linguagem de época utilizada por Pynchon – e muito bem traduzida em português – é um desafio. Mas vale a pena encará-lo e atravessar essa história surpreendente.

 

Intimidade com o carrasco

"Mason explica que, há cerca de um ano ou mais, tem tido por costume freqüentar os Enforcamentos para logo em seguida ficar a parlar com os Verdugos e seus Aprendizes, pagando-lhes cervejas na taberna local (...). Mason já se viu empurrado e arrastado por multidões de Marujos tentando arrancar às mãos de Estudantes de Medicina cadáveres de Companheiros de Bordo falecidos em terra firme, longe da proteção Mar, ­ e sua Bolsa, e também sua Pessoa, já foram atacadas por Agentes públicos e privados, ­ não obstante: "Não há nada igual, é Londres em estado puro", exclama ele."

Trecho de Mason & Dixon

 
 
 
 
topovoltar