Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Cinema
De dar medo

A nova adaptação de Stepford Wives
trocou o terror pela comédia. Mas
também causa calafrios


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer

Quando o americano Ira Levin escreveu As Possuídas (no original, The Stepford Wives), em 1972, o movimento feminista não só era uma relativa novidade como estava em sua fase mais explosiva e beligerante. Daí a facilidade com que o livro e sua primeira adaptação para o cinema, de 1975 (lançada agora em DVD como Esposas em Conflito), entraram para a cultura popular: a história de um grupo de maridos de um subúrbio rico que troca suas mulheres por robôs submissos era uma metáfora muito oportuna. À primeira vista, porém, tudo mudou desde que Levin lançou seu romance, e nada mais natural que sua segunda versão, Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives, Estados Unidos, 2004), fizesse uns tantos ajustes no enredo e partisse para a comédia. No filme em cartaz no país desde sexta-feira, a protagonista Joanna Eberhard (Nicole Kidman) não é mais dona-de-casa e fotógrafa aspirante. É uma executiva todo-poderosa, que levou sua rede de televisão ao topo da audiência com o tipo mais escabroso de reality show. Quando comete um erro e é demitida, Joanna tem um colapso – e é idéia de seu marido (Matthew Broderick) que ela vá se recuperar na quietude de Stepford, onde logo a comparação com as outras esposas, mais dóceis, vai encher a cabeça dele de outras idéias.

A sátira de Levin incorporava observações perspicazes – por exemplo, o ódio com que as mulheres viam seu papel de autômatos domésticos. Já sua visão dos homens é cáustica: eles são mais felizes, defendia Levin, vivendo uma mentira bem contada do que uma verdade inconveniente. As mulheres de Stepford são sintéticas, mas comportam-se como damas em público, prendadas na cozinha e profissionais na cama. Joanna, o exemplar convencional, é de carne e osso e capaz de sentimentos genuínos pelo parceiro – mas, como todas as de seu modelo, raramente age conforme o esperado. Não por acaso, a primeira adaptação do livro ia pelo viés de terror: substituir as esposas pelas suas versões robóticas implicava matar o modelo original, como descobria Joanna, chocada com sua insignificância aos olhos do próprio marido.

Tudo isso se perde em Mulheres Perfeitas. O roteirista Paul Rudnick, que explorou um sem-número de clichês sobre a homossexualidade em Será que Ele É?, recorre à mesma tática aqui – esposas lindas e burras que idolatram homens aborrecidos e barrigudos, gays extravagantes que viram conservadores na sua encarnação cibernética, e mulheres verdadeiras que ou são carreiristas da pior estirpe, como Joanna, ou completas relaxadas, como a personagem de Bette Midler. Com tal concentração de preconceitos e ressentimentos por metro de filme, Mulheres Perfeitas acaba sendo mais assustador do que o filme original, ainda que involuntariamente. Se Rudnick e o diretor Frank Oz acham suas piadas engraçadas, então é provável que nada de essencial tenha mudado desde o início dos anos 70.

 
 
 
 
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