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Cinema
De dar medo
A nova adaptação de Stepford
Wives
trocou o terror pela comédia. Mas
também causa calafrios

Isabela Boscov
Quando o americano Ira Levin escreveu As
Possuídas (no original, The Stepford Wives), em
1972, o movimento feminista não só era uma relativa
novidade como estava em sua fase mais explosiva e beligerante. Daí
a facilidade com que o livro e sua primeira adaptação
para o cinema, de 1975 (lançada agora em DVD como Esposas
em Conflito), entraram para a cultura popular: a história
de um grupo de maridos de um subúrbio rico que troca suas
mulheres por robôs submissos era uma metáfora muito
oportuna. À primeira vista, porém, tudo mudou desde
que Levin lançou seu romance, e nada mais natural que sua
segunda versão, Mulheres Perfeitas (The
Stepford Wives, Estados Unidos, 2004), fizesse uns tantos ajustes
no enredo e partisse para a comédia. No filme em cartaz no
país desde sexta-feira, a protagonista Joanna Eberhard (Nicole
Kidman) não é mais dona-de-casa e fotógrafa
aspirante. É uma executiva todo-poderosa, que levou sua rede
de televisão ao topo da audiência com o tipo mais escabroso
de reality show. Quando comete um erro e é demitida, Joanna
tem um colapso e é idéia de seu marido (Matthew
Broderick) que ela vá se recuperar na quietude de Stepford,
onde logo a comparação com as outras esposas, mais
dóceis, vai encher a cabeça dele de outras idéias.
A sátira de Levin incorporava observações
perspicazes por exemplo, o ódio com que as mulheres
viam seu papel de autômatos domésticos. Já sua
visão dos homens é cáustica: eles são
mais felizes, defendia Levin, vivendo uma mentira bem contada do
que uma verdade inconveniente. As mulheres de Stepford são
sintéticas, mas comportam-se como damas em público,
prendadas na cozinha e profissionais na cama. Joanna, o exemplar
convencional, é de carne e osso e capaz de sentimentos genuínos
pelo parceiro mas, como todas as de seu modelo, raramente
age conforme o esperado. Não por acaso, a primeira adaptação
do livro ia pelo viés de terror: substituir as esposas pelas
suas versões robóticas implicava matar o modelo original,
como descobria Joanna, chocada com sua insignificância aos
olhos do próprio marido.
Tudo isso se perde em Mulheres Perfeitas.
O roteirista Paul Rudnick, que explorou um sem-número de
clichês sobre a homossexualidade em Será que Ele
É?, recorre à mesma tática aqui
esposas lindas e burras que idolatram homens aborrecidos e barrigudos,
gays extravagantes que viram conservadores na sua encarnação
cibernética, e mulheres verdadeiras que ou são carreiristas
da pior estirpe, como Joanna, ou completas relaxadas, como a personagem
de Bette Midler. Com tal concentração de preconceitos
e ressentimentos por metro de filme, Mulheres Perfeitas acaba
sendo mais assustador do que o filme original, ainda que involuntariamente.
Se Rudnick e o diretor Frank Oz acham suas piadas engraçadas,
então é provável que nada de essencial tenha
mudado desde o início dos anos 70.
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