|
|
Cinema
O demônio do bem
Não fosse ter nascido no inferno,
o protagonista de Hellboy seria
um sujeito como qualquer outro

Isabela Boscov
Divulgação
 |
| Perlman, como Hellboy: chifres, cauda e um
coração de ouro |
|
|
O diretor mexicano Guillermo del Toro foi criado por uma avó
fanática religiosa, que colocava tampinhas de garrafa (lado
serrilhado para cima) dentro de seus sapatos para mortificá-lo
e o submetia a exorcismos regulares. Foi uma infância horrível
e confusa, diz Del Toro. Se há algo de positivo a contabilizar
nela, é a sensibilidade do cineasta para o terror
por exemplo, em A Espinha do Diabo, passado durante a Guerra
Civil espanhola e a sua compreensão do personagem-título
de Hellboy (Estados Unidos, 2004), desde sexta-feira
em cartaz no país. Adaptado do quadrinho homônimo do
americano Mike Mignola, o filme trata de um demônio invocado
pelos nazistas, durante a II Guerra, para servir como ferramenta
definitiva de destruição. Capturado pelos americanos,
porém, Hellboy vira a peça central de uma agência
secreta: é uma criatura nascida para o mal que renega sua
natureza e se dedica a combater as forças que o geraram.
E é também um exemplo da criação sobrepujando
o determinismo, por assim dizer, genético. O que sustenta
Hellboy nessa mudança de lado é a sua comunhão
com outros espécimes tão deslocados quanto ele
a afeição filial pelo cientista que o adotou e a paixão
recôndita por Liz (Selma Blair), uma garota infeliz que, sempre
que suas emoções assomam, se torna uma espécie
de lança-chamas.
Apesar do conflito interno e da sua aparência
(mão direita de granito, pele vermelho-fogo, cauda com ponta
em flecha e chifres), Hellboy poderia ser qualquer sujeito que tivesse
acabado de sair da casa dos pais e estivesse se esbaldando com a
ausência de controle. Mesmo quando está diante das
piores ameaças, ele é incapaz de levá-las,
ou a si mesmo, a sério. Hellboy, além disso, tem graves
recaídas na adolescência, especialmente quando Liz
está por perto. Mais do que a trama os responsáveis
pelo surgimento do demônio querem recuperá-lo ,
é essa empatia do diretor com o personagem e a caracterização
surpreendentemente jovial de Ron Perlman, um ator veterano de 54
anos, que fazem o filme tão atraente.
Del Toro passou sete anos brigando para levar
Hellboy às telas em seus próprios termos: sem
desfigurar o herói e com Perlman, com quem já trabalhara
em duas outras ocasiões, à frente do filme. Por causa
disso, passou bem perto de ter o projeto tirado de suas mãos.
Perlman, mais conhecido como o corcunda Salvatore de O Nome da
Rosa, trabalha quase sempre sob maquiagem pesada e está
longe de ser um galã. Não é, portanto, o tipo
de ator que faça os produtores vir correndo. O entrosamento
entre ele e o diretor mais do que compensou sua falta de cacife
na bilheteria: Hellboy rendeu 60 milhões de dólares
nos Estados Unidos, e a continuação está garantida.
Mas, à parte Hellboy 2 e um outro filme modesto, The
Woodcutter, Perlman não tem ainda nenhum outro contrato
engatilhado. "Hollywood não sabe o que fazer comigo", lamenta-se.
Por sorte, Del Toro não sofre da mesma miopia.
|