Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Cinema
A revolta das máquinas

Eu, Robô não é perfeito como as criaturas que
Asimov inventou – mas faz jus à obra do escritor


Isabela Boscov


Divulgação
Smith procura o robô suspeito de assassinato: conflito entre os criadores e as suas criaturas

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Pelas suas próprias contas, Isaac Asimov (1920-1992), o mais popular autor de ficção científica do século XX, escreveu cerca de 500 títulos, entre romances, contos e ensaios. É surpreendente então que as adaptações de sua obra, somando-se aquelas feitas para a televisão, fiquem na casa das duas dezenas – e que, de memorável, incluam apenas Viagem Fantástica (pela idéia brilhante dos cientistas que são miniaturizados e lançados na corrente sanguínea de um paciente) e O Homem Bicentenário (pela interpretação desastrosa de Robin Williams como o robô que se impõe um regime de humanização). Assim, ainda que use apenas as idéias básicas da célebre coletânea de contos que Asimov publicou em 1950, Eu, Robô (I, Robot, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta quinta-feira em circuito nacional, vem preencher uma lacuna para os fãs do gênero e, em especial, para os admiradores do químico e escritor russo que largou a carreira de professor universitário, nos Estados Unidos, para cumprir sua meta de inovar e renovar a ficção científica.

Os contos de Eu, Robô faziam parte desse projeto. Asimov explicou que se cansara de ver os robôs retratados como criaturas monstruosas que saem de controle. Segundo a lógica, dizia ele, se os seres humanos passassem a dispor dessa espécie de equipamento para o uso em casa ou na indústria, eles tratariam de torná-lo tão seguro quanto qualquer outro maquinário com que se tenha de conviver. E, na sua opinião, a única forma de obter sucesso nessa tarefa seria dotar os robôs de ética – daí as Três Leis da Robótica, que Asimov elaborou em conjunto com seu editor (assim como o próprio termo "robótica"). Essas regras, em seus contos, são o centro em torno do qual o cérebro dos robôs se organiza (veja quadro). Elas ditam, acima de tudo, que um robô nunca pode ferir um ser humano ou deixar que ele se fira. Se for preciso, um robô deve se destruir para proteger seus criadores. Pode parecer estranho, então, que o filme comece com um robô de última geração – um exemplar da série Nestor NS-5 – sob suspeita do assassinato de ninguém menos que o pai de todos os homens cibernéticos produzidos pela gigante U.S. Robots. Mas, no roteiro bem amarrado (pelo menos até os vinte minutos finais) de Akiva Goldsman e Jeff Vintar – em que a concepção visual do diretor Alex Proyas ajuda muito –, não há aí um conflito real com o que Asimov pregou. É esse, aliás, o segredo que Eu, Robô pretende esconder da platéia.

A única verdadeira violação em relação à obra do escritor é que a trama agora se passa na Terra – mais especificamente, em Chicago –, em 2035, quando os robôs já fazem parte da paisagem e funcionam como operários e empregados domésticos. Uma vez que as Três Leis são dadas como incorruptíveis, não existe, entre a população, nenhuma desconfiança ou resistência aos homens mecânicos. Esse é o estado de coisas que a U.S. Robots quer manter, e que a investigação do detetive Del Spooner (Will Smith) pode desequilibrar. Del é um postulante solitário da tese de que os robôs são um problema por acontecer, e nutre por eles algo próximo do racismo. Não obstante sua inteligência complexa e sua capacidade crescente de compreender as emoções humanas, eles são, na opinião do policial, uma classe inerentemente inferior. Quando ele sofre tentativas de homicídio por parte de robôs, fica claro que há algo de errado dentro da U.S. Robots e nos produtos que ela fabrica. Com a ajuda da robopsicóloga Susan Calvin, porém, o detetive descobrirá que o defeito dos robôs é, na verdade, uma perfeição muito superior àquela de que um ser humano é capaz.

Asimov tinha muito de brincalhão, e não aderia à ciência com o mesmo rigor que o amigo e rival cordial Arthur C. Clarke, autor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço. O cérebro positrônico de seus robôs, por exemplo, não significava, a rigor, nada. Era apenas um nome sonoro, que Asimov tirou de uma partícula atômica descoberta em 1932. Não obstante, seus temas eram intrigantes e pertinentes. Todos os contos de Eu, Robô investigam facetas diversas de um mesmo conflito: aquele entre a lógica que rege os robôs e as reações bem pouco lógicas dos seres humanos. A necessidade das criaturas de se espelhar em seus criadores ou de se contrapor a eles e a lisonja e rejeição com que essas tentativas são recebidas por parte dos seres humanos também são componentes importantes da obra de Asimov. Nesse sentido – e apesar de ameaçar sair dos trilhos em seu trecho final –, o filme Eu, Robô faz, pela primeira vez, jus ao universo que o escritor imaginou.

 

 
 
 
 
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