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Cinema
A revolta das máquinas
Eu, Robô não
é perfeito como as criaturas que
Asimov inventou mas faz jus à obra do escritor

Isabela Boscov
Divulgação
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| Smith procura o robô suspeito
de assassinato: conflito entre os criadores e as suas criaturas
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Pelas suas próprias contas, Isaac Asimov
(1920-1992), o mais popular autor de ficção científica
do século XX, escreveu cerca de 500 títulos, entre
romances, contos e ensaios. É surpreendente então
que as adaptações de sua obra, somando-se aquelas
feitas para a televisão, fiquem na casa das duas dezenas
e que, de memorável, incluam apenas Viagem Fantástica
(pela idéia brilhante dos cientistas que são miniaturizados
e lançados na corrente sanguínea de um paciente) e
O Homem Bicentenário (pela interpretação
desastrosa de Robin Williams como o robô que se impõe
um regime de humanização). Assim, ainda que use apenas
as idéias básicas da célebre coletânea
de contos que Asimov publicou em 1950, Eu, Robô
(I, Robot, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta
quinta-feira em circuito nacional, vem preencher uma lacuna para
os fãs do gênero e, em especial, para os admiradores
do químico e escritor russo que largou a carreira de professor
universitário, nos Estados Unidos, para cumprir sua meta
de inovar e renovar a ficção científica.
Os contos de Eu, Robô faziam
parte desse projeto. Asimov explicou que se cansara de ver os robôs
retratados como criaturas monstruosas que saem de controle. Segundo
a lógica, dizia ele, se os seres humanos passassem a dispor
dessa espécie de equipamento para o uso em casa ou na indústria,
eles tratariam de torná-lo tão seguro quanto qualquer
outro maquinário com que se tenha de conviver. E, na sua
opinião, a única forma de obter sucesso nessa tarefa
seria dotar os robôs de ética daí as
Três Leis da Robótica, que Asimov elaborou em conjunto
com seu editor (assim como o próprio termo "robótica").
Essas regras, em seus contos, são o centro em torno do qual
o cérebro dos robôs se organiza (veja
quadro). Elas ditam, acima de tudo, que um robô
nunca pode ferir um ser humano ou deixar que ele se fira. Se for
preciso, um robô deve se destruir para proteger seus criadores.
Pode parecer estranho, então, que o filme comece com um robô
de última geração um exemplar da série
Nestor NS-5 sob suspeita do assassinato de ninguém
menos que o pai de todos os homens cibernéticos produzidos
pela gigante U.S. Robots. Mas, no roteiro bem amarrado (pelo menos
até os vinte minutos finais) de Akiva Goldsman e Jeff Vintar
em que a concepção visual do diretor Alex Proyas
ajuda muito , não há aí um conflito real
com o que Asimov pregou. É esse, aliás, o segredo
que Eu, Robô pretende esconder da platéia.
A única verdadeira violação
em relação à obra do escritor é que
a trama agora se passa na Terra mais especificamente, em
Chicago , em 2035, quando os robôs já fazem parte
da paisagem e funcionam como operários e empregados domésticos.
Uma vez que as Três Leis são dadas como incorruptíveis,
não existe, entre a população, nenhuma desconfiança
ou resistência aos homens mecânicos. Esse é o
estado de coisas que a U.S. Robots quer manter, e que a investigação
do detetive Del Spooner (Will Smith) pode desequilibrar. Del é
um postulante solitário da tese de que os robôs são
um problema por acontecer, e nutre por eles algo próximo
do racismo. Não obstante sua inteligência complexa
e sua capacidade crescente de compreender as emoções
humanas, eles são, na opinião do policial, uma classe
inerentemente inferior. Quando ele sofre tentativas de homicídio
por parte de robôs, fica claro que há algo de errado
dentro da U.S. Robots e nos produtos que ela fabrica. Com a ajuda
da robopsicóloga Susan Calvin, porém, o detetive descobrirá
que o defeito dos robôs é, na verdade, uma perfeição
muito superior àquela de que um ser humano é capaz.
Asimov tinha muito de brincalhão, e
não aderia à ciência com o mesmo rigor que o
amigo e rival cordial Arthur C. Clarke, autor de 2001
Uma Odisséia no Espaço. O cérebro positrônico
de seus robôs, por exemplo, não significava, a rigor,
nada. Era apenas um nome sonoro, que Asimov tirou de uma partícula
atômica descoberta em 1932. Não obstante, seus temas
eram intrigantes e pertinentes. Todos os contos de Eu, Robô
investigam facetas diversas de um mesmo conflito: aquele entre a
lógica que rege os robôs e as reações
bem pouco lógicas dos seres humanos. A necessidade das criaturas
de se espelhar em seus criadores ou de se contrapor a eles e a lisonja
e rejeição com que essas tentativas são recebidas
por parte dos seres humanos também são componentes
importantes da obra de Asimov. Nesse sentido e apesar de
ameaçar sair dos trilhos em seu trecho final , o filme
Eu, Robô faz, pela primeira vez, jus ao universo que
o escritor imaginou.
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