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Amazônia
A selva como laboratório
Pesquisadores preparam queimada
gigante para saber até que ponto
a mata pode resistir

Leonardo Coutinho
Sérgio Dutti
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| Nepstad: depois de simular a seca, experiência
de campo para estudar o efeito das queimadas |
Uma área de floresta natural do tamanho
de 121 campos de futebol se transformará em cinzas na semana
que vem, no norte de Mato Grosso. E desta vez o fogo não
será aceso pelos desmatadores, que, só no ano passado,
torraram a floresta em mais de 117 000 pontos, segundo levantamento
da Empresa Brasileira de Agropecuária. Cientistas de quatro
instituições Instituto de Pesquisa Ambiental
da Amazônia, Centro de Pesquisa Woods Hole e universidades
de Yale e Stanfort, dos Estados Unidos começarão
um experimento radical para saber até quando a floresta resistirá
aos incêndios. Vão incendiar 100 hectares de mata na
cidade de Querência para estudar o impacto das queimadas na
vegetação, na fauna e na atmosfera. Enquanto a fogueira
estiver ardendo e nos seis anos seguintes, três satélites
que cruzam o céu de Mato Grosso registrarão imagens
e coletarão dados como emissão de vapores de água
e de gases como dióxido de carbono. Um deles, o poderoso
Earth Observing 1, além de captar imagens equivalentes a
radiografias da floresta, pode medir a quantidade de água
no solo e na cobertura florestal. Aviões também sobrevoarão
a região recolhendo amostras do ar e, com sensores especiais,
registrando as variações de temperatura, a composição
das nuvens e os níveis de luminosidade. No solo, haverá
outros sensores espalhados por diversos pontos. Câmeras fotográficas
com detectores de movimento acompanharão o comportamento
dos animais. "Teremos uma análise nunca feita, que pode permitir
projeções sobre o futuro da floresta", explica o ecólogo
americano Daniel Nepstad, que coordena o projeto.
O objetivo principal da experiência
é entender o ritmo com que o fogo abre espaço para
a savanização da Amazônia. Por isso, alguns
trechos da área serão novamente queimados nos próximos
anos, enquanto se observa a recuperação de uma parte.
O processo reproduz, num laboratório a céu aberto,
o que se vê nas frentes de desmatamento. Por isso a área
escolhida é vizinha a pastagens e cultivos, facilitando a
ação de espécies vegetais invasoras.
Nepstad é um especialista na simulação
de fenômenos de grande impacto sobre a mata. Em 1999, com
o biólogo brasileiro Paulo Moutinho, ele espalhou 6.000
painéis de plástico sobre 1 hectare de floresta, para
estudar os efeitos da seca. Reproduzindo sob controle o efeito do
El Niño, a experiência comprovou a extrema fragilidade
do ecossistema. Com três anos de grandes secas, a floresta
está pronta para arder inteira sob a ação de
uma pequena fagulha.
O Projeto Cenários, como é chamada
a nova pesquisa, ajudará a entender como a devastação
pelo fogo interfere no regime de chuvas e acelera a degradação
mesmo nas áreas livres das queimadas. O êxito do agronegócio
na Região Centro-Oeste, por exemplo, depende da saúde
da floresta. Com a redução da água na atmosfera,
que resulta da transpiração da mata, as chuvas diminuem
e os agricultores podem acumular prejuízos.
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