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Consumo
E quem paga a conta?
Governo barra na Justiça aumento dos
planos de saúde. Difícil é saber quem vai
bancar os custos crescentes do setor
Ed Ferreira/AE
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Gustavo Azeredo/Ag. O Globo
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| Para o ministro Costa, empresas
são "gananciosas". Mas boa parte delas tem
prejuízo. Se o assunto não for discutido com racionalidade,
todo mundo vai acabar no SUS (à dir.). Até
o ministro |
Como ocorre em relação a tudo
que mexe no órgão mais sensível do corpo humano,
o bolso, a discussão em torno dos preços dos planos
de saúde é marcada pela irracionalidade. Nesse caso,
especificamente, o roteiro do novelão é soporífero
de tão conhecido: os planos de saúde anunciam que
aumentarão os preços de suas mensalidades, os usuários
chiam, o governo julga os aumentos abusivos e intervém. Na
semana passada, a pedido do Ministério da Saúde, a
Justiça Federal, em caráter provisório, limitou
em 11,75% o reajuste das mensalidades da Bradesco Saúde,
da SulAmérica e da ItauSeg para os contratos firmados antes
de 1999. A medida atinge 700.000 consumidores.
A empresa que descumprir a regra pagará multa diária
de 1 milhão de reais. Sentenças com teor semelhante,
envolvendo as mais diversas companhias do segmento, já vinham
pipocando regionalmente. Mas essa não é a única
frente de confusão. Em dezessete Estados e no Distrito Federal,
médicos decidiram boicotar oito seguradoras. O motivo é
que eles não têm aumento no preço das consultas
há dez anos. Recebem em média 25 reais por consulta
e agora querem 42. Em meio a esse cenário tumultuado, o ministro
da Saúde, Humberto Costa, cumpriu o mesmo script de seus
antecessores: bradou que, se preciso fosse, fecharia as empresas
que insistissem em aumentar as mensalidades para além do
que o governo julga razoável.
Bravatas e liminares não eliminam o
problema que está na base da confusão. Na verdade,
só o encobrem: as empresas de medicina de grupo e as seguradoras
estão com a saúde financeira em risco. Para cada 100
reais que arrecadam com as mensalidades, 83 são gastos com
o pagamento de serviços médicos e hospitalares. Trata-se
de uma proporção bastante ruim. No mundo todo, o ideal
é que somente 74 reais sejam destinados a essas despesas.
As três principais seguradoras do país, Bradesco, SulAmérica
e ItauSeg, todas alcançadas pela ação furiosa
do governo, estão em situação ainda pior. Gastam
com tratamentos 140 de cada 100 reais recebidos. Estudo da Capitolio
Consulting, empresa de Brasília especializada no setor, indica
ainda que três em cada dez companhias tiveram prejuízo
no ano passado.
Helvio Romero/AE
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| Passeata de médicos: boicote |
Desde 1999, o sistema privado é regido
pela Lei nº 9656, aprovada no ano anterior. A legislação
estabeleceu uma extensa lista de deveres para as empresas. Criou
a assistência integral, limitou aumentos, proibiu a escolha
de clientes, exigiu a publicação de balanços
e a alocação de reservas para uso em eventuais emergências.
Para gerir o setor foi criada a Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS). Os planos de saúde contratados antes de
1999 tiveram, assim, de ser ajustados às novas regras. E
ajustar tais contratos significou oferecer mais serviços,
o que custa mais dinheiro, evidentemente. Nesse processo, chamado
de migração, as operadoras chegavam a cobrar até
135% a mais nas mensalidades. A migração foi barrada
por decisão da Justiça, em 22 de junho. As empresas,
então, estabeleceram uma correção anual para
os planos antigos, que variava até 86%. Mais uma vez, foram
engessadas. "Querem nos impor a mesma lógica deficitária
que produziu o SUS", diz Ricardo Saad, diretor-geral da Bradesco
Saúde. "Será que isso interessa a alguém?"
Do outro lado, a capacidade de pagamento do
consumidor está esgotada. Bombardeada por impostos, a classe
média, a força motriz da saúde privada, é
obrigada ainda a gastar 11% do orçamento com planos e medicamentos.
Quem não tem plano fica à mercê daquele pesadelo
chamado Sistema Único de Saúde (SUS), gerido pelo
ministro valentão. Em vez de fazer bravatas, Humberto Costa
poderia tentar responder a algumas questões: se as empresas
estão com a saúde financeira em risco, mas têm
seus reajustes engessados pelo governo, como conseguirão
aumentar o preço das consultas que os médicos pleiteiam
com toda a razão? Se o Ministério da Saúde
começar a fechar empresas, quem bancará os hospitais
de ponta do Brasil (mais de 90% da receita deles é bancada
por elas)? Se companhias forem fechadas, o que acontecerá
com seus clientes? Terão de ser atendidos apenas pelo Sistema
Único de Saúde, do qual tentam fugir a todo custo?
Já está na hora de discutir o assunto sem emocionalismos
ou demagogia. Antes que todos (o ministro, inclusive, que deve ter
plano de saúde) acabem no corredor de um hospital público,
esperando por um socorro que nunca virá.
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