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Marcas
O culto à marca
Com a ajuda do iPod, a Apple entra no
grupo dos logos mais valiosos do mundo
A marca Apple, da fabricante de computadores
e aparelhos eletrônicos do mesmo nome, foi a que mais se valorizou
em todo o mundo nos últimos doze meses. O valor da marca
deu um salto de 24% e chegou a 6,87 bilhões de dólares,
de acordo com o ranking publicado pela principal revista de negócios
do planeta, a BusinessWeek. O grande responsável por
esse desempenho extraordinário é o iPod, o tocador
digital portátil. Lançado em 2001, o aparelho transformou-se
numa febre a partir de 2003 e foi crucial para a Apple registrar
um aumento de receita de 30% no terceiro bimestre deste ano. Descrever
o iPod apenas como um sucesso de vendas, no entanto, seria um grande
erro. O pequeno aparelho relançou a Apple como uma daquelas
companhias reverenciadas cuja imagem atrai admiradores com um fervor
quase religioso. Como os filmes cult, as marcas cult criam verdadeiras
tribos de seguidores.
Construir uma marca poderosa, capaz de destacar-se
da concorrência e agremiar uma legião de consumidores
fiéis, sempre foi um desafio. A partir dos anos 90, com o
avanço vertiginoso da globalização e da tecnologia,
a tarefa de conseguir a fidelidade do consumidor tornou-se ainda
mais complexa. Um motivo freqüentemente apontado é que
a diminuição das barreiras comerciais aumenta exponencialmente
a concorrência, tanto em qualidade quanto em preço.
Outro é que o apelo das marcas depende da conjuntura econômica.
Em épocas de crise, é comum assistir a uma migração
das mais caras para outras mais acessíveis embora
também se observe que as marcas cult resistem melhor a essas
adversidades. Mas a grande revolução nas relações
de consumo aconteceu no campo do conhecimento. A internet abriu
um imenso campo de informação, permitindo comparações
instantâneas de qualidade e preço, tornando a escolha
sujeita a parâmetros mais sofisticados. O consumidor não
quer mais apenas marcas confiáveis. Quer expressar-se através
delas e a crescente onda de customização é
uma das manifestações dessa nova característica.
Mais do que dono de um produto ou usuário de um serviço,
ele começa a sentir-se membro de uma comunidade.
O ranking da BusinessWeek é
o quarto realizado pela revista. A lista contempla apenas marcas
de valor superior a 1 bilhão de dólares, com cerca
de um terço do faturamento obtido fora de seu país
de origem e que disponibilizem as informações financeiras
e publicitárias. A adoção desses critérios
deixa de fora nomes mundialmente conhecidos, como Visa ou Wal-Mart.
As marcas analisadas podem dizer respeito a toda uma companhia,
como McDonald's, ou a um produto, como Marlboro. Entre as dez mais
valiosas, nove estão no primeiro caso. Na lista das dez mais,
aliás, não há grandes mudanças de posição
em relação à do ano passado. Mas, quando se
analisam valores, o quadro muda. A Coca-Cola, por exemplo, permanece
impávida em primeiro lugar, mas perdeu valor. O mesmo ocorreu
com a Microsoft e a Disney. São marcas que mantêm a
liderança em seu setor de atividade, mas enfrentam uma crise
de imagem, porque são identificadas com uma indesejável
massificação global.
A Apple é um símbolo do extremo
oposto. A empresa tornou-se igualmente célebre pelo pioneirismo
e pela incapacidade de manter grandes fatias do mercado. Apesar
de ter lançado um dos primeiros computadores pessoais, hoje
tem menos de 3% do mercado mundial. Com o iPod tem sido diferente.
O aparelho tem cerca de 50% do mercado. Na versão mais cara,
pode armazenar cerca de 10.000 músicas
gravadas em MP3, uma forma de compressão usada para economizar
espaço no disco rígido. A versão mais simples
é a do iPod míni, lançado em janeiro com poder
de estocar 1.000 músicas. O barulho
provocado pelo produto da Apple fez os competidores reagir. A Sony
esperou uma data com alta carga simbólica para lançar
o rival do iPod. O NW-HD1 chegou às lojas dos Estados Unidos
em julho, no dia do aniversário de 25 anos do walkman, uma
das maiores histórias de sucesso da gigante japonesa. A Philips
já havia lançado o HDD140, todo preto, para rivalizar
com o branco iPod. A Dell conta com o Digital Jukebox. Existem ainda
vários outros, como o Rio e o RCA Lyra. Em comum, todos têm
memória suficiente para armazenar milhares de músicas
e, por isso, fazem os porta-CDs cheios de discos parecer artigos
de museu.
O sucesso do iPod está ligado ao iTunes,
a loja de venda de músicas pela internet que foi criada por
Steve Jobs, o co-fundador e principal executivo da Apple. Além
de combater a pirataria, o iTunes mudou a maneira como se consome
música. Em vez de comprar um CD inteiro, os consumidores
podem baixar do site e pagar apenas pelas músicas que querem
ouvir. Essa nova mania está intimamente ligada às
vendas do iPod. Em meados de julho, Jobs festejou a marca de 100
milhões de músicas vendidas pela internet. Os negócios
estão indo tão bem que a RealNetworks anunciou na
semana passada que os usuários de iPod poderão comprar
músicas da RealPlayer Music Store, sua versão de loja
on-line. A Apple já avisou que está estudando a possibilidade
de processar a competidora por quebrar a propriedade intelectual
do iPod. Também ameaçou mudar a configuração
do produto para que ele continue podendo baixar músicas apenas
do iTunes.
No Brasil, um dos poucos exemplos de marcas
cult são as sandálias Havaianas, que estão
nos pés de celebridades como a top model Naomi Campbell.
Criadas em 1962, as famosas que "não soltam as tiras e não
têm cheiro" permaneceram nas lojas das periferias das grandes
cidades e do interior do país, mas também chegaram
aos bairros nobres de cidades no exterior. Elas podem ser encontradas
em lojas de departamentos chiques como Bergdorf Goodman, em Nova
York, ou Harrods, em Londres. Ali, um par das brasileiríssimas
Havaianas pode custar até 120 reais. Os modelos personalizados
beiram os 500 reais. O produto, que antes era procurado por ser
barato e durável, é hoje disputado pelo colorido charme
que representa. "As sandálias tinham a função
de calçar os pés a um baixo custo; hoje têm
a função de transmitir uma imagem cult", define Giovanni
Fiorentino, vice-presidente da empresa de consultoria Bain &
Company.
Encontrar a receita desse salto qualitativo
de produto de uso cotidiano para marca de prestígio, adorada
por uma legião de fãs, é algo que os especialistas
não conseguiram e, provavelmente, jamais conseguirão.
Sabe-se, por exemplo, que nem todos os setores da economia podem
abrigar marcas de alto impacto. No setor petroleiro, por exemplo,
por mais mercado que as gigantes Shell, Exxon e Texaco tenham, é
pouco provável que dividam os consumidores em facções
apaixonadas. O setor de medicamentos é outro em que a eficácia
do produto é mais importante que a imagem que empresta aos
consumidores. As marcas que atingem a categoria de culto se propagam
com a ajuda do boca-a-boca. Uma recente pesquisa da Mediaedge:cia,
um braço da MediaLab, fabricante de softwares, mostrou que
para 76% das pessoas a recomendação de um amigo é
o fator mais importante para definir uma compra. "Não há
uma maneira única de transformar um nome em uma assinatura
de classe", diz Eduardo Tomiya, diretor de avaliação
de marcas para os países ibéricos e América
Latina da consultoria Interbrand, que elaborou o ranking da BusinessWeek.
O certo é que, crescentemente, o consumidor
quer mais do que receber um produto ou serviço de qualidade.
Como demonstra o caso da Harley-Davidson, uma moto pode ser muito
mais que um meio de transporte com duas rodas. A fabricante americana,
criada há 101 anos, vende um sonho de rebeldia e tem fãs,
mais do que consumidores. O grupo de proprietários possui
800 000 associados, que se sentem "donos" da marca a ponto de ter
reunido 250 000 pessoas em Milwaukee na comemoração
do centenário da Harley-Davidson. Outro exemplo de que é
possível ser cult por várias décadas é
a Tiffany, uma das joalherias mais famosas do mundo. A marca foi
imortalizada no filme Bonequinha de Luxo, lançado
em 1961, no qual a atriz Audrey Hepburn revigorava as energias apenas
admirando a vitrine da Tiffany. Saía de lá sem uma
sacola na mão, mas pronta para começar o dia porque
tinha a certeza de que pertencia àquele universo. Mais de
quarenta anos depois, o nome Tiffany equivale a 73% do valor da
empresa. Disse a VEJA Douglas Atkin, autor do recém-lançado
O Culto às Marcas (The Culting of Brands): "As marcas
cultuadas são as que conseguem fazer com que os consumidores
se sintam parte de uma comunidade única e especial".
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