|
|
Educação
Milionários por um dia
Hotel dá curso de luxo para funcionários
de baixa renda entenderem como é a vida
dos ricos
Oscar Cabral
 |
| O carioca William: ele ganha 800 reais como
garçom. O colar custa 345 000 reais |
Alguns hotéis brasileiros da rede Accor
estão recorrendo a uma modalidade de ensino que permite a
seus funcionários viver como milionários por um dia.
Essa técnica já havia sido implantada com sucesso
em unidades da Accor, dona dos hotéis Sofitel, em outros
países. A iniciativa é parte de um projeto de reestruturação
da rede hoteleira que já consumiu quase 1 bilhão de
dólares nos últimos seis anos. Cerca de 1 200 funcionários
do grupo no Brasil freqüentaram aulas de etiqueta e depois
foram a campo. As aulas práticas consistiam em fazer funcionários
com média salarial de 800 reais passar-se por clientes de
alta classe e, nessa condição, visitar joalherias,
butiques e restaurantes de luxo. O objetivo foi ajudá-los
a entender melhor as necessidades dos hóspedes da rede.
No
fim do treinamento, os funcionários foram incentivados a
escrever sobre sua experiência. Garçons, porteiros,
camareiras, manobreiros e atendentes produziram reflexões
curiosas sobre a inversão de papéis em que se viram
metidos. O garçom William Correia da Silva, de 29 anos, com
salário de 700 reais e telefone cortado por falta de pagamento,
escreveu que o curso o fez ficar mais exigente. No treinamento,
ele visitou uma butique, onde lhe ofereceram uma jaqueta de 800
reais. "Fui muito mimado, mas acho besteira tudo isso porque não
é possível que uma jaqueta de 50 reais esquente menos
do que uma de 800", afirma. Visitar lojas como Louis Vuitton, H.
Stern e Mont Blanc como se fossem clientes deu aos funcionários
do hotel uma vivência que lhes será útil na
volta ao trabalho. Mas foi para todos eles uma experiência
inesquecível. "Incorporei o barão. Pedi um vinho de
350 reais, mas minha mãe ficou preocupada de nos tratarem
mal no restaurante. Éramos os únicos negros do hotel",
conta o cozinheiro Jutaí da Veiga, 28 anos, salário
de 500 reais, que, escolhido como o melhor funcionário, ganhou
uma semana de hospedagem com tudo pago e despesas liberadas em um
dos hotéis da rede. "No fundo queríamos que eles percebessem
que o luxo vai além de ter carros caros ou relógios
cravejados de brilhantes. Tratar bem e ser bem tratado é
um luxo, um bem raro e valorizado no mundo de hoje", diz Paulo Salvador,
gerente-geral do Sofitel. Os funcionários mais qualificados
da rede também fizeram sua imersão no mundo do alto
luxo, só que, no caso deles, as aulas práticas foram
em Paris.
|