Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Educação
Milionários por um dia

Hotel dá curso de luxo para funcionários
de baixa renda entenderem como é a vida
dos ricos


Oscar Cabral
O carioca William: ele ganha 800 reais como garçom. O colar custa 345 000 reais

Alguns hotéis brasileiros da rede Accor estão recorrendo a uma modalidade de ensino que permite a seus funcionários viver como milionários por um dia. Essa técnica já havia sido implantada com sucesso em unidades da Accor, dona dos hotéis Sofitel, em outros países. A iniciativa é parte de um projeto de reestruturação da rede hoteleira que já consumiu quase 1 bilhão de dólares nos últimos seis anos. Cerca de 1 200 funcionários do grupo no Brasil freqüentaram aulas de etiqueta e depois foram a campo. As aulas práticas consistiam em fazer funcionários com média salarial de 800 reais passar-se por clientes de alta classe e, nessa condição, visitar joalherias, butiques e restaurantes de luxo. O objetivo foi ajudá-los a entender melhor as necessidades dos hóspedes da rede.

No fim do treinamento, os funcionários foram incentivados a escrever sobre sua experiência. Garçons, porteiros, camareiras, manobreiros e atendentes produziram reflexões curiosas sobre a inversão de papéis em que se viram metidos. O garçom William Correia da Silva, de 29 anos, com salário de 700 reais e telefone cortado por falta de pagamento, escreveu que o curso o fez ficar mais exigente. No treinamento, ele visitou uma butique, onde lhe ofereceram uma jaqueta de 800 reais. "Fui muito mimado, mas acho besteira tudo isso porque não é possível que uma jaqueta de 50 reais esquente menos do que uma de 800", afirma. Visitar lojas como Louis Vuitton, H. Stern e Mont Blanc como se fossem clientes deu aos funcionários do hotel uma vivência que lhes será útil na volta ao trabalho. Mas foi para todos eles uma experiência inesquecível. "Incorporei o barão. Pedi um vinho de 350 reais, mas minha mãe ficou preocupada de nos tratarem mal no restaurante. Éramos os únicos negros do hotel", conta o cozinheiro Jutaí da Veiga, 28 anos, salário de 500 reais, que, escolhido como o melhor funcionário, ganhou uma semana de hospedagem com tudo pago e despesas liberadas em um dos hotéis da rede. "No fundo queríamos que eles percebessem que o luxo vai além de ter carros caros ou relógios cravejados de brilhantes. Tratar bem e ser bem tratado é um luxo, um bem raro e valorizado no mundo de hoje", diz Paulo Salvador, gerente-geral do Sofitel. Os funcionários mais qualificados da rede também fizeram sua imersão no mundo do alto luxo, só que, no caso deles, as aulas práticas foram em Paris.

 
 
 
 
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