Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Inovação
A invenção de Ralf

O cantor sertanejo cria um novo método de
lançar CDs e promete acabar com a pirataria


Claudio Rossi
Ralf: cobaia da própria experiência

Sertanejo de sucesso e dono, segundo afirma, de um QI de 140 (que o aproxima dos gênios musicais Bach e Beethoven, ambos com QI estimado em 143), o goiano Ralf Richardson da Silva julga ter descoberto a cura para o maior flagelo da indústria fonográfica brasileira – a pirataria, que domina 50% do mercado nacional de discos. A invenção de Ralf, que ele já patenteou, não envolve avanços técnicos, como selos digitais que impeçam a cópia de um CD por piratas. O que ele propõe é uma estratégia diferente de comercialização de CDs – uma espécie de reinvenção digital do single, aquele disco que, na era do vinil, tinha formato menor e apenas duas músicas. Pelo plano, em vez de discos completos, que costumam ter catorze músicas e preço médio de 25 reais, as gravadoras lançariam compactos com até quatro canções, sem encarte e em embalagem simples, com preço em torno de 4 reais – mais baixo que o dos piratas vendidos pelos camelôs. Discos "conceituais" – aqueles em que as músicas, supostamente, têm relação entre si – seriam "fatiados" e mais tarde reunidos num pacote especial (veja quadro). Como um cientista de filme de ficção, o cantor se fez cobaia do próprio experimento e lança, nos próximos dias, ao lado de seu irmão Chrystian, um CD nesses parâmetros.

Na cruzada para difundir sua invenção, Ralf tem aliados importantes. Um deles é Eduardo Campos, ministro de Ciência e Tecnologia. "Trata-se de uma maneira criativa de comercializar CDs no Brasil", diz o político. Os responsáveis pelas fábricas de CDs também encampam a idéia. "É uma proposta viável", diz Abílio Filho, gerente de produção da fábrica Sonopress. Mas a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), órgão que concentra as principais gravadoras do país, torceu o nariz. A entidade discorda da planilha de custos que Ralf apresentou com seu pedido de patente. Afirma que o custo mínimo dos "disquinhos Ralf" é de 6,60 reais, e que nas lojas eles acabariam saindo por cerca de 10 reais. Num parecer ao Ministério da Ciência e Tecnologia, a ABPD afirma que "a fórmula de comercialização proposta contraria os princípios que norteiam a indústria fonográfica em todo o mundo". Ralf acredita que, na verdade, pôs o dedo num ponto sensível para as gravadoras. "É muito raro alguém emplacar mais do que quatro sucessos por disco. Há quem compre um CD inteiro por causa de uma música. Por que não lançar os hits num produto mais em conta?", pergunta ele. Ralf acha que sua proposta beneficiaria artistas iniciantes ou de apelo popular – e nada impediria que figurões com público cativo usassem o CD tradicional.

Ralf, de 46 anos, é conhecido no meio musical por ser bom de briga. Ele brigou com gravadoras por não concordar com esquemas de divulgação, vive às turras com outras duplas sertanejas e se diz boicotado em programas de TV. "Estou louco para meter a mão na cara de uns desses apresentadores", diz. Já brigou até com o irmão. Ele se acha o cérebro da dupla e tentou fazer um contrato em que ganhava mais do que Chrystian. Ficaram dois anos sem se falar. "Sou caipira e tenho cara de doidão, mas não sou bobo", afirma Ralf. "Ainda vou ser ministro da Cultura, pode crer!

 

 
 
 
 
topovoltar