|
|
Inovação
A invenção de Ralf
O cantor sertanejo cria um novo método
de
lançar CDs e promete acabar com a pirataria
Claudio Rossi
 |
| Ralf: cobaia da própria experiência
|
Sertanejo de sucesso e dono, segundo afirma,
de um QI de 140 (que o aproxima dos gênios musicais Bach e
Beethoven, ambos com QI estimado em 143), o goiano Ralf Richardson
da Silva julga ter descoberto a cura para o maior flagelo da indústria
fonográfica brasileira a pirataria, que domina 50%
do mercado nacional de discos. A invenção de Ralf,
que ele já patenteou, não envolve avanços técnicos,
como selos digitais que impeçam a cópia de um CD por
piratas. O que ele propõe é uma estratégia
diferente de comercialização de CDs uma espécie
de reinvenção digital do single, aquele disco que,
na era do vinil, tinha formato menor e apenas duas músicas.
Pelo plano, em vez de discos completos, que costumam ter catorze
músicas e preço médio de 25 reais, as gravadoras
lançariam compactos com até quatro canções,
sem encarte e em embalagem simples, com preço em torno de
4 reais mais baixo que o dos piratas vendidos pelos camelôs.
Discos "conceituais" aqueles em que as músicas, supostamente,
têm relação entre si seriam "fatiados"
e mais tarde reunidos num pacote especial (veja
quadro). Como um cientista de filme de ficção,
o cantor se fez cobaia do próprio experimento e lança,
nos próximos dias, ao lado de seu irmão Chrystian,
um CD nesses parâmetros.
Na cruzada para difundir sua invenção,
Ralf tem aliados importantes. Um deles é Eduardo Campos,
ministro de Ciência e Tecnologia. "Trata-se de uma maneira
criativa de comercializar CDs no Brasil", diz o político.
Os responsáveis pelas fábricas de CDs também
encampam a idéia. "É uma proposta viável",
diz Abílio Filho, gerente de produção da fábrica
Sonopress. Mas a Associação Brasileira dos Produtores
de Discos (ABPD), órgão que concentra as principais
gravadoras do país, torceu o nariz. A entidade discorda da
planilha de custos que Ralf apresentou com seu pedido de patente.
Afirma que o custo mínimo dos "disquinhos Ralf" é
de 6,60 reais, e que nas lojas eles acabariam saindo por cerca de
10 reais. Num parecer ao Ministério da Ciência e Tecnologia,
a ABPD afirma que "a fórmula de comercialização
proposta contraria os princípios que norteiam a indústria
fonográfica em todo o mundo". Ralf acredita que, na verdade,
pôs o dedo num ponto sensível para as gravadoras. "É
muito raro alguém emplacar mais do que quatro sucessos por
disco. Há quem compre um CD inteiro por causa de uma música.
Por que não lançar os hits num produto mais em conta?",
pergunta ele. Ralf acha que sua proposta beneficiaria artistas iniciantes
ou de apelo popular e nada impediria que figurões
com público cativo usassem o CD tradicional.
Ralf, de 46 anos, é conhecido no meio
musical por ser bom de briga. Ele brigou com gravadoras por não
concordar com esquemas de divulgação, vive às
turras com outras duplas sertanejas e se diz boicotado em programas
de TV. "Estou louco para meter a mão na cara de uns desses
apresentadores", diz. Já brigou até com o irmão.
Ele se acha o cérebro da dupla e tentou fazer um contrato
em que ganhava mais do que Chrystian. Ficaram dois anos sem se falar.
"Sou caipira e tenho cara de doidão, mas não sou bobo",
afirma Ralf. "Ainda vou ser ministro da Cultura, pode crer!
|