Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Psicologia
No divã dos economistas

Juros? Inflação? Nada disso. Muitos
deles agora querem estudar o
comportamento humano


Gabriela Carelli

Procurando uma resposta simples para uma questão existencial? Consulte um economista. Isso mesmo. Há atualmente uma corrente que se dedica a estudar e interpretar o comportamento humano à luz de cálculos intrincados. A estrela mais reluzente dessa nova geração é o professor americano Steven Levitt, 35 anos, da Universidade de Chicago. No ano passado, ele foi agraciado com o prêmio Clark, uma espécie de Oscar dos economistas, pelas suas pesquisas. Uma delas conclui que a legalização do aborto diminui a criminalidade. Outra prova com todos os números que a tendência à corrupção é incancelável em qualquer sociedade.

Na semana passada, os economistas Paul Frijters, da Universidade Nacional Australiana, e Ada Ferrer-i-Carbonell, da Universidade de Amsterdã, divulgaram mais uma pesquisa que mescla economia e psicologia. Publicado pela venerável instituição britânica Royal Economic Society, o trabalho se debruça sobre uma dúvida universal (se o dinheiro traz ou não felicidade), para concluir que não, o dinheiro não traz felicidade. "Segundo nossos estudos, são as pessoas felizes que atraem o dinheiro para si, não o inverso", disse Paul Frijters a VEJA. "Por serem de fácil convivência, elas atraem empregadores, ganham a confiança dos patrões e fascinam parceiros. São os traços da personalidade desses indivíduos felizes que aumentam suas rendas e os tornam bem-sucedidos em tudo, ou quase tudo", ele completa. Para chegarem ao outro resultado, de que o dinheiro não torna ninguém mais feliz, os dois economistas analisaram 30.000 questionários respondidos por 7.500 alemães durante toda a década de 90. Eles concluíram que os mais ricos têm níveis de felicidade mais altos que os menos abonados. Tudo bem. Mas aqueles que, no período, se tornaram duas vezes mais ricos mostram-se apenas um pouco mais felizes do que quando eram menos abastados – e essa felicidade extra tem curta duração.

O trabalho avaliou ainda a relação entre felicidade, saúde e relacionamentos estáveis. O grau de felicidade é maior entre aqueles com relacionamentos estáveis e com boa saúde. Nesses tópicos, o surpreendente foi a conclusão de que não é um bom casamento ou uma saúde de ferro que torna alguém feliz. O fato de ser feliz é que faz com que a pessoa tenha um casamento harmonioso e goze de boa saúde. "Pessoas felizes têm uma visão mais positiva da vida", diz Frijters. Os autores do estudo dão exemplos de gente famosa cujo comportamento confirma suas conclusões. A autora da série Harry Porter, J.K. Rowling, afirmou recentemente à TV inglesa que a fama e a fortuna recém-conquistadas não a fizeram mais feliz do que sempre foi. O ciclista italiano Marco Pantani, que morreu de overdose recentemente, e o jogador argentino Diego Maradona, que vive às voltas com a dependência de drogas, são exemplos de esportistas que enriqueceram, mas não conseguiram comprar felicidade com suas fortunas. Isso sem falar no boxeador Mike Tyson, que ficou rico, perdeu tudo e, nas duas fases, fez de sua vida um inferno.

Sempre houve economistas interessados em aplicar suas teorias para entender o comportamento humano. Um dos primeiros foi o americano Gary Becker, ganhador do Prêmio Nobel em 1992. Na década de 50, ele já estudava por meio de fórmulas matemáticas as relações no casamento e com os filhos. "O problema é que poucas associações aceitavam ou davam subsídios para pesquisas desse tipo propostas por economistas", diz o holandês Paul Frijters. Agora, com dinheiro no bolso, eles já podem externar sua porção Sigmund Freud.

 
 
 
 
topovoltar