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Psicologia
No divã dos economistas
Juros? Inflação? Nada disso. Muitos
deles agora querem estudar o
comportamento humano

Gabriela Carelli
Procurando uma resposta simples para uma questão
existencial? Consulte um economista. Isso mesmo. Há atualmente
uma corrente que se dedica a estudar e interpretar o comportamento
humano à luz de cálculos intrincados. A estrela mais
reluzente dessa nova geração é o professor
americano Steven Levitt, 35 anos, da Universidade de Chicago. No
ano passado, ele foi agraciado com o prêmio Clark, uma espécie
de Oscar dos economistas, pelas suas pesquisas. Uma delas conclui
que a legalização do aborto diminui a criminalidade.
Outra prova com todos os números que a tendência à
corrupção é incancelável em qualquer
sociedade.
Na semana passada, os economistas Paul Frijters,
da Universidade Nacional Australiana, e Ada Ferrer-i-Carbonell,
da Universidade de Amsterdã, divulgaram mais uma pesquisa
que mescla economia e psicologia. Publicado pela venerável
instituição britânica Royal Economic Society,
o trabalho se debruça sobre uma dúvida universal (se
o dinheiro traz ou não felicidade), para concluir que não,
o dinheiro não traz felicidade. "Segundo nossos estudos,
são as pessoas felizes que atraem o dinheiro para si, não
o inverso", disse Paul Frijters a VEJA. "Por serem de fácil
convivência, elas atraem empregadores, ganham a confiança
dos patrões e fascinam parceiros. São os traços
da personalidade desses indivíduos felizes que aumentam suas
rendas e os tornam bem-sucedidos em tudo, ou quase tudo", ele completa.
Para chegarem ao outro resultado, de que o dinheiro não torna
ninguém mais feliz, os dois economistas analisaram 30.000
questionários respondidos por 7.500
alemães durante toda a década de 90. Eles concluíram
que os mais ricos têm níveis de felicidade mais altos
que os menos abonados. Tudo bem. Mas aqueles que, no período,
se tornaram duas vezes mais ricos mostram-se apenas um pouco mais
felizes do que quando eram menos abastados e essa felicidade
extra tem curta duração.
O trabalho avaliou ainda a relação
entre felicidade, saúde e relacionamentos estáveis.
O grau de felicidade é maior entre aqueles com relacionamentos
estáveis e com boa saúde. Nesses tópicos, o
surpreendente foi a conclusão de que não é
um bom casamento ou uma saúde de ferro que torna alguém
feliz. O fato de ser feliz é que faz com que a pessoa tenha
um casamento harmonioso e goze de boa saúde. "Pessoas felizes
têm uma visão mais positiva da vida", diz Frijters.
Os autores do estudo dão exemplos de gente famosa cujo comportamento
confirma suas conclusões. A autora da série Harry
Porter, J.K. Rowling, afirmou recentemente à TV inglesa
que a fama e a fortuna recém-conquistadas não a fizeram
mais feliz do que sempre foi. O ciclista italiano Marco Pantani,
que morreu de overdose recentemente, e o jogador argentino Diego
Maradona, que vive às voltas com a dependência de drogas,
são exemplos de esportistas que enriqueceram, mas não
conseguiram comprar felicidade com suas fortunas. Isso sem falar
no boxeador Mike Tyson, que ficou rico, perdeu tudo e, nas duas
fases, fez de sua vida um inferno.
Sempre houve economistas interessados em aplicar
suas teorias para entender o comportamento humano. Um dos primeiros
foi o americano Gary Becker, ganhador do Prêmio Nobel em 1992.
Na década de 50, ele já estudava por meio de fórmulas
matemáticas as relações no casamento e com
os filhos. "O problema é que poucas associações
aceitavam ou davam subsídios para pesquisas desse tipo propostas
por economistas", diz o holandês Paul Frijters. Agora, com
dinheiro no bolso, eles já podem externar sua porção
Sigmund Freud.
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