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Cidades
Olhos por toda parte
A vigilância com câmeras para combater
o crime se espalha pelas ruas do país
Claudio Rossi
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| Monitores registram imagens em Suzano, em
São Paulo: eles cobrem 23 quarteirões |
Primeiro, foram as filmadoras vigiando o saguão
de edifícios, elevadores, colégios, supermercados
e shopping centers, com o objetivo de prevenir assaltos e vandalismo.
Agora, esse tipo de monitoramento está chegando às
ruas das cidades brasileiras. As câmeras, suspensas, registram
tudo o que acontece nos locais, 24 horas por dia. Entre cenas banais,
flagram desde pequenos delitos, como furtos, até seqüestros-relâmpago
e tentativas de latrocínio. Joinville, em Santa Catarina,
adotou o sistema no fim de 2001. Hoje, são 41 câmeras
monitorando a região central e quatro bairros da cidade.
Curitiba tem catorze câmeras na Rua Quinze de Novembro, no
centro. Em Suzano, na Grande São Paulo, são treze
delas vigiando 23 quadras do centro. A Praia de Boa Viagem, no Recife,
conta com doze desde o mês passado. Até dezembro, Belo
Horizonte irá ganhar 72 nas áreas com maior concentração
de lojas. Essas cidades repetem a experiência bem-sucedida
de Londres, onde 150.000 câmeras
vigiam as ruas um cidadão comum que ande por elas
a caminho do trabalho é filmado 300 vezes por dia.
Claudio Rossi
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| Câmera em cruzamento de Suzano: redução
de furtos, roubos, pichações e depredações
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Câmeras que vigiam cidadãos trazem
à lembrança o célebre romance de ficção
científica 1984, do inglês George Orwell, escrito
no fim da década de 40. Nele, o governo, chamado de Big Brother
(Grande Irmão), observa tudo o que a população
faz durante todo o tempo para interferir nos comportamentos individuais.
Foi justamente o fantasma do Big Brother que, em 2001, assombrou
a prefeitura de Porto Alegre, que se recusou a ceder a rede de fibra
óptica para que o governo do Estado implantasse câmeras
nas ruas de Porto Alegre. Neste ano, finalmente, chegou-se a um
acordo e elas serão instaladas brevemente. Em Curitiba, também
houve protestos por parte da população assim que as
filmadoras foram implantadas. Mas, com o passar do tempo, as pessoas
se acostumaram com a presença delas.
A instalação de câmeras
nas ruas é um procedimento adotado com cada vez mais freqüência
no mundo inteiro além de Londres, cidades como Nova
York, Washington, Paris, Berlim e Bruxelas já dispõem
delas. O processo, naturalmente, chamou a atenção
de sociólogos e analistas. O futurólogo americano
Alvin Toffler, autor do best-seller O Choque do Futuro, acha
que ele embute um risco. "Num futuro próximo, precisaremos
nos preocupar com o que chamo de Big Uncle (O Grande Tio), ou seja,
as grandes corporações coletando imagens e conversas
da população com objetivos de marketing", disse ele
a VEJA no ano passado. A tendência, segundo Toffler, é
que o uso de câmeras aumente de forma exponencial no futuro.
"As empresas vão observar o que fazemos no supermercado,
nas lojas, checando absolutamente tudo: nosso comportamento nos
corredores, em frente às prateleiras. Criaremos uma sociedade
cada vez mais investigativa." Em seu livro O Fim da Privacidade,
o cientista político canadense Reg Whitaker diz que as pessoas
estão abrindo mão de sua privacidade voluntariamente,
em troca de serviços melhores e mais segurança. "O
que torna esse processo irreversível é que ninguém
está impondo nada a ninguém, é tudo consensual",
escreve ele.
Joel Rocha
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| Rua Quinze de Novembro, em Curitiba: no início,
protestos por invasão de privacidade |
No caso do monitoramento das ruas brasileiras,
essa troca da privacidade pela segurança está surtindo
efeitos. A criminalidade caiu em todas as cidades que implantaram
o sistema de câmeras. Antes da implantação,
Joinville tinha vinte ocorrências de furto de veículo
por mês na região central. Hoje, são seis. Na
Rua Quinze de Novembro, em Curitiba, eram registradas quarenta ocorrências
por dia antes do monitoramento. Hoje, o índice está
próximo de zero. Em Suzano, os índices de roubo e
furto caíram 60%. As depredações e pichações
também foram reduzidas. As câmeras filmam num ângulo
de 360 graus e captam imagens a distâncias de até meio
quilômetro. Têm zoom com capacidade para visualizar
a placa de um carro e o rosto de uma pessoa. Às vezes prestam
serviços inusitados. "Em dezembro do ano passado, uma mulher
esqueceu a chave na porta do carro", conta o capitão Célio
de Andrade Almada Jr., da Polícia Militar de Suzano. "Pela
placa, levantamos os dados da proprietária do veículo
e ligamos para ela, avisando que sua chave estava com a polícia",
diz ele. Em contrapartida, muitas vezes as câmeras registram
situações de intimidade familiar, como a briga de
um casal na praça ou uma mãe dando bronca no filho
episódios que podem se transformar em fofoca na cidade.
Nessas ocasiões, materializa-se o fantasma do Big Brother.
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