Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Cidades
Olhos por toda parte

A vigilância com câmeras para combater
o crime se espalha pelas ruas do país


Claudio Rossi
Monitores registram imagens em Suzano, em São Paulo: eles cobrem 23 quarteirões

Primeiro, foram as filmadoras vigiando o saguão de edifícios, elevadores, colégios, supermercados e shopping centers, com o objetivo de prevenir assaltos e vandalismo. Agora, esse tipo de monitoramento está chegando às ruas das cidades brasileiras. As câmeras, suspensas, registram tudo o que acontece nos locais, 24 horas por dia. Entre cenas banais, flagram desde pequenos delitos, como furtos, até seqüestros-relâmpago e tentativas de latrocínio. Joinville, em Santa Catarina, adotou o sistema no fim de 2001. Hoje, são 41 câmeras monitorando a região central e quatro bairros da cidade. Curitiba tem catorze câmeras na Rua Quinze de Novembro, no centro. Em Suzano, na Grande São Paulo, são treze delas vigiando 23 quadras do centro. A Praia de Boa Viagem, no Recife, conta com doze desde o mês passado. Até dezembro, Belo Horizonte irá ganhar 72 nas áreas com maior concentração de lojas. Essas cidades repetem a experiência bem-sucedida de Londres, onde 150.000 câmeras vigiam as ruas – um cidadão comum que ande por elas a caminho do trabalho é filmado 300 vezes por dia.


Claudio Rossi
Câmera em cruzamento de Suzano: redução de furtos, roubos, pichações e depredações

Câmeras que vigiam cidadãos trazem à lembrança o célebre romance de ficção científica 1984, do inglês George Orwell, escrito no fim da década de 40. Nele, o governo, chamado de Big Brother (Grande Irmão), observa tudo o que a população faz durante todo o tempo para interferir nos comportamentos individuais. Foi justamente o fantasma do Big Brother que, em 2001, assombrou a prefeitura de Porto Alegre, que se recusou a ceder a rede de fibra óptica para que o governo do Estado implantasse câmeras nas ruas de Porto Alegre. Neste ano, finalmente, chegou-se a um acordo e elas serão instaladas brevemente. Em Curitiba, também houve protestos por parte da população assim que as filmadoras foram implantadas. Mas, com o passar do tempo, as pessoas se acostumaram com a presença delas.

A instalação de câmeras nas ruas é um procedimento adotado com cada vez mais freqüência no mundo inteiro – além de Londres, cidades como Nova York, Washington, Paris, Berlim e Bruxelas já dispõem delas. O processo, naturalmente, chamou a atenção de sociólogos e analistas. O futurólogo americano Alvin Toffler, autor do best-seller O Choque do Futuro, acha que ele embute um risco. "Num futuro próximo, precisaremos nos preocupar com o que chamo de Big Uncle (O Grande Tio), ou seja, as grandes corporações coletando imagens e conversas da população com objetivos de marketing", disse ele a VEJA no ano passado. A tendência, segundo Toffler, é que o uso de câmeras aumente de forma exponencial no futuro. "As empresas vão observar o que fazemos no supermercado, nas lojas, checando absolutamente tudo: nosso comportamento nos corredores, em frente às prateleiras. Criaremos uma sociedade cada vez mais investigativa." Em seu livro O Fim da Privacidade, o cientista político canadense Reg Whitaker diz que as pessoas estão abrindo mão de sua privacidade voluntariamente, em troca de serviços melhores e mais segurança. "O que torna esse processo irreversível é que ninguém está impondo nada a ninguém, é tudo consensual", escreve ele.


Joel Rocha
Rua Quinze de Novembro, em Curitiba: no início, protestos por invasão de privacidade

No caso do monitoramento das ruas brasileiras, essa troca da privacidade pela segurança está surtindo efeitos. A criminalidade caiu em todas as cidades que implantaram o sistema de câmeras. Antes da implantação, Joinville tinha vinte ocorrências de furto de veículo por mês na região central. Hoje, são seis. Na Rua Quinze de Novembro, em Curitiba, eram registradas quarenta ocorrências por dia antes do monitoramento. Hoje, o índice está próximo de zero. Em Suzano, os índices de roubo e furto caíram 60%. As depredações e pichações também foram reduzidas. As câmeras filmam num ângulo de 360 graus e captam imagens a distâncias de até meio quilômetro. Têm zoom com capacidade para visualizar a placa de um carro e o rosto de uma pessoa. Às vezes prestam serviços inusitados. "Em dezembro do ano passado, uma mulher esqueceu a chave na porta do carro", conta o capitão Célio de Andrade Almada Jr., da Polícia Militar de Suzano. "Pela placa, levantamos os dados da proprietária do veículo e ligamos para ela, avisando que sua chave estava com a polícia", diz ele. Em contrapartida, muitas vezes as câmeras registram situações de intimidade familiar, como a briga de um casal na praça ou uma mãe dando bronca no filho – episódios que podem se transformar em fofoca na cidade. Nessas ocasiões, materializa-se o fantasma do Big Brother.

 

 
 
 
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