Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Trabalho
Fim da moleza

Desemprego em alta leva sindicatos
europeus a abrir mão da jornada reduzida


AFP
AFP
Alemães em parque de Munique: um pouco menos de tempo livre para o lazer  

Foi bom enquanto durou: trabalhar menos pelo mesmo salário, uma experiência européia para combater o desemprego, está saindo de moda. A jornada reduzida diminui a competitividade das empresas e tem pouco impacto na criação de novos postos de trabalho. Há duas semanas, na França, os funcionários de uma fábrica de componentes automotivos da multinacional alemã Bosch assinaram um acordo com os patrões para trabalhar mais do que as 35 horas semanais de lei, sem aumento de salário. Na Alemanha, onde os funcionários das indústrias metalúrgicas e eletroeletrônicas têm uma jornada equivalente à dos franceses, a direção da Siemens conseguiu recentemente um acordo com os trabalhadores para que em uma de suas fábricas a carga horária voltasse ao que era 25 anos atrás: quarenta horas de trabalho por semana, sem aumento de salário. O sindicato teve de aceitar essas condições para não colocar em risco o emprego de seus associados. A empresa ameaçava fechar a fábrica e transferir a operação para a Hungria, onde a mão-de-obra é mais barata. Acordo semelhante foi acertado pela montadora DaimlerChrysler. Outras cinqüenta companhias abriram negociações com seus funcionários. O primeiro-ministro Gerhard Schröder quer aumentar o expediente dos funcionários do governo de 38,5 para quarenta horas semanais. A empresa ferroviária alemã propõe o mesmo.

Os sindicatos conquistaram a diminuição da jornada de trabalho a partir da década de 80 com o argumento de que ajudaria a combater o desemprego. O raciocínio era básico: se um funcionário trabalha menos, abre espaço à contratação de mais gente para manter o ritmo da produção. Previsivelmente, ocorreu o oposto. Os custos salariais tornaram-se altos demais, o que prejudicou a competitividade e dificulta a contratação de mais funcionários. Coreanos e chineses estão inundando o mercado europeu com produtos mais baratos que os produzidos pelas empresas locais, que gastam mais com o salário dos operários. No passado isso era compensado com a alta produtividade dos europeus, que contribuiu para o aumento das exportações e o crescimento da economia – vantagem que está se desmanchando no ar.

"Sindicatos e políticos estão tendo de prestar atenção ao que os industriais alemães dizem há anos: a redução da jornada de trabalho fez mal à economia", disse a VEJA o economista Heinz Preusse, professor da Universidade de Tübingen, na Alemanha. Costuma-se dizer que os europeus construíram um sistema social em que se trabalha para viver, e os americanos um sistema em que se vive para trabalhar. Em troca do hiperdinamismo da economia americana, vivem numa sociedade mais humana. Em ambos os casos, os modelos acabam sofrendo reajustes quando se exagera demais a tendência – como começa a acontecer com a idílica semana de 35 horas.

 
 
 
 
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