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Riqueza
O xeque que compra de tudo
Maior colecionador do mundo, Saud al-Thani
quer fazer do Catar a Florença muçulmana

Marcelo Marthe
Meses atrás, uma feira de arte na cidade
holandesa de Maastricht recebeu a visita de uma figura em trajes
árabes. Por onde o xeque Saud al-Thani passava, causava frisson
entre os marchands. Ele é raramente visto nesse circuito
mas todos sabiam bem de quem se tratava. Al-Thani é
o maior e mais agressivo colecionador do planeta, de acordo com
a revista americana ARTnews, que acaba de divulgar seu ranking
anual do gênero. Integrante da família real do Catar,
emirado com 770.000 habitantes e a terceira
maior reserva de petróleo do mundo, ele gasta algo entre
100 e 300 milhões de dólares por ano em obras de arte,
antiguidades e afins. A magnitude de seus investimentos só
é comparável à de colecionadores célebres
do passado, como o americano Solomon R. Guggenheim, fundador do
museu nova-iorquino homônimo. Nos últimos anos, Al-Thani
vem provocando abalos sísmicos em vários nichos. Somente
no primeiro semestre deste ano, ele desembolsou 28 milhões
de dólares por 350 peças de arte islâmica. O
xeque também tem fascínio por relíquias egípcias
e costuma impressionar os ouvintes com seus conhecimentos
sobre o faraó Akhenaton, da 18ª Dinastia, com quem teria
uma curiosa semelhança física. Mas seus interesses
vão muito além: ele coleciona fotografias, pinturas
dos velhos mestres, livros, mobília francesa do século
XVIII, esculturas romanas, pedras preciosas, fósseis, vestuário
de época, câmeras, bicicletas, automóveis antigos...
Nutre ainda outra paixão: os bichos. Numa propriedade no
deserto, cria espécies raras como a ararinha-azul, uma ave
brasileira em extinção.
Com 39 anos, casado e pai de três filhos,
o xeque estudou em colégios militares e é autodidata
em história da arte. Apesar disso, os marchands não
se cansam de elogiar sua intuição por razões
óbvias. "Não me contento com nada menos que obras-primas",
declarou ele recentemente à publicação inglesa
The Art Newspaper. Nos leilões de casas como a Christie's
e a Sotheby's, seus lances levam as cotações às
alturas. Em 2000, ele não hesitou em desembolsar 9 milhões
de dólares por um livro raro, Pássaros da América,
do naturalista John James Audubon (1785-1851). Às vezes,
adquire acervos inteiros de uma tacada. Foi o caso da Coleção
Bokelberg, com fotografias datadas de 1844 a 1939, que saiu por
15 milhões de dólares. Na contramão do mercado,
o xeque não tem interesse por quadros impressionistas e modernistas.
"Prefiro objetos a telas, pois meu prazer é sentir cada peça
nas mãos", diz ele. Embora não se importe em pagar
caro, há rumores de que o xeque resolveu boicotar certos
leiloeiros parisienses. Aproveitando-se de sua empolgação,
eles teriam se valido de lances falsos para inflacionar seus preços.
Além de comprador voraz, Al-Thani é mecenas. Um exemplo:
ele contratou o artista plástico inglês David Hockney
para criar a piscina de sua propriedade no deserto.
É nesse local paradisíaco, com
jardins artificiais e um complexo de estufas, que o xeque mantém
seu zoológico. Ele financia projetos de preservação,
mas, paradoxalmente, não abre mão de ter espécies
em extinção em cativeiro. Trata-se de uma paixão
que quase lhe custou a vida. Al-Thani foi baleado enquanto participava
de um safári na Somália para observar um tipo de antílope
ameaçado. Recuperado, ele deu um jeito de levar nove filhotes
para o Catar. Além desses bichos, o xeque gosta de veados,
cervos e felinos, mas tem fixação mesmo é por
aves. Possui exemplares de várias espécies brasileiras
ameaçadas, incluindo 42 ararinhas-azuis 80% de toda
a população ainda existente desses pássaros.
Como a ararinha-azul foi extinta na natureza e só há
dez indivíduos em posse do país, seu futuro está
praticamente nas mãos do xeque.
Primo do emir do Catar, que subiu ao poder
em 1995, depois de derrubar seu pai num golpe sangrento, Al-Thani
cuida da política cultural do emirado. Seu hobby se confunde
com um projeto de Estado: a criação de cinco museus
para sua coleção. A pretensão é transformar
Doha, a capital do país, numa Florença do mundo muçulmano.
"Queremos ter uma cidade culta", diz Al-Thani. Para conceber o primeiro
desses museus, dedicado à arte islâmica, o xeque contratou
o arquiteto sino-americano I.M. Pei, o mesmo que criou a pirâmide
de vidro do Museu do Louvre. O edifício, cuja construção
deverá se iniciar em breve, ficará numa ilha artificial
no Golfo Pérsico. Não muito distante, um conjunto
sobre três pilares gigantescos abrigará a biblioteca
nacional e um museu de história natural. Coube ao espanhol
Santiago Calatrava desenhar um museu de fotografia descrito como
"uma estrutura ultraluminosa dotada de duas asas imensas". Por fim,
um palácio local será adaptado para receber seu acervo
de vestes e tecidos antigos. Regido por séculos pelos rigores
da lei islâmica, o Catar hoje tenta conciliar as tradições
tribais com as idéias liberalizantes do emir. Muitos no país
ainda se chocam, contudo, com a sensibilidade de seu parente para
as artes. "Minha família acha que sou louco", diz Al-Thani.
Só ela?
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