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Polícia
O espião que entrou numa fria
Único preso
no caso das teles,
português
era um agente não muito secreto

Cynara Menezes
Arquivo pessoal
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| Tiago Verdial,
o
agente luso: o fã de samba dançou depois que "pintou
um job" |
Detido pela Polícia
Federal por envolvimento no caso Kroll, a empresa americana de investigação
flagrada espionando e-mails de funcionários do governo, o
português Tiago Verdial revelou-se um espião sui generis:
pouquíssimo discreto, em nada lembra um profissional convencional.
Se não, vejamos: teria um agente secreto uma página
em um site de relacionamentos da internet em que amigos o chamariam
pelo carinhoso apelido de "araponga escamoso"? Pois Verdial tinha.
Seria esse mesmo agente secreto um freqüentador assíduo
das quadras de ensaio da Mangueira? Verdial não só
costumava requebrar seu 1,90 metro ao som da cuíca da escola
carioca, como, segundo amigos, não perdia um show de música
na Lapa. "O português é louco por samba", diz um desses
amigos, pedindo anonimato.
Verdial, de 30 anos,
trabalhou na Kroll como "consultor júnior" contratado entre
2000 e 2002. Desde então, limitava-se a prestar serviços
ocasionais para a empresa. Solicitado, anunciava aos amigos: "Pintou
um job (ou trabalho, em inglês)". E seguia para a missão
de ônibus. Sim, o 007 não tem carro e mora em
um apartamento alugado na Urca, que vive lotado de amigos barulhentos
e fãs de Clara Nunes. É natural que o seu estilo de
vida pareça pouco compatível com aquele que se espera
de um agente secreto dos bons. Segundo informações
de envolvidos nas investigações, Verdial era o terceiro
na hierarquia dos espiões escalados pela Kroll para trabalhar
no projeto Tóquio a operação que, encomendada
pela Brasil Telecom com o objetivo de levantar informações
que comprometessem sua concorrente, a Telecom Italia, acabou esbarrando
em integrantes do primeiro escalão do governo. Ou seja, Verdial
não passa de um bagrinho na história.
Wilton Junior/AE
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| Verdial, no momento da prisão: adeus, Mangueira...
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Bem-nascido e bem-criado, ele chegou ao Brasil com 1 ano de idade.
Fala inglês e francês e estudou em um colégio
de classe média alta em São Paulo, o Santo Américo.
Na capital paulista e no Rio, para onde se mudou em 2000, chegou
a cursar duas faculdades: economia e administração.
Não terminou nenhuma. Foi preso no último dia 24,
provavelmente com base em confissão feita em julho a um executivo
da Telecom Italia, a empresa investigada pela Kroll. Verdial havia
enviado currículo à empresa italiana, pedindo emprego.
Ao ser entrevistado, caiu numa armadilha. O executivo, que já
sabia de suas atividades, gravou o português admitindo que,
a serviço da Kroll, usara de expedientes ilícitos
para espionar a empresa na qual pleiteava trabalho. Três hipóteses
justificariam a atitude de Verdial: ele planejava infiltrar-se na
Telecom Italia para repassar informações a seus empregadores
da Kroll; pretendia negociar dados sobre a Brasil Telecom com os
italianos; ou foi apenas ingênuo (o mais provável)
queria mesmo um emprego na tele e resolveu contar segredos
da rival para agradar ao possível novo patrão. De
qualquer maneira, deu-se mal: até agora é o único
preso no escândalo da Kroll, empresa que, se tivesse agido
nos Estados Unidos como, suspeita-se, agiu no Brasil, seria processada
pelo governo. Lá, caso fosse condenada, a Kroll pagaria uma
multa da ordem de alguns milhões de dólares e os executivos
responsáveis pegariam uma cana de quatro a seis anos.
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