Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Polícia
O espião que entrou numa fria

Único preso no caso das teles, português
era um
agente não muito secreto


Cynara Menezes

 
Arquivo pessoal
Tiago Verdial, o agente luso: o fã de samba dançou depois que "pintou um job"

Detido pela Polícia Federal por envolvimento no caso Kroll, a empresa americana de investigação flagrada espionando e-mails de funcionários do governo, o português Tiago Verdial revelou-se um espião sui generis: pouquíssimo discreto, em nada lembra um profissional convencional. Se não, vejamos: teria um agente secreto uma página em um site de relacionamentos da internet em que amigos o chamariam pelo carinhoso apelido de "araponga escamoso"? Pois Verdial tinha. Seria esse mesmo agente secreto um freqüentador assíduo das quadras de ensaio da Mangueira? Verdial não só costumava requebrar seu 1,90 metro ao som da cuíca da escola carioca, como, segundo amigos, não perdia um show de música na Lapa. "O português é louco por samba", diz um desses amigos, pedindo anonimato.

Verdial, de 30 anos, trabalhou na Kroll como "consultor júnior" contratado entre 2000 e 2002. Desde então, limitava-se a prestar serviços ocasionais para a empresa. Solicitado, anunciava aos amigos: "Pintou um job (ou trabalho, em inglês)". E seguia para a missão – de ônibus. Sim, o 007 não tem carro e mora em um apartamento alugado na Urca, que vive lotado de amigos barulhentos e fãs de Clara Nunes. É natural que o seu estilo de vida pareça pouco compatível com aquele que se espera de um agente secreto dos bons. Segundo informações de envolvidos nas investigações, Verdial era o terceiro na hierarquia dos espiões escalados pela Kroll para trabalhar no projeto Tóquio – a operação que, encomendada pela Brasil Telecom com o objetivo de levantar informações que comprometessem sua concorrente, a Telecom Italia, acabou esbarrando em integrantes do primeiro escalão do governo. Ou seja, Verdial não passa de um bagrinho na história.

Wilton Junior/AE
Verdial, no momento da prisão: adeus, Mangueira...


Bem-nascido e bem-criado, ele chegou ao Brasil com 1 ano de idade. Fala inglês e francês e estudou em um colégio de classe média alta em São Paulo, o Santo Américo. Na capital paulista e no Rio, para onde se mudou em 2000, chegou a cursar duas faculdades: economia e administração. Não terminou nenhuma. Foi preso no último dia 24, provavelmente com base em confissão feita em julho a um executivo da Telecom Italia, a empresa investigada pela Kroll. Verdial havia enviado currículo à empresa italiana, pedindo emprego. Ao ser entrevistado, caiu numa armadilha. O executivo, que já sabia de suas atividades, gravou o português admitindo que, a serviço da Kroll, usara de expedientes ilícitos para espionar a empresa na qual pleiteava trabalho. Três hipóteses justificariam a atitude de Verdial: ele planejava infiltrar-se na Telecom Italia para repassar informações a seus empregadores da Kroll; pretendia negociar dados sobre a Brasil Telecom com os italianos; ou foi apenas ingênuo (o mais provável) – queria mesmo um emprego na tele e resolveu contar segredos da rival para agradar ao possível novo patrão. De qualquer maneira, deu-se mal: até agora é o único preso no escândalo da Kroll, empresa que, se tivesse agido nos Estados Unidos como, suspeita-se, agiu no Brasil, seria processada pelo governo. Lá, caso fosse condenada, a Kroll pagaria uma multa da ordem de alguns milhões de dólares e os executivos responsáveis pegariam uma cana de quatro a seis anos.

 
 
 
 
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