Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Internacional
Todos os fogos para o centro

Santo, herói, sábio e, acima de tudo,
bravo guerreiro: esse foi o Kerry forjado
na convenção democrata para conquistar
eleitores do meio

Reuters
Kerry na convenção: proibido falar mal de Bush e obrigatório repetir que o democrata é bom na defesa


NESTA REPORTAGEM
Quadro: A América da esquerda à direita

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Conheça o País: EUA

John Kerry está ficando cada vez mais parecido com Bill Clinton. Calma: como ele não tem demonstrado tendências de se enrabichar por estagiárias, e a mulher, Teresa, já avisou que partiria para medidas cirúrgicas se o fizesse, não é na área do sexo, da mentira nem da cara-de-pau que o candidato democrata deve imitar o ex-presidente. Kerry tem de se parecer com Clinton pela capacidade de cavar, junto à opinião pública, um lugar bem sólido no centro do espectro político. A explicação é básica: o eleitorado mais à esquerda só não votaria num candidato anti-Bush se ele se chamasse Osama bin Laden, o mais conservador vai votar em Bush mesmo que ele mude o sobrenome para Bin Laden; sobra, portanto, a faixa do meio, que hesita em reeleger o atual presidente, mas desconfia do perfil liberal de Kerry. Foi por isso que a convenção democrata, em Boston, na semana passada, seguiu um roteiro obsessivamente controlado. Era proibido falar mal de Bush, para não espantar o eleitor indeciso, e era obrigatório ressaltar, a cada três segundos, que Kerry é forte, decidido e vai defender o país de seus inimigos – a segurança nacional, assunto vital depois do 11 de Setembro, é a área em que os democratas tradicionalmente perdem para os republicanos, na visão do público, embora todas as guerras importantes (o que definitivamente não é o caso do Iraque) tenham sido travadas em governos daqueles. Foi por isso que Kerry começou seu discurso batendo continência – como a esta altura até os venusianos sabem, ele tem direito a fazer isso, pela coragem demonstrada como voluntário na Guerra do Vietnã. E terminou garantindo que jamais hesitará "em usar a força quando necessário".

Kerry tem 100 dias para convencer os não-convertidos de que é realmente capaz de fazer isso, além de dominar outros temas recorrentes, como o déficit público e o desemprego. Pela ordem natural das campanhas, ele deveria conseguir uma boa arrancada depois da convenção, na qual previsivelmente foi pintado como uma mistura de santo, herói, sábio e bravo guerreiro. O mais provável, no momento, é que, assim como há quatro anos, os dois candidatos entrem na reta final da disputa empatados nas pesquisas. Os números comprovam uma tendência iniciada trinta anos atrás e consolidada em 2000: a polarização do eleitorado americano, traduzida em fidelidade ao partido seja qual for o candidato. Até 1976, democratas e republicanos disputavam a preferência de forma acirrada em todos os Estados. Hoje, sete em cada dez eleitores americanos vivem em cidades onde um único partido costuma levar mais de 60% dos votos. É uma espécie de regime de segregação política por critérios geográficos, como se duas tribos tivessem passado a dividir o país em redutos partidários.

Há várias explicações para o fenômeno. Durante a Guerra Fria, a ameaça comunista mantinha republicanos e democratas atados a uma plataforma inquebrantável – confrontar os russos – na qual as correntes centristas dos dois partidos conservavam espaço e influência. A derrocada da União Soviética liberou energias para posições menos maniqueístas. Nos anos 80, Ronald Reagan, ídolo dos conservadores, conduziu uma guinada ideológica à direita, cooptando democratas conservadores e provocando a saída de republicanos mais liberais, estes obviamente em número irrisório. Bill Clinton conseguiu fincar a bandeira democrata na Casa Branca por dois mandatos ao passar, ele próprio, por um processo de "centrificação" não muito diferente do que Kerry está enfrentando agora, mesclando medidas econômicas tomadas da cartilha conservadora a posições progressistas em matéria de saúde, educação e minorias. Simultaneamente, porém, houve um acirramento das chamadas "batalhas culturais". Clinton e a mulher, Hillary, foram profundamente odiados pela direita, que deitou e rolou quando ele ofereceu, de bandeja, as indignidades do caso da estagiária. No governo do homem que conquistou o centro, as duas correntes políticas predominantes acirraram suas tendências.

"O sinal mais visível dessa mudança foi que os partidos se tornaram ideologicamente mais coerentes", disse a VEJA o sociólogo Philip Klinkner, autor de três livros sobre a política partidária americana. Como resultado, as alas mais radicais de cada lado ganharam espaço. Os republicanos reforçaram sua vocação conservadora principalmente na discussão de valores morais. Entre eles, a defesa de instituições como a família e a importância da religião na formação do caráter, o que explica o fato de controlarem vários Estados do Sul e do Meio-Oeste – onde esses valores são predominantes. Já os democratas consolidaram sua força nos Estados da Região Nordeste (que inclui a Nova Inglaterra, reduto de Kerry), na Califórnia e nos grandes centros urbanos. A escolha do senador John Edwards como vice na chapa de Kerry obedeceu à lógica da compensação. Natural da Carolina do Sul, Estado controlado pelos republicanos, Edwards deve puxar votos para a chapa democrata. Deve funcionar também, simbolicamente, como uma âncora que não deixará o candidato a presidente derivar muito para a direita. Advogado que ficou milionário processando seguradoras de saúde, o fotogênico Edwards tem a aura de defensor dos excluídos (uma categoria difícil de definir num país onde 60% dos habitantes têm casa própria, 20% investem em ações e mais da metade dos jovens tem algum nível de educação superior).

Reuters
Edwards e família, todos fotogênicos: o milionário candidato a vice fala para os "excluídos"


É lugar-comum dizer que um país chega a eleições importantes dividido em lados radicalizados – mas nos Estados Unidos essa é uma tendência que tem se acentuado. Quando se fala em direita e esquerda lá, evidentemente é preciso ter em mente que não defendem sistemas excludentes. Ninguém sonha em tomar o poder e estatizar bancos, nacionalizar o petróleo e tomar rum com Fidel, para ficar em exemplos estereotipados. As diferenças são de tonalidade, em especial no campo do comportamento. De modo geral, eliminando-se as nuances, a esquerda é a favor do aborto, do ensino laico, do casamento gay, do controle da posse de armas. Tudo o que a direita é contra. A direita come carne vermelha, joga em cassinos, ouve música country, assiste à Fox TV, dirige SUVs, toma uísque, acha que nenhuma boa ação fica impune, gosta de loira peituda e só não fuma charuto porque as esposas não deixam. A esquerda pede peito de frango, vai ao teatro, ouve rock cabeça, vê o canal educativo PBS, pilota sedãs, beberica vinho branco (Char-do-nnay), almeja fazer o bem, gosta de loira peituda e preferiria uma sessão de tortura em Abu Ghraib a encostar um cigarro na boca.

O centro é uma mistura de tudo isso. Em termos eleitorais, ele se concentra nos doze Estados onde não há predomínio claro de nenhum dos dois partidos. É lá que Kerry e Bush vão descer os tanques na reta final de campanha – entre eles, Flórida, Novo México, Pensilvânia, Ohio e Tennessee. Assim, paradoxalmente, caberá ao eleitorado de centro decidir a disputa pela Casa Branca num ambiente político bastante polarizado. Ou seja, os rumos do império americano, e por conseqüência do resto do mundo, estão nas mãos, no dizer de um colunista americano, de "meia dúzia de caras de Toledo", a cidade de Ohio que virou sinônimo de fiel da balança.

 
 
 
 
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