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Internacional
Todos os fogos para o centro
Santo, herói, sábio e, acima de
tudo,
bravo guerreiro: esse foi o Kerry forjado
na convenção democrata para conquistar
eleitores do meio
Reuters
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| Kerry na convenção: proibido
falar mal de Bush e obrigatório repetir que o democrata
é bom na defesa |
John Kerry está ficando cada vez mais
parecido com Bill Clinton. Calma: como ele não tem demonstrado
tendências de se enrabichar por estagiárias, e a mulher,
Teresa, já avisou que partiria para medidas cirúrgicas
se o fizesse, não é na área do sexo, da mentira
nem da cara-de-pau que o candidato democrata deve imitar o ex-presidente.
Kerry tem de se parecer com Clinton pela capacidade de cavar, junto
à opinião pública, um lugar bem sólido
no centro do espectro político. A explicação
é básica: o eleitorado mais à esquerda só
não votaria num candidato anti-Bush se ele se chamasse Osama
bin Laden, o mais conservador vai votar em Bush mesmo que
ele mude o sobrenome para Bin Laden; sobra, portanto, a faixa do
meio, que hesita em reeleger o atual presidente, mas desconfia do
perfil liberal de Kerry. Foi por isso que a convenção
democrata, em Boston, na semana passada, seguiu um roteiro obsessivamente
controlado. Era proibido falar mal de Bush, para não espantar
o eleitor indeciso, e era obrigatório ressaltar, a cada três
segundos, que Kerry é forte, decidido e vai defender o país
de seus inimigos a segurança nacional, assunto vital
depois do 11 de Setembro, é a área em que os democratas
tradicionalmente perdem para os republicanos, na visão do
público, embora todas as guerras importantes (o que definitivamente
não é o caso do Iraque) tenham sido travadas em governos
daqueles. Foi por isso que Kerry começou seu discurso batendo
continência como a esta altura até os venusianos
sabem, ele tem direito a fazer isso, pela coragem demonstrada como
voluntário na Guerra do Vietnã. E terminou garantindo
que jamais hesitará "em usar a força quando necessário".
Kerry tem 100 dias para convencer os não-convertidos
de que é realmente capaz de fazer isso, além de dominar
outros temas recorrentes, como o déficit público e
o desemprego. Pela ordem natural das campanhas, ele deveria conseguir
uma boa arrancada depois da convenção, na qual previsivelmente
foi pintado como uma mistura de santo, herói, sábio
e bravo guerreiro. O mais provável, no momento, é
que, assim como há quatro anos, os dois candidatos entrem
na reta final da disputa empatados nas pesquisas. Os números
comprovam uma tendência iniciada trinta anos atrás
e consolidada em 2000: a polarização do eleitorado
americano, traduzida em fidelidade ao partido seja qual for o candidato.
Até 1976, democratas e republicanos disputavam a preferência
de forma acirrada em todos os Estados. Hoje, sete em cada dez eleitores
americanos vivem em cidades onde um único partido costuma
levar mais de 60% dos votos. É uma espécie de regime
de segregação política por critérios
geográficos, como se duas tribos tivessem passado a dividir
o país em redutos partidários.
Há várias explicações
para o fenômeno. Durante a Guerra Fria, a ameaça comunista
mantinha republicanos e democratas atados a uma plataforma inquebrantável
confrontar os russos na qual as correntes centristas
dos dois partidos conservavam espaço e influência.
A derrocada da União Soviética liberou energias para
posições menos maniqueístas. Nos anos 80, Ronald
Reagan, ídolo dos conservadores, conduziu uma guinada ideológica
à direita, cooptando democratas conservadores e provocando
a saída de republicanos mais liberais, estes obviamente em
número irrisório. Bill Clinton conseguiu fincar a
bandeira democrata na Casa Branca por dois mandatos ao passar, ele
próprio, por um processo de "centrificação"
não muito diferente do que Kerry está enfrentando
agora, mesclando medidas econômicas tomadas da cartilha conservadora
a posições progressistas em matéria de saúde,
educação e minorias. Simultaneamente, porém,
houve um acirramento das chamadas "batalhas culturais". Clinton
e a mulher, Hillary, foram profundamente odiados pela direita, que
deitou e rolou quando ele ofereceu, de bandeja, as indignidades
do caso da estagiária. No governo do homem que conquistou
o centro, as duas correntes políticas predominantes acirraram
suas tendências.
"O sinal mais visível dessa mudança
foi que os partidos se tornaram ideologicamente mais coerentes",
disse a VEJA o sociólogo Philip Klinkner, autor de três
livros sobre a política partidária americana. Como
resultado, as alas mais radicais de cada lado ganharam espaço.
Os republicanos reforçaram sua vocação conservadora
principalmente na discussão de valores morais. Entre eles,
a defesa de instituições como a família e a
importância da religião na formação do
caráter, o que explica o fato de controlarem vários
Estados do Sul e do Meio-Oeste onde esses valores são
predominantes. Já os democratas consolidaram sua força
nos Estados da Região Nordeste (que inclui a Nova Inglaterra,
reduto de Kerry), na Califórnia e nos grandes centros urbanos.
A escolha do senador John Edwards como vice na chapa de Kerry obedeceu
à lógica da compensação. Natural da
Carolina do Sul, Estado controlado pelos republicanos, Edwards deve
puxar votos para a chapa democrata. Deve funcionar também,
simbolicamente, como uma âncora que não deixará
o candidato a presidente derivar muito para a direita. Advogado
que ficou milionário processando seguradoras de saúde,
o fotogênico Edwards tem a aura de defensor dos excluídos
(uma categoria difícil de definir num país onde 60%
dos habitantes têm casa própria, 20% investem em ações
e mais da metade dos jovens tem algum nível de educação
superior).
Reuters
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| Edwards e família, todos fotogênicos: o milionário
candidato a vice fala para os "excluídos" |
É lugar-comum dizer que um país chega a eleições
importantes dividido em lados radicalizados mas nos Estados
Unidos essa é uma tendência que tem se acentuado. Quando
se fala em direita e esquerda lá, evidentemente é
preciso ter em mente que não defendem sistemas excludentes.
Ninguém sonha em tomar o poder e estatizar bancos, nacionalizar
o petróleo e tomar rum com Fidel, para ficar em exemplos
estereotipados. As diferenças são de tonalidade, em
especial no campo do comportamento. De modo geral, eliminando-se
as nuances, a esquerda é a favor do aborto, do ensino laico,
do casamento gay, do controle da posse de armas. Tudo o que a direita
é contra. A direita come carne vermelha, joga em cassinos,
ouve música country, assiste à Fox TV, dirige SUVs,
toma uísque, acha que nenhuma boa ação fica
impune, gosta de loira peituda e só não fuma charuto
porque as esposas não deixam. A esquerda pede peito de frango,
vai ao teatro, ouve rock cabeça, vê o canal educativo
PBS, pilota sedãs, beberica vinho branco (Char-do-nnay),
almeja fazer o bem, gosta de loira peituda e preferiria uma sessão
de tortura em Abu Ghraib a encostar um cigarro na boca.
O centro é uma mistura de tudo isso.
Em termos eleitorais, ele se concentra nos doze Estados onde não
há predomínio claro de nenhum dos dois partidos. É
lá que Kerry e Bush vão descer os tanques na reta
final de campanha entre eles, Flórida, Novo México,
Pensilvânia, Ohio e Tennessee. Assim, paradoxalmente, caberá
ao eleitorado de centro decidir a disputa pela Casa Branca num ambiente
político bastante polarizado. Ou seja, os rumos do império
americano, e por conseqüência do resto do mundo, estão
nas mãos, no dizer de um colunista americano, de "meia dúzia
de caras de Toledo", a cidade de Ohio que virou sinônimo de
fiel da balança.
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