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Comércio
Operação salvamento na OMC
A redução dos subsídios
agrícolas, vital para
o Brasil, ainda é o grande nó da negociação

Carina Nucci
Reuters
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François Mori/AP
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| Manifestação em
Genebra contra os subsídios e Jacques Chirac, a favor:
quebra- de-braço na OMC |
O
ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, foi
um dos cinco representantes que se reuniram em Genebra, na Suíça,
na semana passada, com a missão de salvar a rodada de negociações
da Organização Mundial do Comércio (OMC). Era
um desafio de bom tamanho. No centro do debate estava a abertura
do comércio agrícola, a maior demanda dos países
em desenvolvimento e um dos pontos mais nevrálgicos das atuais
relações comerciais mundiais. A redução
dos subsídios à agricultura foi acordada como prioritária
na Rodada de Doha, no Catar, em 2001. Acompanhado de ministros da
União Européia (UE), Estados Unidos, Índia
e Austrália, Amorim preparou o rascunho do documento que
propôs a redução das barreiras ao comércio
em escala mundial. A presença brasileira nesse seleto grupo
não deixou de ser uma surpresa. Em termos de trocas comerciais,
o Brasil está na segunda divisão. Responde por menos
de 1% do comércio mundial e ocupa o 27º lugar tanto
no ranking dos maiores exportadores quanto no dos importadores,
atrás de países como China, Coréia e México.
A explicação para a inclusão do Brasil nos
momentos decisivos da discussão é que o país
é o quarto maior exportador de produtos agrícolas.
Em relação às rodadas anteriores, a composição
do grupo representa um avanço. "Antes países ricos
elaboravam o documento e chegavam para a reunião com um texto
pronto. Criavam algumas exceções para os países
pobres e o acordo era fechado. Agora isso mudou", diz Marcos Jank,
presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações
Internacionais (Icone), de São Paulo.
Na noite de sexta-feira, parte dos delegados,
ministros e representantes dos 147 países-membros da OMC
ainda negociava o rascunho preparado pelas cinco potências
agrícolas na sede da organização, às
margens do Lago Leman. A previsão era que as discussões
se estendessem por todo o dia de sábado. De um lado da trincheira,
os pobres e emergentes exigem justiça no sistema internacional.
Do outro, os países ricos exibem o maior arsenal existente
contra o livre-comércio na agricultura. Contam com impostos
de importação que ultrapassam inacreditáveis
900%, cotas e leis sanitárias que parecem criadas exatamente
para servir de muralha nas fronteiras. Juntos, gastam 320 bilhões
de dólares por ano em subsídios, o equivalente ao
PIB de Taiwan. Os agricultores da França, do presidente Jacques
Chirac, são alguns dos maiores beneficiados.
Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
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| Amorim: tentativa de abertura dos mercados
às exportações agrícolas |
Para o Brasil, esse protecionismo é
ruim por vários motivos. Além de fortalecer artificialmente
os produtores europeus e americanos, o que diminui as chances de
exportação para esses mercados, dificulta as vendas
para vários outros países. Os EUA e a UE são
os maiores exportadores de produtos agrícolas do mundo. Ou
seja, os ricos ainda inundam o mercado internacional com produtos
subsidiados. "O Brasil seria um dos maiores beneficiados se houvesse
uma redução radical das barreiras e dos subsídios",
disse a VEJA Kevin Cleaver, diretor do departamento de desenvolvimento
rural do Banco Mundial. Caso os produtos agrícolas tivessem
o mesmo tratamento dos industrializados, as exportações
dos países em desenvolvimento aumentariam em 40 bilhões
de dólares.
O ministro Amorim não se cansa de repetir
que as negociações multilaterais, como as rodadas
da OMC que reúnem mais de uma centena de países, devem
receber maior atenção do que os acordos regionais,
como a Área de Livre Comércio das Américas
(Alca), que envolve 34 nações. De acordo com essa
lógica, os grandes acordos oferecem mais equilíbrio
ao comércio internacional porque estabelecem regras e resolvem
controvérsias em escala planetária. Na vida real,
nem sempre é assim.
Nas circunstâncias atuais, no entanto,
o multilateralismo merece, sim, toda a atenção. "Os
EUA e a UE estão condicionando os acordos com o Mercosul
à conclusão da rodada de Doha. Subsídios à
exportação só serão tratados na Alca
e negociados com a UE quando houver consenso na OMC", diz Rubens
Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington. Em visita a São
Paulo, no final de julho, Alan Larson, subsecretário de Estado
dos EUA, confirmou essa impressão. Europeus e americanos
não querem avançar em concessões nos acordos
entre blocos porque temem ter de dar as mesmas condições
a todos os membros da OMC. Em meio a tantas dúvidas, no entanto,
uma coisa é certa. O sucesso da negociação
em Genebra não garante um final feliz para a rodada de Doha,
muito menos para a Alca e o acordo do Mercosul com os europeus.
Mas o fracasso pode atrasar as negociações por anos.
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