|
|
Política
Estava tudo errado
TCU pede que ONG de petista
devolva dinheiro ao governo

Alexandre Oltramari
Dida Sampaio/AE
 |
Ana Araujo
 |
| Berzoini (à esq.)
e Mauro Dutra, dono da Ágora: suspensão de convênio
e devolução do dinheiro |
O Tribunal de Contas da União divulgou,
na semana passada, o resultado de dois meses de investigações
sobre a Ágora, a ONG que pertence ao empresário Mauro
Dutra, amigo do presidente Lula. O relatório tem 33 páginas,
faz uma minuciosa radiografia do convênio entre a Ágora
e o programa Primeiro Emprego, pelo qual recebeu 7,5 milhões
de reais, e pede duas providências constrangedoras: a suspensão
temporária do convênio e a devolução
pela ONG petista de parte do dinheiro que recebeu do governo. O
relatório informa que a Ágora não executou
todo o trabalho para o qual foi contratada nem apresentou todas
as listas de presença dos jovens supostamente treinados para
entrar no mercado de trabalho um documento sem o qual fica
impossível provar que o serviço foi realmente feito.
A investigação também descobriu que em alguns
cursos apenas 20% das aulas foram ministradas e, para piorar, ficou-se
sabendo que 21 professores jamais deram aula no âmbito do
programa.
O TCU não conseguiu entender sequer
por que a Ágora ficou com a parte do leão dos recursos
do Primeiro Emprego ou 40% dos 19 milhões de reais
destinados às entidades conveniadas. O Ministério
do Trabalho, comandado por Ricardo Berzoini, sustenta que os recursos
foram distribuídos conforme a quantidade de jovens em situação
de risco em cada região do país. Ou seja: uma região
com muitos jovens de 16 a 24 anos sem qualificação
para trabalhar receberia mais dinheiro do que outra com poucos jovens
na mesma situação. O problema é que a Ágora
atua no Distrito Federal, que aparece em oitavo lugar no ranking
das dez regiões metropolitanas com mais jovens em situação
de risco. Se o critério fosse levado em conta, a ONG mais
aquinhoada com os recursos do Primeiro Emprego teria de atuar na
região de Salvador, campeã nacional de jovens vulneráveis.
Em vez disso, a ONG de Salvador, que não pertencia a nenhum
petista amigo do presidente, ficou com menos de 15% dos recursos.
O festival de irregularidades não é
novidade no currículo da Ágora. Há dois meses,
VEJA publicou reportagem mostrando que a ONG apresentara 54 notas
frias para justificar gastos da ordem de 900.000
reais entre 1999 e 2001. O caso das notas frias, junto com o convênio
do Primeiro Emprego, deveria ter sido objeto de sindicância
do governo. A sindicância foi instalada. Seu relatório
ficou pronto há um mês, mas só foi divulgado
na semana passada, depois que o trabalho do TCU veio a público.
Mas a sindicância é risível. Trabalhou só
um mês, teve negada a prorrogação de prazo,
não logrou acesso à metade dos documentos que desejava
e, sem tempo, nem investigou as notas frias. Com sindicâncias
assim, irregularidades só serão descobertas se forem
divulgadas em panfletagens na Esplanada dos Ministérios.
E olhe lá.
|