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Diplomacia
Uma cena triste
Lula desfila em carro aberto ao lado
de ditador africano acusado de roubar
vários milhões de dólares de seu país

Leandra Peres
Alan Marques/Folha Imagem
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| Lula e Bongo, pelas ruas de Libreville, em
passeio de vinte minutos: 3 000 pessoas |
A oposição do Gabão
a parcela que sobrevive ao torniquete da ditadura, que fique bem
claro deve estar rogando praga contra o democrata Luiz Inácio
Lula da Silva neste momento. Na semana passada, o presidente Lula,
ao realizar seu terceiro passeio pela África, visitou a moderna
Libreville, capital do Gabão, e desfilou em carro aberto,
um imponente Rolls-Royce cor prata, ao lado do presidente Omar Bongo.
O passeio durou em torno de vinte minutos, foi aplaudido por cerca
de 3.000 pessoas e não será
olvidado por ninguém nem pela oposição
no Gabão, cuja exigência por democracia ficará
esplendidamente abafada; nem pelo governo do Gabão, que não
cansará de gabar-se de ter atraído às suas
gabarras um símbolo da resistência democrática;
e, por fim, nem pelos próprios brasileiros, parte dos quais
torcerá para que o desvio terceiro-mundista da diplomacia
brasileira não volte a submeter o presidente ao constrangimento
de desfilar em carro aberto ao lado de um ditador acusado de surrupiar
milhões de dólares de seu país.
Omar Bongo, 68 anos, subiu ao poder com a
morte do titular, em novembro de 1967 e nunca mais desceu.
É freqüentador das listas de suspeitos de grandes roubalheiras.
Seu nome, naturalmente, sempre apareceu nas suspeitas por acidente.
Num caso, o Senado dos Estados Unidos fazia uma investigação
sobre lavagem de dinheiro e, ao examinar os registros do Citibank,
encontrou três contas bancárias em nome do presidente
do Gabão, com a garbosa movimentação de 130
milhões de dólares. Em outro, a Justiça da
França apurava um escândalo que envolveu a Elf, então
estatal francesa do petróleo, e descobriu que um dos diretores
pagava uma propina anual a Bongo para que a empresa tivesse privilégios
na exploração do produto no Gabão. A gabela
totalizou quase 17 milhões de dólares. Desde 1991,
a oposição gabonesa tem liberdade política,
mas é tratada a gadanhadas. A Anistia Internacional informa
que recentemente cinco oposicionistas passaram mais de um mês
atrás das grades sob acusação de insultar Omar
Bongo.
Com sua inclinação terceiro-mundista,
seu empenho em animar as chamadas relações Sul-Sul,
a diplomacia brasileira resolveu mostrar-se generosa para com os
irmãos africanos recebendo, em troca, apoio à
velha pretensão brasileira de obter uma cadeira permanente
no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Em São Tomé e Príncipe, um par de ilhas na
África central, o presidente Lula doou 650.000
dólares para que o governo retome os pagamentos do programa
Bolsa-Escola e fez a distribuição gratuita de medicamentos
a portadores do vírus da aids. Em Cabo Verde, Lula assinou
um acordo para aumentar o número de vôos entre o Brasil
e a Ilha do Sal, encravada no meio do Oceano Atlântico, de
onde grupos de sacoleiros costumam voar todas as semanas até
o Brasil em busca de mercadorias vendáveis em seu país
de origem. No Gabão, o presidente Lula resolveu perdoar a
dívida do país com o Brasil, calculada em 36 milhões
de dólares.
Além da retórica segundo a qual
o Brasil tem uma dívida histórica com a África
negra por causa da escravidão, e uma eterna dívida
de gratidão pela rica herança cultural, não
se sabe exatamente o que a diplomacia brasileira pretende ao dar
prioridade às nações africanas. "O aprofundamento
de nossas relações com a África, além
de um dever moral, é uma necessidade estratégica",
disse Lula num jantar de gala no Gabão. "São muitos
os campos em que podemos estabelecer parcerias, no melhor espírito
da cooperação Sul-Sul." É, de novo, retórica.
Claro que não será com o auxílio da África
que o Itamaraty chegará perto do seu desiderato de mudar
a geografia comercial do mundo. Considerando que o Brasil tem parcela
inferior a 1% do comércio mundial e que, somada, a riqueza
dos três países visitados por Lula na semana passada
não chega a 8 bilhões de dólares o equivalente
ao PIB boliviano , as chances de que a aliança gabono-brasileira
mude algo são pura gabolice.
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