Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Diplomacia
Uma cena triste

Lula desfila em carro aberto ao lado
de ditador africano acusado de roubar
vários milhões de dólares de seu país


Leandra Peres


Alan Marques/Folha Imagem
Lula e Bongo, pelas ruas de Libreville, em passeio de vinte minutos: 3 000 pessoas

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A oposição do Gabão – a parcela que sobrevive ao torniquete da ditadura, que fique bem claro – deve estar rogando praga contra o democrata Luiz Inácio Lula da Silva neste momento. Na semana passada, o presidente Lula, ao realizar seu terceiro passeio pela África, visitou a moderna Libreville, capital do Gabão, e desfilou em carro aberto, um imponente Rolls-Royce cor prata, ao lado do presidente Omar Bongo. O passeio durou em torno de vinte minutos, foi aplaudido por cerca de 3.000 pessoas e não será olvidado por ninguém – nem pela oposição no Gabão, cuja exigência por democracia ficará esplendidamente abafada; nem pelo governo do Gabão, que não cansará de gabar-se de ter atraído às suas gabarras um símbolo da resistência democrática; e, por fim, nem pelos próprios brasileiros, parte dos quais torcerá para que o desvio terceiro-mundista da diplomacia brasileira não volte a submeter o presidente ao constrangimento de desfilar em carro aberto ao lado de um ditador acusado de surrupiar milhões de dólares de seu país.

Omar Bongo, 68 anos, subiu ao poder com a morte do titular, em novembro de 1967 – e nunca mais desceu. É freqüentador das listas de suspeitos de grandes roubalheiras. Seu nome, naturalmente, sempre apareceu nas suspeitas por acidente. Num caso, o Senado dos Estados Unidos fazia uma investigação sobre lavagem de dinheiro e, ao examinar os registros do Citibank, encontrou três contas bancárias em nome do presidente do Gabão, com a garbosa movimentação de 130 milhões de dólares. Em outro, a Justiça da França apurava um escândalo que envolveu a Elf, então estatal francesa do petróleo, e descobriu que um dos diretores pagava uma propina anual a Bongo para que a empresa tivesse privilégios na exploração do produto no Gabão. A gabela totalizou quase 17 milhões de dólares. Desde 1991, a oposição gabonesa tem liberdade política, mas é tratada a gadanhadas. A Anistia Internacional informa que recentemente cinco oposicionistas passaram mais de um mês atrás das grades sob acusação de insultar Omar Bongo.

Com sua inclinação terceiro-mundista, seu empenho em animar as chamadas relações Sul-Sul, a diplomacia brasileira resolveu mostrar-se generosa para com os irmãos africanos – recebendo, em troca, apoio à velha pretensão brasileira de obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em São Tomé e Príncipe, um par de ilhas na África central, o presidente Lula doou 650.000 dólares para que o governo retome os pagamentos do programa Bolsa-Escola e fez a distribuição gratuita de medicamentos a portadores do vírus da aids. Em Cabo Verde, Lula assinou um acordo para aumentar o número de vôos entre o Brasil e a Ilha do Sal, encravada no meio do Oceano Atlântico, de onde grupos de sacoleiros costumam voar todas as semanas até o Brasil em busca de mercadorias vendáveis em seu país de origem. No Gabão, o presidente Lula resolveu perdoar a dívida do país com o Brasil, calculada em 36 milhões de dólares.

Além da retórica segundo a qual o Brasil tem uma dívida histórica com a África negra por causa da escravidão, e uma eterna dívida de gratidão pela rica herança cultural, não se sabe exatamente o que a diplomacia brasileira pretende ao dar prioridade às nações africanas. "O aprofundamento de nossas relações com a África, além de um dever moral, é uma necessidade estratégica", disse Lula num jantar de gala no Gabão. "São muitos os campos em que podemos estabelecer parcerias, no melhor espírito da cooperação Sul-Sul." É, de novo, retórica. Claro que não será com o auxílio da África que o Itamaraty chegará perto do seu desiderato de mudar a geografia comercial do mundo. Considerando que o Brasil tem parcela inferior a 1% do comércio mundial e que, somada, a riqueza dos três países visitados por Lula na semana passada não chega a 8 bilhões de dólares – o equivalente ao PIB boliviano –, as chances de que a aliança gabono-brasileira mude algo são pura gabolice.

 
 
 
 
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