Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Reforma agrária
Radicalzinho X Radicalzão

Líder do MLST, movimento concorrente
do MST, flerta com o governo do PT e
ameaça o monopólio de Stedile, o chefão
dos sem-terra


Monica Weinberg


Tasso Marcelo/AE
João Pedro Stedile, o furibundo, não toma Coca-Cola: a bebida é "coisa do imperialismo"

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Em Profundidade: Reforma Agrária

Histórico aliado do PT, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) nunca esteve tão afastado do partido – nem em tão acintoso pé de guerra com o governo. Há duas semanas, partidários do movimento invadiram a sede do diretório municipal do PT em Itabuna, na Bahia. Pouco depois do episódio, seu líder, o gaúcho João Pedro Stedile – que recentemente já havia chamado Antonio Palocci de "panaca" e defendido a demissão do ministro da Fazenda "por telefone" –, surgiu, irônico, dizendo que já apelou "até a Deus para que ilumine o presidente Lula" e o faça mudar a condução da política econômica. A invasão da sede do PT, assim como os recentes vitupérios de Stedile, não são fruto apenas do notório pendor do gaúcho e de seu movimento para confrontos de qualquer natureza, mas conseqüência de uma mudança na composição de forças que constituem o cenário da reforma agrária no Brasil. O MST, o maior e o mais visível movimento de sem-terra do país, pela primeira vez enfrenta concorrência. Segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário, já são 71 as entidades que, à semelhança da organização, agitam a bandeira da reforma no campo. "O MST radicaliza para permanecer na crista da onda. É uma velha estratégia de movimentos de esquerda", diz o filósofo Denis Rosenfield, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Entre as organizações que disputam espaço com o movimento liderado por Stedile, uma, praticamente homônima, faz o caminho inverso ao de sua inspiradora. O Movimento de Libertação dos Sem-Terra, ou MLST, nascido ainda mais intransigente do que o MST e liderado pelo pernambucano Bruno Maranhão, agora tem se empenhado em aproximar-se do governo – que, por sua vez, enxerga nele um conveniente aliado. Como resultado da confluência de desejos, Maranhão e alguns companheiros seus foram recebidos no mês passado por Lula, numa audiência que durou duas horas e meia e terminou com uma profusão de elogios públicos e mútuos. Há, entre os líderes do MST e os do MLST, uma diferença que Maranhão gosta de resumir na seguinte frase: "Sou um radical flexível, e não radicalóide". Pelo menos no modo de levar a vida, ele tem razão. Ao contrário de Stedile, que, dizem amigos, até hoje se recusa a tomar Coca-Cola, "símbolo do imperialismo americano", Maranhão, 64 anos, não só não tem nada contra o refrigerante como mandou os filhos estudar nos Estados Unidos, na época em que eram adolescentes. Ele também fala francês (morou por dez anos em Paris) e é apreciador de bons vinhos. Enquanto o líder do MST veio de uma família de agricultores, Maranhão é filho de usineiro e o único dos cinco irmãos que não virou empresário. Formado engenheiro mecânico pela Universidade Federal de Pernambuco, ele embarcou na guerrilha urbana na década de 60. Exilou-se na França e, beneficiado pela Lei da Anistia, voltou em 1979 ao Brasil, onde ajudou a fundar o PT.


Chico Porto/JC/AE
Assentados do MLST durante manifestação no Recife: ataque ao agronegócio

Na prática, o projeto que MST e MLST gostariam de ver implantado no Brasil pouco difere. Ambos promovem invasões de terra com base nos critérios que bem entendem, sonham em erguer no Brasil uma sociedade socialista, acreditam que a agricultura familiar é a salvação da lavoura e idolatram os exemplos de Che Guevara e Mao Tsé-tung, temas de leitura que Maranhão intercala com ficção científica. A distinção entre os dois movimentos está na embalagem. Na audiência com Lula em Brasília, o líder do MLST vendeu o seu projeto utilizando termos que deixariam Stedile de foice e martelo em riste. "Presidente, este é o nosso produto", disse. E exibiu as diretrizes daquilo que intitula "agronegócio popular" – projeto em que as cooperativas de assentados não viveriam apenas da agricultura, mas também da exportação de produtos industrializados produzidos a partir da matéria-prima local. "Queremos agregar valor à nossa atividade", diz. As cooperativas de Maranhão teriam ainda outros diferenciais, alguns inusitados, como explica o líder do MLST: "Planejamos ter faculdades e cinemas nos assentamentos. Seria uma forma de manter o jovem no campo", acredita. Segundo Maranhão, Lula ficou "entusiasmado" com a idéia.

Na comparação com a gigantesca estrutura do MST, o MLST é ainda nanico. O que chama atenção é o seu ritmo de crescimento. Em 1997, quando surgiu, representava 5.000 famílias assentadas em seis Estados. Hoje está à frente de 35.000 famílias em nove Estados e já faz costuras para, no próximo ano, alastrar os seus domínios por mais cinco. Para isso, oferece ao menos duas vantagens em relação ao MST: segundo Maranhão, o MLST não cobra o "pedágio", contribuição em dinheiro pedida aos assentados por alguns movimentos, e tem uma estrutura hierárquica e disciplinar menos rígida. Nos acampamentos do MST, de comando altamente centralizado, são comuns expulsões de assentados, por motivos como "indisciplina" e "insubordinação".

Se, em tamanho, o grupo de Maranhão ainda come a poeira do MST, no quesito estratégia conseguiu colocar-se à frente do concorrente ao se apropriar da bandeira da luta contra o agronegócio – substituto do antigo vilão dos sem-terra, o praticamente extinto latifúndio improdutivo. Segundo levantamento feito com base em dados do IBGE pelo professor Francisco Graziano, ex-presidente do Incra e uma das maiores autoridades no assunto, apenas 2% das terras próprias para a atividade agrícola não estão sendo utilizadas. Os latifúndios que sobraram localizam-se principalmente na região amazônica ou em áreas impróprias para o cultivo. Tanto é assim que, há dois meses, foi editada uma medida provisória cujo objetivo é facilitar as operações de compra de terra por parte do governo. Com isso, o Planalto pretende cumprir as suas ambiciosas metas para a reforma agrária.

Stedile, o radical enfurecido, já se declarou contrário ao agronegócio pelo fato de ele trazer "dólar e pobreza", mas foi Maranhão, o "radical flexível", quem elegeu a atividade a nova "inimiga número 1" dos sem-terra. Para o líder do MLST, o agronegócio é "sinônimo de atraso", já que, por causa de sua estrutura, "concentra renda e gera desemprego". Nenhum dos dois anda consultando os números antes de falar. O último dado de crescimento do PIB divulgado pelo IBGE mostra que a agropecuária foi, entre todos os setores da economia nacional, aquele que melhor desempenho obteve: cresceu 3,3% no primeiro trimestre. Além disso, estudos mostram que 38% da riqueza do país gira em torno do agronegócio, se contabilizadas as atividades econômicas que brotam direta ou indiretamente do campo. É esse setor que os sem-terra, estranhamente, gostariam de ver sepultado.

 



Montagem sobre fotos Gilvan Barreto/Ag. Lumiar e Liane Neves
 
 
 
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