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Reforma
agrária
Radicalzinho X Radicalzão
Líder do MLST, movimento concorrente
do MST, flerta com o governo do PT e
ameaça o monopólio de Stedile, o chefão
dos sem-terra

Monica Weinberg
Tasso Marcelo/AE
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| João Pedro Stedile, o furibundo, não
toma Coca-Cola: a bebida é "coisa do imperialismo"
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Histórico aliado do PT, o Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) nunca esteve tão
afastado do partido nem em tão acintoso pé
de guerra com o governo. Há duas semanas, partidários
do movimento invadiram a sede do diretório municipal do PT
em Itabuna, na Bahia. Pouco depois do episódio, seu líder,
o gaúcho João Pedro Stedile que recentemente
já havia chamado Antonio Palocci de "panaca" e defendido
a demissão do ministro da Fazenda "por telefone" ,
surgiu, irônico, dizendo que já apelou "até
a Deus para que ilumine o presidente Lula" e o faça mudar
a condução da política econômica. A invasão
da sede do PT, assim como os recentes vitupérios de Stedile,
não são fruto apenas do notório pendor do gaúcho
e de seu movimento para confrontos de qualquer natureza, mas conseqüência
de uma mudança na composição de forças
que constituem o cenário da reforma agrária no Brasil.
O MST, o maior e o mais visível movimento de sem-terra do
país, pela primeira vez enfrenta concorrência. Segundo
levantamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário,
já são 71 as entidades que, à semelhança
da organização, agitam a bandeira da reforma no campo.
"O MST radicaliza para permanecer na crista da onda. É uma
velha estratégia de movimentos de esquerda", diz o filósofo
Denis Rosenfield, professor da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul.
Entre as organizações que disputam
espaço com o movimento liderado por Stedile, uma, praticamente
homônima, faz o caminho inverso ao de sua inspiradora. O Movimento
de Libertação dos Sem-Terra, ou MLST, nascido ainda
mais intransigente do que o MST e liderado pelo pernambucano Bruno
Maranhão, agora tem se empenhado em aproximar-se do governo
que, por sua vez, enxerga nele um conveniente aliado. Como
resultado da confluência de desejos, Maranhão e alguns
companheiros seus foram recebidos no mês passado por Lula,
numa audiência que durou duas horas e meia e terminou com
uma profusão de elogios públicos e mútuos.
Há, entre os líderes do MST e os do MLST, uma diferença
que Maranhão gosta de resumir na seguinte frase: "Sou um
radical flexível, e não radicalóide". Pelo
menos no modo de levar a vida, ele tem razão. Ao contrário
de Stedile, que, dizem amigos, até hoje se recusa a tomar
Coca-Cola, "símbolo do imperialismo americano", Maranhão,
64 anos, não só não tem nada contra o refrigerante
como mandou os filhos estudar nos Estados Unidos, na época
em que eram adolescentes. Ele também fala francês (morou
por dez anos em Paris) e é apreciador de bons vinhos. Enquanto
o líder do MST veio de uma família de agricultores,
Maranhão é filho de usineiro e o único dos
cinco irmãos que não virou empresário. Formado
engenheiro mecânico pela Universidade Federal de Pernambuco,
ele embarcou na guerrilha urbana na década de 60. Exilou-se
na França e, beneficiado pela Lei da Anistia, voltou em 1979
ao Brasil, onde ajudou a fundar o PT.
Chico Porto/JC/AE
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| Assentados do MLST durante manifestação
no Recife: ataque ao agronegócio |
Na prática, o projeto que MST e MLST
gostariam de ver implantado no Brasil pouco difere. Ambos promovem
invasões de terra com base nos critérios que bem entendem,
sonham em erguer no Brasil uma sociedade socialista, acreditam que
a agricultura familiar é a salvação da lavoura
e idolatram os exemplos de Che Guevara e Mao Tsé-tung, temas
de leitura que Maranhão intercala com ficção
científica. A distinção entre os dois movimentos
está na embalagem. Na audiência com Lula em Brasília,
o líder do MLST vendeu o seu projeto utilizando termos que
deixariam Stedile de foice e martelo em riste. "Presidente, este
é o nosso produto", disse. E exibiu as diretrizes daquilo
que intitula "agronegócio popular" projeto em que
as cooperativas de assentados não viveriam apenas da agricultura,
mas também da exportação de produtos industrializados
produzidos a partir da matéria-prima local. "Queremos agregar
valor à nossa atividade", diz. As cooperativas de Maranhão
teriam ainda outros diferenciais, alguns inusitados, como explica
o líder do MLST: "Planejamos ter faculdades e cinemas nos
assentamentos. Seria uma forma de manter o jovem no campo", acredita.
Segundo Maranhão, Lula ficou "entusiasmado" com a idéia.
Na comparação com a gigantesca
estrutura do MST, o MLST é ainda nanico. O que chama atenção
é o seu ritmo de crescimento. Em 1997, quando surgiu, representava
5.000 famílias assentadas em seis
Estados. Hoje está à frente de 35.000
famílias em nove Estados e já faz costuras para, no
próximo ano, alastrar os seus domínios por mais cinco.
Para isso, oferece ao menos duas vantagens em relação
ao MST: segundo Maranhão, o MLST não cobra o "pedágio",
contribuição em dinheiro pedida aos assentados por
alguns movimentos, e tem uma estrutura hierárquica e disciplinar
menos rígida. Nos acampamentos do MST, de comando altamente
centralizado, são comuns expulsões de assentados,
por motivos como "indisciplina" e "insubordinação".
Se, em tamanho, o grupo de Maranhão
ainda come a poeira do MST, no quesito estratégia conseguiu
colocar-se à frente do concorrente ao se apropriar da bandeira
da luta contra o agronegócio substituto do antigo
vilão dos sem-terra, o praticamente extinto latifúndio
improdutivo. Segundo levantamento feito com base em dados do IBGE
pelo professor Francisco Graziano, ex-presidente do Incra e uma
das maiores autoridades no assunto, apenas 2% das terras próprias
para a atividade agrícola não estão sendo utilizadas.
Os latifúndios que sobraram localizam-se principalmente na
região amazônica ou em áreas impróprias
para o cultivo. Tanto é assim que, há dois meses,
foi editada uma medida provisória cujo objetivo é
facilitar as operações de compra de terra por parte
do governo. Com isso, o Planalto pretende cumprir as suas ambiciosas
metas para a reforma agrária.
Stedile, o radical enfurecido, já se
declarou contrário ao agronegócio pelo fato de ele
trazer "dólar e pobreza", mas foi Maranhão, o "radical
flexível", quem elegeu a atividade a nova "inimiga número
1" dos sem-terra. Para o líder do MLST, o agronegócio
é "sinônimo de atraso", já que, por causa de
sua estrutura, "concentra renda e gera desemprego". Nenhum dos dois
anda consultando os números antes de falar. O último
dado de crescimento do PIB divulgado pelo IBGE mostra que a agropecuária
foi, entre todos os setores da economia nacional, aquele que melhor
desempenho obteve: cresceu 3,3% no primeiro trimestre. Além
disso, estudos mostram que 38% da riqueza do país gira em
torno do agronegócio, se contabilizadas as atividades econômicas
que brotam direta ou indiretamente do campo. É esse setor
que os sem-terra, estranhamente, gostariam de ver sepultado.
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