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Governo
Meirelles na mira
Na semana passada, o presidente do Banco
Central teve de explicar seu patrimônio. Agora,
novos documentos lançam dúvidas sobre como
sua fortuna é administrada

Marcelo Carneiro
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Ana Araujo
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A EMPRESA
Meirelles e o contrato da Catenária: o presidente
do BC não informou à Comissão de Ética
Pública do governo federal a criação da
firma, que ocorreu após sua indicação ao
cargo |
Henrique Meirelles, presidente do Banco Central,
passou a última semana dando explicações sobre
uma denúncia publicada pela revista IstoÉ segundo
a qual ele teria contas a acertar com o Fisco. O presidente do Banco
Central foi acusado de ter apresentado declarações
de renda conflitantes à Receita e à Justiça
Eleitoral. Atingido por acusações de má conduta
fiscal, Luiz Augusto Candiota, diretor de política monetária
do BC, pediu demissão. Foi outra enorme contrariedade para
Meirelles, para quem a saída de Candiota deu combustível
a um escândalo natimorto. Na semana passada, VEJA teve acesso
a uma série de documentos cuja vinda à luz pode suscitar
novos questionamentos sobre como a fortuna pessoal do presidente
do BC é administrada.
Entre a papelada estão procurações
de Meirelles para o engenheiro Marco Túlio Pereira de Campos.
Primo de Meirelles, Campos foi detido, em maio deste ano, no Aeroporto
de Congonhas, em São Paulo, quando embarcava para Brasília.
Ao passar sua bagagem pela esteira de raios X, o engenheiro foi
detido e levado para uma sala da Polícia Federal. Os agentes
queriam saber por que o primo de Meirelles tinha, na bagagem, 32.000
reais em dinheiro vivo. Campos identificou-se como parente do presidente
do Banco Central e disse que o dinheiro era fruto de uma transação
imobiliária realizada em São Paulo envolvendo um dos
bens de seu primo. O engenheiro carregava em uma pasta procurações
de Henrique Meirelles que lhe davam poderes para representá-lo
junto a instituições municipais e estaduais de Goiás
e a dois órgãos da União: Receita Federal e
Procuradoria da Fazenda Nacional. Ainda havia dois contratos societários
e uma escritura de compra de uma chácara na cidade de Anápolis,
em Goiás, feita por Henrique Meirelles da empresa Silvania
Empreendimentos e Participações Limitada. Marco Túlio
Campos que, em 2002, ajudou na coordenação
da vitoriosa campanha de Meirelles a deputado federal é
um homem de confiança do presidente do BC. A Silvania Empreendimentos
tem como procurador o próprio Campos. E quem são os
donos da Silvania? De acordo com o contrato social, a empresa pertence
a outras duas firmas, nomeadas Silvania One e Silvania Two, com
sede em Wilmington, cidade no Estado de Delaware, nos Estados Unidos.
E a quem pertence a dupla de Silvanias? Ao próprio Henrique
Meirelles.
Reuters
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SEM SAÍDA
Candiota e Meirelles: acuado por denúncias, o
diretor de política monetária do BC pediu demissão
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Tecnicamente, a operação feita
por Meirelles foi a seguinte: como pessoa física, comprou
um bem que já lhe pertencia, na qualidade de pessoa jurídica,
através da Silvania Empreendimentos. Um técnico da
Receita ouvido por VEJA diz que, em tese, não há nenhum
ilícito fiscal na transação, mas que operações
desse tipo servem, geralmente, para tornar visível aos olhos
do Fisco um bem que, até então, estava oculto. No
jargão dos auditores, existe a possibilidade teórica
de que a transação tenha sido feita para "esquentar"
o patrimônio. Meirelles explica que a compra da chácara
foi feita em 2002 e lançada, no mesmo ano, em seu imposto
de renda a escritura de compra e venda, porém, só
foi lavrada em março deste ano, quando já ocupava
o cargo no Banco Central. VEJA perguntou ao presidente do BC se
as empresas Silvania Two e Silvania One tinham sido declaradas à
Receita. Meirelles explicou que elas pertencem a duas outras holdings
que administram praticamente todo o seu patrimônio no Brasil
e no exterior, avaliado em cerca de 100 milhões de reais.
São essas holdings que aparecem em seu imposto de renda.
Os documentos encontrados pela PF com o primo
de Meirelles mostram que ele já estava no comando da política
monetária brasileira, em outubro do ano passado, quando criou
a empresa Catenária Administração de Bens e
Participações. A sócia de Meirelles na empresa,
com 0,01% do capital social, é Diva Silva de Campos, sua
mãe. O artigo 5º, parágrafo I, alínea
B, do Código de Conduta da Alta Administração
Federal diz que as autoridades que exercem cargo público
devem comunicar à Comissão de Ética Pública
do governo federal qualquer alteração relevante em
seu patrimônio, especialmente quando se tratar de "aquisição
direta ou indireta do controle de empresa". O presidente do BC não
cumpriu essa regra, mas diz que fez uma consulta à procuradoria
jurídica do banco, que não se opôs a sua participação
societária.
Henrique Meirelles é um homem rico,
elegeu-se deputado federal por Goiás e construiu seu patrimônio
em trinta anos de trabalho no mercado financeiro, boa parte deles
morando nos Estados Unidos. Suas operações financeiras,
feitas com ajuda de holdings no exterior, aparentemente em nada
diferem do que fazem pessoas físicas e jurídicas que
conhecem os mecanismos não muito sagrados para minimizar
a pesada carga de impostos que incide sobre seu patrimônio
e negócios no Brasil. Ocorre que desde sua posse no Banco
Central Meirelles implicitamente aceitou ser medido por regras muito
mais rígidas. O que pode ser um procedimento levemente reprovável
para uma pessoa sem cargo público torna-se algo bem mais
sério quando seu autor é o presidente do Banco Central.
"Não acredito que uma pessoa na posição do
Meirelles tenha se prevalecido de expedientes escusos e, muito menos,
ilegais. Mas, quando se está no governo e particularmente
no Banco Central, é preciso entender que determinados tipos
de operação não podem ser feitos", diz um ex-diretor
do BC.
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DINHEIRO VIVO
Marco Túlio Campos, primo de Meirelles, recebeu
dele diversas procurações. O primo foi detido
pela PF com 32 000 reais em cédulas |
Meirelles disse a VEJA estar estarrecido com
o fato de ser alvo de denúncias justamente no momento em
que a economia começa a decolar. Ele as atribui a interesses
contrariados por ele no comando do BC nada a ver com a taxa
de juros, porém. Disse Meirelles: "Deveria agora estar comemorando
o fato de ter ocorrido na economia brasileira tudo de bom que eu
garanti que ocorreria quando entrei para o BC. Disseram que eu produziria
uma recessão no país, e eu ajudei a promover o crescimento
econômico, a retomada do emprego e o controle da inflação".
Ninguém, em sã consciência, discute os méritos
profissionais de Henrique Meirelles à frente do BC. Eles,
no entanto, não o eximem de dar explicações
sobre questões como as suscitadas pela detenção
de seu primo no Aeroporto de Congonhas. Uma das mais embaraçosas
delas é como justificar que um sócio e homem de confiança
do presidente do BC possa andar com tanto dinheiro em espécie
ainda mais quando se alega que o dinheiro lhe foi dado como
parte do pagamento de um imóvel. Não se transacionam
imóveis com dinheiro vivo, a não ser quando se quer
esconder do Fisco o valor real da transação. Tanto
Meirelles quanto um de seus antecessores ouvidos por VEJA concordam
que um presidente do BC não pode, pela liturgia do cargo,
contaminar suas aparições públicas com explicações
sobre sua conduta pessoal. Esse é agora o grande problema
de Henrique Meirelles.
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