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Em
foco: Gustavo Franco
O nacional-
empreendedorismo
"Parece pairar sobre o jovem empreendedor
uma névoa de
desconfiança, como se ganhar
dinheiro criando empresas fosse 'privatizar'
indevidamente o progresso"
Nacional-desenvolvimentismo foi como ficou
conhecido o sistema de crenças que apoiava o modelo de crescimento
econômico adotado no Brasil a partir dos anos 30. Suas bases
objetivas eram o financiamento do investimento público através
da inflação e a busca da autarquia pela substituição
de importações. Suas bases subjetivas foram construídas
em torno do mito do Estado Redentor, o único Demiurgo do
Desenvolvimento, o Leviatã que conduziria o país na
senda do progresso superando quaisquer obstáculos.
Ale Setti
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No meio século que vai da crise de 1929 até o início
dos anos 80, a participação do Estado na economia
cresceu muito, e a inflação também. Mas o crescimento
foi tão espetacular quanto a ampliação da desigualdade,
sendo esse o preço a pagar pelo rápido progresso,
e também a chave para entender o colapso do modelo. A democracia
fez crescer a resistência à inflação
e decretou, quando da hiperinflação, a rejeição
definitiva do velho desenvolvimentismo.
Não existe, nos dias de hoje, dúvida
sobre o fato de que será o setor privado o demiurgo do próximo
ciclo de crescimento, ou do próximo "modelo", se é
que a expressão vale para o que virá. O Estado já
cobra impostos demais e, endividado, mal consegue pagar suas contas.
Como imaginar que vá ter papel muito relevante na próxima
etapa do crescimento brasileiro?
O fato é que a tecnologia para fazer
o setor privado investir é absolutamente diversa daquela
que servia para o investimento público. A iniciativa não
é do político, a partir de "planos de desenvolvimento",
mas da figura do empreendedor, milhares e milhares deles, pequenos,
médios e grandes, agindo de forma descentralizada, obedecendo
a seus instintos e aos sinais do mercado. Esses agentes do progresso
carecem de uma ideologia que os defina como tal, uma espécie
de "nacional-empreendedorismo" que ocupe o espaço ainda habitado,
ou invadido, pela velha ideologia desenvolvimentista.
Já são perceptíveis no
mundo empresarial alguns novos valores estranhos aos modos de pensar
do tempo de JK ou do general Geisel: por um lado, o desprezo pelo
setor público, ou a postura de distanciar-se o mais possível
desse gigante predador, que pode destruir o seu negócio num
momento de distração, mudando um regulamento sem atinar
para as conseqüências. Por outro lado, a meritocracia
como paradigma, a excelência empresarial, a busca da produtividade,
a falta de piedade com a concorrência, a ousadia e a criatividade.
Foi necessário que a abertura, a privatização
e os investimentos diretos invadissem o Brasil para que o setor
privado, ou as melhores partes dele, adotasse essa nova cultura
de competência e competitividade, à moda de outros
países que se sentem à vontade como economias de mercado,
transição ainda incompleta no Brasil. Já com
relação ao governo, as reformas não andaram
nem de perto com a mesma rapidez, o que apenas fez aumentar o descompasso
entre um novo empreendedorismo que cresce por sua própria
conta e um Estado falido, decadente e ainda iludido com o seu gigantismo,
como se isso representasse efetiva capacidade de conduzir os destinos
econômicos do país.
Quem sai da faculdade hoje com uma boa idéia
na cabeça e pensando em tornar-se um empreendedor, formar
sua empresa e fazer fortuna pode começar a se desiludir ouvindo
conselhos já clássicos: no Brasil o caminho mais seguro
para uma vida sem sobressaltos sempre foi um emprego público,
ou talvez um bom casamento. Outro, mais arriscado, é um empreendimento
apoiado pelo governo. Mas, como essas prebendas não existem
mais em quantidade suficiente, o nosso jovem empreendedor, ao insistir
nessa vocação, terá de enfrentar um ambiente
hostil, impostos e juros elevados, competidores na informalidade
e falta de apoio até no plano subjetivo: que valor se dá
ao empreendedor no Brasil? Ele é a chave do progresso, mas
parece pairar sobre ele, por causa de velhas concepções,
uma névoa de desconfiança, como se ganhar dinheiro
criando empresas fosse "privatizar" indevidamente o progresso, função
supostamente precípua do Estado.
Gustavo Franco é economista
da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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