Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Auto-retrato
James Turley


Selmy Yassuda
James Turley, 48 anos, preside desde 2001 a Ernst & Young, uma das quatro maiores firmas de auditoria do mundo. Desde então, já visitou quase todos os 130 escritórios que a empresa mantém nos cinco continentes. Turley, que recentemente esteve no Brasil, falou ao repórter Marcelo Carneiro sobre os escândalos financeiros que abalaram a confiança nas grandes companhias e nas empresas de auditoria.


OS ESCÂNDALOS ENVOLVENDO EMPRESAS COMO ENRON E WORLDCOM TAMBÉM CONTAMINARAM A IMAGEM DAS AUDITORIAS QUE ATESTARAM OS BALANÇOS DESSAS COMPANHIAS. COMO FOI ESTAR NO MEIO DO FURACÃO?
A perda de confiança do mercado, a partir desses escândalos, teve vários culpados: empresas, executivos, conselhos de administração e firmas de auditoria. No caso do nosso mercado, as maiores críticas referem-se ao fato de nós não termos detectado antes o comportamento dessas empresas, e não as termos feito parar a tempo. Precisamos, de fato, rever nossos próprios padrões. Eu me pergunto se podemos realmente assegurar que estamos fazendo tudo para detectar fraudes.

MAS DE QUE ADIANTA ISSO SE ALGUMAS EMPRESAS DE AUDITORIA NÃO SÓ DEIXARAM DE ENXERGAR O QUE HAVIA DE ERRADO NA CONTABILIDADE DESSAS EMPRESAS COMO AJUDARAM A OCULTAR ESSAS PRÁTICAS?
Eu não sei o que aconteceu em casos graves, como o da Arthur Andersen (que avalizou os balanços contábeis fraudados da Enron, gigante do setor de energia), mas posso lhe dizer que é algo impensável ver um auditor ajudando uma empresa a fazer algo errado. Nós, por exemplo, temos mais de 100 000 empregados e, infelizmente, não podemos responder por todos o tempo todo. Constantemente fazemos auditorias internas para detectar ilegalidades.

O SENHOR JÁ RECEBEU ALGUMA PROPOSTA PARA MAQUIAR UM BALANÇO?
É claro que, no curso de uma auditoria, você pode encontrar um cliente tentando uma coisa errada. Nesses casos, deve-se pressionar para trazer a empresa de volta ao caminho correto. Se isso não ocorrer, você tem de renunciar ao trabalho. Por essa razão, nós já abrimos mão de auditorias em centenas de empresas ao redor do mundo, que representariam milhões de dólares em receita para a Ernst & Young.

QUAL A PRINCIPAL RAZÃO PARA A OCORRÊNCIA DE PRÁTICAS CONDENÁVEIS?
A perda de liderança por parte dos executivos das grandes empresas. Durante os anos 90, vários executivos pensaram que seu principal papel era o de animador de auditório, em vez de explicar a seus empregados o que se deve e o que não se deve fazer. Os executivos que se envolveram nos maiores escândalos agiam como imperadores, mas não conheciam a cultura e os valores das próprias empresas. É por isso que eu passo dois terços da minha vida viajando ao redor do mundo. Você não pode liderar uma organização sem conversar face a face com seus funcionários e seus clientes. É algo que não se pode fazer por telefone ou e-mail.

OS EXECUTIVOS APRENDERAM A LIÇÃO?
O presidente de uma das maiores companhias do mundo, responsável pela área de finanças, disse-me que, no passado, tinha de lidar com uma série de idéias malucas criadas pelo seu pessoal para tornar mais atraente o balanço da empresa. Eles adiantavam receitas que ainda não haviam entrado no caixa ou demoravam para incluir, no balanço, despesas que já deveriam ter sido lançadas. Isso teve de acabar. Hoje, as melhores empresas reaprenderam a ganhar dinheiro da maneira tradicional: vendendo seus produtos, recolhendo impostos e emitindo nota fiscal. No caso das empresas de auditoria, hoje me sinto mais próximo dos anos 70, quando comecei na carreira de auditor. Nessa época, integridade, qualidade e objetividade, os principais compromissos da minha profissão, eram mais enraizadas.

 
 
 
 
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