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Auto-retrato
James Turley
Selmy Yassuda
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| James Turley, 48 anos, preside desde 2001
a Ernst & Young, uma das quatro maiores firmas de auditoria
do mundo. Desde então, já visitou quase todos
os 130 escritórios que a empresa mantém nos cinco
continentes. Turley, que recentemente esteve no Brasil, falou
ao repórter Marcelo Carneiro sobre os escândalos
financeiros que abalaram a confiança nas grandes companhias
e nas empresas de auditoria. |
OS ESCÂNDALOS ENVOLVENDO EMPRESAS COMO ENRON E WORLDCOM TAMBÉM
CONTAMINARAM A IMAGEM DAS AUDITORIAS QUE ATESTARAM OS BALANÇOS
DESSAS COMPANHIAS. COMO FOI ESTAR NO MEIO DO FURACÃO?
A perda de confiança do mercado,
a partir desses escândalos, teve vários culpados: empresas,
executivos, conselhos de administração e firmas de
auditoria. No caso do nosso mercado, as maiores críticas
referem-se ao fato de nós não termos detectado antes
o comportamento dessas empresas, e não as termos feito parar
a tempo. Precisamos, de fato, rever nossos próprios padrões.
Eu me pergunto se podemos realmente assegurar que estamos fazendo
tudo para detectar fraudes.
MAS DE QUE ADIANTA ISSO SE ALGUMAS EMPRESAS
DE AUDITORIA NÃO SÓ DEIXARAM DE ENXERGAR O QUE HAVIA
DE ERRADO NA CONTABILIDADE DESSAS EMPRESAS COMO AJUDARAM A OCULTAR
ESSAS PRÁTICAS?
Eu não sei o que aconteceu em casos graves, como o da
Arthur Andersen (que avalizou os balanços contábeis
fraudados da Enron, gigante do setor de energia), mas posso
lhe dizer que é algo impensável ver um auditor ajudando
uma empresa a fazer algo errado. Nós, por exemplo, temos
mais de 100 000 empregados e, infelizmente, não podemos responder
por todos o tempo todo. Constantemente fazemos auditorias internas
para detectar ilegalidades.
O SENHOR JÁ RECEBEU ALGUMA PROPOSTA
PARA MAQUIAR UM BALANÇO?
É claro que, no curso de uma auditoria, você pode
encontrar um cliente tentando uma coisa errada. Nesses casos, deve-se
pressionar para trazer a empresa de volta ao caminho correto. Se
isso não ocorrer, você tem de renunciar ao trabalho.
Por essa razão, nós já abrimos mão de
auditorias em centenas de empresas ao redor do mundo, que representariam
milhões de dólares em receita para a Ernst & Young.
QUAL A PRINCIPAL RAZÃO PARA A OCORRÊNCIA
DE PRÁTICAS CONDENÁVEIS?
A perda de liderança por parte dos executivos das grandes
empresas. Durante os anos 90, vários executivos pensaram
que seu principal papel era o de animador de auditório, em
vez de explicar a seus empregados o que se deve e o que não
se deve fazer. Os executivos que se envolveram nos maiores escândalos
agiam como imperadores, mas não conheciam a cultura e os
valores das próprias empresas. É por isso que eu passo
dois terços da minha vida viajando ao redor do mundo. Você
não pode liderar uma organização sem conversar
face a face com seus funcionários e seus clientes. É
algo que não se pode fazer por telefone ou e-mail.
OS EXECUTIVOS APRENDERAM A LIÇÃO?
O presidente de uma das maiores companhias do mundo, responsável
pela área de finanças, disse-me que, no passado, tinha
de lidar com uma série de idéias malucas criadas pelo
seu pessoal para tornar mais atraente o balanço da empresa.
Eles adiantavam receitas que ainda não haviam entrado no
caixa ou demoravam para incluir, no balanço, despesas que
já deveriam ter sido lançadas. Isso teve de acabar.
Hoje, as melhores empresas reaprenderam a ganhar dinheiro da maneira
tradicional: vendendo seus produtos, recolhendo impostos e emitindo
nota fiscal. No caso das empresas de auditoria, hoje me sinto mais
próximo dos anos 70, quando comecei na carreira de auditor.
Nessa época, integridade, qualidade e objetividade, os principais
compromissos da minha profissão, eram mais enraizadas.
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