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André
Petry
Da vida e da morte
"Entre os usuários de drogas acham-se
muitos brancos, filhos da classe média,
mas entre a malta de narcotraficantes é
mais comum encontrar pardos saídos da favela"
Em breve, o Brasil será o país
onde consumir drogas é uma inocente contravenção,
mas traficá-las pode dar pena de morte. É essa visão
que o governo quer instituir por meio de duas leis que foram
propostas em separado, são discutidas em separado e parecem
não ter nada a ver uma com a outra, mas, analisadas em conjunto,
produzem uma abordagem radicalmente extrema para cada lado da mesma
moeda. A Lei Nacional Antidrogas, já aprovada pela Câmara
dos Deputados e em tramitação no Senado, não
descriminaliza o uso de drogas, mas dá ao usuário
o direito de optar por cumprir uma pena de serviço comunitário
(e não mais de prisão) ou submeter-se a um tratamento
para abandonar as drogas. É uma proposta madura, saudável,
que conjuga realismo com humanismo. No segundo caso, trata-se da
chamada Lei do Abate, que autoriza os militares a derrubarem qualquer
aeronave que, estando com drogas e não tendo crianças
a bordo, se recusar a atender a ordens de aterrissar. É uma
lei da pior cepa, em que suspeitos, sem julgamento nem direito à
defesa, ficam sujeitos à pena de morte.
Curiosamente, há militares na defesa
de uma lei e de outra. O general Jorge Armando Félix, ministro
do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência
da República, defende a descriminalização dos
usuários e acha que mandá-los à prisão
é um convite a diplomá-los no crime. "Infelizmente,
nossas prisões são verdadeiras fábricas de
criminosos", diz o general. A Lei do Abate é defendida pelos
militares em geral e, mantendo-se as coisas tal como estão,
a autorização para disparar o tiro fatal contra um
avião será do tenente-brigadeiro-do-ar Luiz Carlos
da Silva Bueno, comandante da Aeronáutica. "Se for preciso
abater aeronaves, tomarei essa decisão com tranqüilidade",
já disse o brigadeiro.
Por que somos tão liberais e generosos
com os usuários de drogas e, simultaneamente, tão
severos e implacáveis com os traficantes? Por coerência,
seria mais adequado que, cada caso dentro de seu contexto e segundo
sua proporção, fôssemos generosos com usuários
e traficantes ou então fôssemos implacáveis
com os dois. Por que a diferença de tratamento? Por que um
merece a compreensão da sociedade e a chance de recuperar-se,
a chance de voltar a ensolarar sua vida, enquanto ao outro se oferecem
apenas a escuridão e o tacão ameaçador da execução
sumária? A resposta fácil é dizer que consumir
drogas é inteiramente diferente de traficá-las
uma distinção sobre a qual, na realidade, não
paira nenhuma dúvida. Ocorre que, mesmo sendo ilícitos
distintos, de gravidade diferente, ambos deveriam merecer o mesmo
tratamento, não em intensidade, mas em natureza.
A explicação para um tratamento
tão diferente está na explicação de
sempre, de um país tão profundamente desigual que
nem percebe quando pratica e reforça a desigualdade. Pelo
diapasão da desigualdade, faz todo o sentido aplicar a diferença.
Afinal, entre os usuários de drogas acham-se muitos brancos,
filhos da classe média, mas entre a malta de narcotraficantes
é mais comum encontrar pardos saídos da favela. É
excelente a idéia de tratar com respeito e generosidade os
usuários de drogas. Melhor ainda é a idéia
do respeito a todos, inclusive aos traficantes. Afinal, quem quer
democracia e igualdade de verdade e todo mundo diz que quer
precisa arcar com o ônus da coerência. Do contrário,
é farsa.
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