Que
seria dos autores de fábulas sem recursos como o que dá mote a As
Crônicas de Nárnia Príncipe Caspian(The
Chronicles of Narnia: Prince Caspian, Estados Unidos/Inglaterra, 2008)? No
primeiro filme da série baseada nos livros do irlandês C.S. Lewis,
os quatro irmãos Pevensie iam parar na terra encantada do título,
da qual descobriam ser os soberanos. Nesta continuação, desde sexta-feira
em cartaz no país, os Pevensie, depois de cumprirem um longo reinado, estão
de volta a seu tempo e lugar originais a Inglaterra da II Guerra. Para
eles, apenas um ano se passou; mas, em Nárnia, para onde são reconvocados
por um chamado mágico, algo como 1.000 anos transcorreram. Seu antigo reino
está em ruínas, e seus habitantes foram quase todos dizimados pelo
reino vizinho de Telmar. Aí, também, algo vai mal: um nobre usurpou
o trono do herdeiro legítimo, o príncipe Caspian, e não vai
descansar até tê-lo assassinado. Caspian é quem chama os irmãos
de volta: sem o seu amparo e a influência que eles podem exercer sobre os
narnianos remanescentes, ele não tem chance sequer de sobreviver, quanto
mais de destronar o ganancioso rei Miraz (o italiano Sergio Castellitto, em grande
forma). O truque da discrepância temporal um ano numa dimensão,
dez séculos em outra faz parte do feijão-com-arroz dos autores
de fantasia, e não se pode acusá-lo de originalidade. Mas aqui ele
se presta a pelo menos uma vantagem: da mesma forma que os protagonistas, obrigados
a olhar de frente os escombros de seu passado glorioso, também o enredo
e o estilo cresceram.
A
exemplo de Harry Potter, o calcanhar-de-aquiles de Nárnia
está no seu elenco principal, que vai crescendo sem manifestar grande talento.
Ben Barnes, que interpreta Caspian, é uma presença agradável,
embora prejudicada pelas falas genéricas e pelo cabelo com jeito de quem
acabou de fazer escova. Mas trata-se de pormenores: agora, a intriga pelo poder
é sombria, Telmar e Nárnia têm uma questão de vida
ou morte a decidir, e as batalhas são consideravelmente mais violentas
(embora livres de sangue). Para o público infantil, responsável
pela bilheteria estrondosa do primeiro episódio, esta seqüência
parecerá um bocado mais assustadora. Mas também bem mais compensadora.
Com sorte, Nárnia há de seguir Harry Potter também
em outro caminho, o do amadurecimento criativo e, quem sabe, chegar ao
terceiro filme surpreendendo não só pela boa vontade, mas pela originalidade.