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Edição 2063

4 de junho de 2008
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Sandra Corveloni acaba de ganhar o mundo: com
apenas um filme, ela passou de atriz conhecida
só do público de teatro a vencedora em Cannes


Isabela Boscov

Lailson Santos

A Cleuza de Linha de Passe, em São Paulo: agitação demais para caber em um laboratório


No domingo 25, o auditório de Cannes sofreu um daqueles choques que o júri do festival é mestre em propiciar: contra todas as apostas, que davam Angelina Jolie como uma das favoritas por Changeling, de Clint Eastwood, o prêmio de melhor atriz foi para uma paulista de nome familiar apenas para alguns freqüentadores de teatro. Sandra Corveloni, de 43 anos, recebeu oito dos nove votos do júri presidido pelo ator e diretor Sean Penn. Nem Walter Salles e Daniela Thomas, autores de Linha de Passe e cineastas com tarimba em competições, tinham a menor idéia de que sua protagonista estava para valer no páreo – que dirá a própria Sandra, que faz sua estréia em cinema no papel da diarista Cleuza, mãe de quatro filhos e grávida do quinto, que tem de equilibrar as exigências do trabalho, da falta de dinheiro, das aspirações dos meninos e da torcida apaixonada pelo Corinthians. O prêmio foi entregue a Salles e a Daniela, que agradeceu à sua intérprete em português: a vencedora estava em casa, em São Paulo, com o filho Orlando, de 6 anos. Num desses momentos em que situações dificílimas confluem com grandes alegrias, ela não pôde embarcar para a Riviera Francesa porque, dias antes da data prevista para a viagem, passou mal e perdeu um bebê aos cinco meses de gestação – único assunto que, em sua conversa com VEJA, abateu seu ânimo fervilhante.

Sandra chegou à vitória em Cannes pelo caminho mais breve que se pode percorrer, mas desembocou na profissão de atriz por meio de um trajeto longo e repleto de desvios curiosos. Filha de um agricultor e uma costureira que se mudaram para São Paulo quando ela tinha 5 anos, Sandra demorou para perceber que seu jeito expansivo e sua disposição para entrar em toda e qualquer atividade extra que a escola oferecesse, de corais a pecinhas, eram sintomas de que o palco seria o lugar certo para ela. Demorou não é maneira de dizer: ela estagiou na área têxtil do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, cursou engenharia química e trabalhou na indústria de tecidos antes de concluir que a agitação enorme que sua figura miudinha contém não cabia num laboratório. Pediu as contas, foi fazer um curso de teatro no Tuca, o teatro da Universidade Católica de São Paulo, e nunca mais mudou de idéia. Profissional desde o início dos anos 90, ela é uma das integrantes mais ativas do Grupo Tapa, no qual, além de atuar, dirige e dá aulas.

Selecionada para Linha de Passe (que tem estréia prevista para o segundo semestre) por meio de testes, Sandra diz ter estranhado apenas a mudança de registro: tudo o que, no palco, tem de ser amplificado, a câmera pede que se reduza. "Às vezes eu dava alguma sugestão para a Fátima Toledo, que preparou o elenco, e ouvia um ‘Está louca?’. Mas, outras vezes, eles topavam a minha idéia", conta sobre a experiência de, sendo veterana, ver-se outra vez na condição de iniciante. "Só uma pessoa vinda do teatro independente, na contramão da cultura da celebridade, poderia ter-se entregue dessa forma a Cleuza", diz Salles. Pois Sandra acaba de sair da contramão: com a vitória em Cannes, ela agora está em pleno fluxo.



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