Duas brasileiras de nome Alma e Almut;
um crítico literário holandês chamado Erik
Zondag; uma clínica na Áustria, uma favela brasileira,
os confins da Austrália; e alguns versos do poema Paraíso
Perdido, de John Milton (1608-1674). Com esses pontos de referência
heterogêneos, a novela Paraíso Perdido (tradução
de Cristiano Zwiesele do Amaral; Companhia das Letras; 158 páginas;
32 reais), de Cees Nooteboom escritor holandês celebrado
por colegas como o Nobel sul-africano J.M. Coetzee e já
conhecido no Brasil por obras como A Seguinte História:
, faz uma breve, fragmentária e sugestiva especulação
literária sobre a falta de rumo da vida contemporânea.
São dois pontos de vista narrativos que se cruzam por força
do que podemos chamar de "estética da coincidência",
essa moldura que a arte encontrou para dar liga a coisas que não
têm relação entre si. Num deles, a brasileira
Alma narra sua amizade com Almut e sua viagem à Austrália,
depois de, pagando o pedágio de ser uma personagem brasileira,
sofrer um estupro numa favela em São Paulo. No outro, o
crítico Erik, em fase de rever a vida, vai a uma clínica
na Áustria recuperar-se do alcoolismo e dos males da meia-idade,
o que a narração descreve com leveza e graça.
As
brasileiras são personagens convincentes (apesar dos
nomes incomuns entre nós), o que pode surpreender um
leitor daqui, habituado aos chavões exóticos com
que nos retratam. Mas o sonho que implicitamente acalentam e
que vão buscar na Austrália tem raiz num secreto
imaginário europeu, há séculos desejando
um paraíso que só pode existir fora do tempo e
da história, em alguma pureza primordial acessível
apenas na essência da natureza ou em culturas pré-urbanas.
Os célebres aborígines da Austrália são
exemplares prediletos desse mito, o do "selvagem nobre".
O tema do paraíso é, assim, o ponto de contato
de todos os elementos dispersos do livro. Ele ressurge como
o sonho laico de uma cultura que parece ter esgotado o poço
de sua transcendência. As andanças de Erik e os
projetos de Alma e Almut são os cacos de uma tentativa
de devolver alguma dimensão mítica à vida.
Se a vida não
oferece sentido, temos de fabricá-lo a todo custo, mesmo
que se resuma a um teatro. O crítico Erik também
vai à Austrália, e por acaso acaba participando
de uma "festa dos anjos" na cidade de Perth
dezenas de atores fantasiados de anjos passam dias escondidos
em vários pontos da cidade. Seguindo um roteiro, um curioso
grupo de "turistas metafísicos" deve encontrá-los.
Um desses anjos é Alma, por quem Erik se apaixona platonicamente.
Perdidos num happening de anjos e homens à beira-mar,
só voltarão a se ver três anos depois, fechando
o livro. As reflexões de Erik no seu diálogo final
num trem em Berlim retomam a idéia da busca frustrada
do paraíso. Paraíso Perdido, na sua colcha
de retalhos, revela-se uma sensível reflexão poética
contemporânea, temperada pela melancolia e pelo humor.
Nuvem de violência
"Não conduzia
ela própria: deixava-se conduzir pelo carro. A
ignição falha. (...) O que veio depois se
deu tão vertiginosamente que não houve tempo
para entrar em pânico, gritar ou fugir. Ela não
saberia mais dizer quantos eles eram e, mais ainda que
da própria idéia do passeio, recriminava-se
do enojante pensamento poético com que falsificaria
posteriormente o acontecido a fim de se autopreservar:
tratara-se de algo com uma nuvem negra. Uma nuvem negra
deslocando-se na direção dela. Ecoaram risos
quando lhe arrancaram a roupa do corpo. Desses risos ela
jamais se esqueceria."