É essa a desvantagem
do Brasil em relação aos países da OCDE
num ponto crucial: o número de professores especializados
em suas áreas. Concursos recentes expõem o problema
Camila Pereira
Fotos
Chris Rchard/New York Times e Alex Silva/AE
Aula nos Estados Unidos (à
esq.) e professores no Brasil: eles estimulam o mérito
nós, não
Poucos fatores influenciam
tanto o desempenho de um aluno em sala de aula quanto o nível
de seu professor. Por essa razão, é especialmente
preocupante o que mostra um levantamento recente feito com base
no desempenho de 260 000 professores em concursos públicos
de quatro das maiores redes de ensino do país
Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo:
73% deles foram reprovados em testes básicos das áreas
em que pretendiam lecionar, entre elas matemática, português
e física. Quase todos já dão aula em escolas
públicas ou particulares. Boa parte dos 27% restantes,
esses aprovados, passou raspando. O resultado não é
exatamente uma surpresa. Há pelo menos três décadas
o padrão dos candidatos vem caindo e não é
raro que nem todas as vagas sejam preenchidas no fim de um concurso
desse tipo, como acontece mais uma vez agora. O que chama atenção
no caso atual é o número recorde de notas vermelhas.
O pior exemplo vem de Pernambuco. No exame para recrutar professores
de matemática, apenas 0,8% dos candidatos conseguiu responder
a questões elementares de geometria e álgebra
34 dos 4 352 candidatos que se inscreveram. Essa e as
demais provas foram submetidas por VEJA a especialistas, que
chegaram a uma conclusão nada otimista. Resume o professor
de matemática João Meyer, da Universidade Estadual
de Campinas: "Quem não passa numa prova dessas não
sabe o mínimo necessário para entrar na sala de
aula". Mas a maioria entra.
Leo
Caldas/Titular
O casal Alessandra e Juranildo:
como 73% dos professores, eles fracassaram num concurso
O desastre revelado pelo novo levantamento é reflexo
de dois problemas já antigos no Brasil. O primeiro diz
respeito à qualidade dos cursos superiores de formação
de professores, dos quais apenas 1% atinge a nota máxima
na avaliação oficial. Salvo raras exceções,
eles despejam nas escolas gente sem o domínio básico
das matérias que vai lecionar. Outra questão,
igualmente preocupante, se deve ao fato de a carreira de professor
não conseguir mais atrair os bons alunos. Uma pesquisa
conduzida pela consultoria McKinsey deu os números. Ela
mostra que em países de mau ensino os aspirantes a professor
pertenciam, na escola, ao grupo dos 30% com as piores notas
um contraste em relação aos países
que aparecem no topo dos rankings, onde os 10% melhores estudantes
escolhem lecionar.
O típico brasileiro
que opta por ser professor de escola se enquadra justamente
no primeiro caso, conforme reforçam dados de uma pesquisa
da Unesco. Ele vem de família em que os pais não
chegaram ao fim do ensino fundamental, estudou em colégio
público e procura, antes de tudo, um vestibular mais
fácil e um curso mais barato. Também está
motivado pela possibilidade de uma carreira estável no
setor público. Há ainda um segundo tipo, que entra
numa faculdade de matemática ou física sonhando
tornar-se cientista, mas, na ausência de uma perspectiva
concreta, termina na licenciatura. É gente como a pernambucana
Alessandra Primo, de 28 anos. Professora de química do
estado, ela foi reprovada no mês passado ao tentar um
novo concurso: "Meu sonho era ser engenheira química,
e não professora". Está longe de ser a única.
"No Brasil, muitas pessoas acabam na carreira de professor
por falta de opção melhor", diz a especialista
Maria Inês Fini.
Otavio
Dias de Oliveira
O matemático Nunes tirou
nota 2 na prova: ele já dá aula em cinco escolas
estaduais
Não surpreende o fato de o número de professores
especializados nas áreas em que lecionam estar muito
aquém do necessário. Segundo o Ministério
da Educação, apenas 48% dos professores brasileiros
têm formação específica para a disciplina
que ensinam. Na física, o número é pior
ainda: só 11% se especializaram antes de entrar na sala
de aula. A situação brasileira soa absurda nos
países em que a educação traz bons resultados
e a carreira de professor figura entre as de maior prestígio,
caso da Coréia do Sul e da Finlândia. Para atraírem
os melhores, esses países não apenas estabeleceram
um bom piso salarial como, sobretudo, conseguiram criar um ambiente
em que os professores têm o talento reconhecido e estimulado.
Lá, os piores ficam de fora da sala de aula e
precisam enfrentar uma acirrada concorrência caso queiram
mesmo lecionar. Eles sabem que conseguir uma vaga lhes custa
esforço. No Brasil, ao contrário, mesmo aqueles
que tiram notas baixas têm espaço na escola. O
matemático Emerson Nunes, de 31 anos, é um deles
e resume o pensamento geral: "Diante do que o estado oferece
ao professor, somos cobrados demais nos concursos. Eu me sinto
perfeitamente apto a ensinar". Nunes tirou 2 (numa escala
de zero a 10) no último concurso para professores de
matemática em São Paulo. Ele dá aula hoje
em cinco escolas estaduais, em regime de contrato temporário.
Não é um cenário exatamente favorável
para que os estudantes brasileiros melhorem e o ensino
no país avance.