O líder
estudantil diz que a Venezuela precisa de menos
ideologia e mais pragmatismo para voltar a ser uma democracia
Camila Pereira
Germán Roig
"O debate ideológico
tira o foco
da questão central: neste momento, quem se opõe
a Chávez está lutando pela liberdade"
Apesar da pouca idade
apenas 23 anos , o estudante de direito Yon Goicoechea
é hoje um dos principais líderes de oposição
ao governo do presidente Hugo Chávez na Venezuela. Sua
atuação à frente do movimento estudantil
foi considerada pelos observadores decisiva para a derrota de
Chávez no referendo que lhe teria conferido mais poder
e limitado ainda mais a liberdade dos venezuelanos. Por sua
luta em prol da democracia, Goicoechea recebeu, no mês
passado, um prêmio de 500 000 dólares do instituto
americano Cato, sediado em Washington. Ameaçado de seqüestro
e até de morte pelos chavistas, ele passou a tomar algumas
medidas de segurança em seu dia-a-dia. Não sai
mais à rua sozinho e troca o número do celular
a cada quinze dias, para evitar ser grampeado. Ainda assim,
vive com medo de ser vítima de um ato violento por parte
do governo. Na entrevista que concedeu a VEJA, Goicoechea se
revela uma voz destoante no movimento estudantil: critica o
fato de tais movimentos receberem dinheiro do governo, tal qual
no Brasil, e é contra invasões de reitoria
como forma de protesto.
Veja Você
acaba de ganhar um prêmio nos Estados Unidos por lutar
pela liberdade em seu país. Qual foi a reação
do governo? Goicoechea O Ministério da Comunicação usou a
televisão estatal para difundir a tese de que, ao conceder
o prêmio a um opositor do regime, os Estados Unidos estariam
fazendo uma nova tentativa de desestabilizar os governos na
América Latina. Uma baboseira ideológica que choca,
antes de tudo, pelo anacronismo.
Veja
Qual é sua opinião sobre esse antiamericanismo? Goicoechea
É inaceitável o fato de a filosofia antiamericanista
ainda ter espaço num momento em que os países
estão cada vez mais próximos uns dos outros. Enquanto
eles se abrem e claramente se beneficiam disso, a Venezuela
está isolada do mundo. Também não dá
para entender de onde vem tanto ódio contra um modelo
que, afinal, deu certo. Fiz palestras em Harvard e Georgetown,
ambas nos Estados Unidos, e vi de perto como funcionam algumas
das melhores universidades do mundo. Devemos é aprender
com os americanos, em vez de repudiá-los. Repare que
há muito pouco de objetivo nas críticas feitas
por Chávez aos Estados Unidos são pura
retórica. Adoraria ver os venezuelanos vivendo tão
bem quanto os americanos.
Veja Você
costuma ser criticado por outros estudantes ao defender tais
idéias? Goicoechea Sim, o tempo todo. Essas críticas vêm de uma
minoria de estudantes que ainda apóia Chávez.
Estão motivados, basicamente, por um discurso ideológico
de esquerda. Segundo esses estudantes, eu seria um típico
representante da direita. Com uma discussão tão
ultrapassada, eles deixam de prestar atenção na
questão central: quem se opõe ao governo Chávez
está lutando pela possibilidade de qualquer venezuelano
defender o que bem entenda e acreditar nisso sem que seja punido,
como é comum hoje. Para superar um cenário tão
atrasado, é preciso pragmatismo e a insistência
no debate ideológico só atrapalha.
Veja Líderes
estudantis brasileiros, sobretudo aqueles ligadas à União
Nacional dos Estudantes (UNE), já declararam apoio incondicional
ao presidente Hugo Chávez. Eles também estão
sendo mais ideológicos do que pragmáticos? Goicoechea Sem dúvida. Acho indefensável que haja no
movimento estudantil brasileiro líderes que saiam em
defesa das práticas autoritárias do governo venezuelano.
Prefiro acreditar que eles fizeram isso por um profundo desconhecimento
das reformas propostas por Chávez. Se estivessem mais
bem informados, esses estudantes brasileiros não teriam
tomado uma posição que vai de encontro à
diversidade de opiniões e às liberdades individuais.
Como ser a favor de reformas que tirariam das pessoas direitos
tão básicos, como o de escolher seus governantes
e até o de optar pela profissão que desejam seguir?
Não faz nenhum sentido que estudantes tenham simpatia
por tais idéias.
Veja Você
chegou a receber alguma manifestação de apoio
de movimentos estudantis brasileiros? Goicoechea Nenhuma. Mas teria sido de grande ajuda. A pressão
internacional contra Chávez pode exercer um papel fundamental
para que a Venezuela se torne, de novo, uma democracia. Infelizmente,
alguns líderes estudantis na América Latina, assim
como o meio acadêmico de modo geral, estão paralisados
pelo discurso ideológico. Perdem tempo discutindo Karl
Marx e idéias superadas ao longo dos séculos,
quando poderiam estar lutando por questões mais práticas
e relevantes. Esse debate velho não faz mais sentido
em nenhum lugar do mundo muito menos na Venezuela, onde
falta um artigo de primeira necessidade: a liberdade de expressão.
Veja No
Brasil, os estudantes costumam invadir reitorias como forma
de protesto. Você concorda? Goicoechea Não. Numa democracia como a brasileira, há
instituições suficientemente sólidas para
resolver os impasses, e é preciso recorrer a elas. A
ordem e o respeito à lei não são princípios
apenas desejáveis, mas absolutamente necessários
nas sociedades modernas. Até mesmo num governo autoritário
como o da Venezuela, em que as instituições são
menos transparentes e inoperantes, acho que manifestações
tão extremas a ponto de ser ilegais devem funcionar apenas
como último recurso.
Veja Que
tipo de represália você sofreu por parte do governo
quando começou a liderar movimentos antichavistas? Goicoechea Foram tantas que perdi a conta. Recebi telefonemas em casa
com ameaças de seqüestro e até de morte.
Isso se estendeu à minha família. Também
já apanhei no meio da rua. No ano passado, durante uma
assembléia para discutir as reformas propostas por Chávez,
alguns estudantes que apoiavam o governo me agrediram. O que
era para ser um debate como qualquer outro se tornou uma demonstração
de intolerância. Acabei no hospital com um olho roxo e
o nariz machucado. Em outra ocasião, colocaram um explosivo
no palco em que eu discursava. Eles fazem isso para me assustar,
e às vezes conseguem. Não dá para não
ter medo de morrer numa situação como a atual.
Meus familiares vivem apavorados com a idéia de que algo
pior possa acontecer comigo. Por mais de uma vez, minha mãe
via televisão quando foi surpreendida com cenas em que
eu era alvo de agressões em plena luz do dia.
Veja Em
geral, quem são os agressores? Goicoechea Pessoas ligadas a alguns dos grupos radicais de apoio a
Chávez. Eles praticam a violação dos direitos
humanos na Venezuela sem nenhuma espécie de pudor. Minha
situação piora com a propaganda negativa que o
governo faz contra mim em jornais, rádios e na televisão.
Já me chamaram de tudo: de fascista, inimigo da pátria,
colaborador da ultradireita e até de títere do
império americano. Em meu país, sou tratado pelo
governo como um péssimo exemplo.
Veja Como
você se protege? Goicoechea Jamais fico sozinho em lugares públicos. Troco o
número do meu celular a cada quinze dias e não
tenho mais telefone fixo, para evitar ser grampeado. Em momentos
mais tensos, como nas semanas que antecederam a votação
do referendo de Chávez, deixei de dormir em casa. A cada
noite, pedia asilo a um amigo diferente. Viver assim não
é exatamente bom, mas sei que não exagero ao tomar
medidas em prol da minha segurança.
Veja Você
pensa em deixar a Venezuela e morar em outro país? Goicoechea Não. Depois da II Guerra, meu avô fugiu do
caos em que estava a Espanha para tentar uma vida melhor na
Venezuela. Com o passar dos anos, a Espanha se tornou próspera
e meu avô sofreu muito com o fato de não ter estado
lá para ver essas mudanças e participar delas.
Guardadas as devidas diferenças históricas, a
Venezuela é hoje, também, uma espécie de
terra arrasada. Posso soar idealista, mas não quero jamais
sentir a mesma frustração de meu avô, ainda
que toda essa repressão me atinja tão diretamente.
Veja O
governo interfere nas universidades da Venezuela? Goicoechea Ele tenta o tempo todo. Algumas universidades já
são diretamente controladas pelo governo. Nelas, todos
os reitores e diretores são pró-Chávez
e chegaram lá por indicação política.
É o caso da Universidade Bolivariana, uma invenção
do próprio Chávez, e da Unefa, comandada pelas
Forças Armadas. Essas instituições sofrem
pressão do governo. Alunos e professores têm medo
de emitir opiniões que possam ser mal interpretadas pelas
autoridades e resultem em expulsões, demissões
e outras represálias. Fazer oposição a
Chávez numa dessas universidades é algo impensável.
Felizmente, elas ainda são a minoria na Venezuela. Mas
o número pode aumentar.
Veja Por
que você diz isso? Goicoechea
O governo lançou recentemente uma proposta inacreditável.
Chávez quer que o processo de seleção nas
universidades passe a ser comandado pelo Ministério da
Educação. Na prática, isso significa que
só os estudantes alinhados com o governo teriam acesso
à educação superior. Não acredito
que os chavistas consigam emplacar esse projeto. De todo modo,
é assustador. O governo também tentou implantar
uma cartilha própria nas escolas, mas fracassou.
Veja Como
era exatamente essa cartilha? Goicoechea
Profundamente ideologizada e xenófoba. O objetivo declarado
da cartilha era formar "o novo homem socialista",
nas palavras do próprio Chávez. Ela incentivava
as crianças a entoar canções a Simon Bolívar,
o herói da independência nacional, e a odiar os
colonizadores europeus. Também apagava alguns capítulos
da história desfavoráveis a Hugo Chávez
e alimentava a admiração aos movimentos que resultaram
em ditaduras comunistas, como os da Coréia do Norte e
de Cuba. Um absurdo atrás do outro. Mas essa Chávez
não conseguiu levar adiante.
Veja Você
conhece muita gente que vive com medo do governo na Venezuela? Goicoechea Isso é muito comum. No serviço público,
por exemplo, é preciso dar a toda hora manifestações
explícitas de apoio ao governo para manter o emprego.
Isso acontece de diversas maneiras. Conheço pessoas que
já foram várias vezes forçadas a participar
de atos públicos em favor de Chávez. Nessas ocasiões,
elas sabem que, caso não compareçam, acabarão
demitidas. Vão, portanto, porque precisam do trabalho.
Essa é uma forma de coerção brutal. Quem
recebe benefícios sociais do governo sofre algo parecido.
O pré-requisito básico para ter acesso a qualquer
um deles é o mesmo: apoiar incondicionalmente Hugo Chávez.
Hoje, quem faz oposição ao governo na Venezuela
paga um preço alto por isso.
Veja De
onde vem o dinheiro para manter o movimento estudantil que você
comanda? Goicoechea Da contribuição mensal dos estudantes e de
empresas do setor privado. Elas dão dinheiro por meio
de uma fundação mantida pelo próprio movimento
estudantil. Do governo, evidentemente, não vem nem um
centavo. É claro que isso tem uma relação
direta com o fato de o movimento ser de oposição
a Chávez. Mas, mesmo que o governo quisesse nos ajudar
financeiramente, eu seria absolutamente contra.
Veja Por
quê? Goicoechea Não acho apropriado para um movimento estudantil
manter uma relação tão estreita com o governo.
Por definição, uma organização dessa
natureza precisa ser independente. Do contrário, dificilmente
fará um trabalho sério. Às vezes, os estudantes
precisam se colocar contra o governo, como acontece hoje na
Venezuela. Com uma relação financeira estabelecida
entre as duas partes, a isenção fica naturalmente
comprometida.
Veja No
Brasil, uma parte do orçamento da UNE vem do governo...
Goicoechea Para mim, está claro que esse é um modelo
fadado ao fracasso. Se fosse estudante no Brasil, faria uma
reflexão sobre isso.
Veja Você
está pessimista em relação à situação
na Venezuela? Goicoechea É preciso fazer um esforço diário para
renovar o otimismo. Enxergo, no entanto, alguns sinais positivos
no horizonte. Estudantes que antes não se manifestavam
têm me procurado dizendo que, diante de tanto obscurantismo,
resolveram protestar ativamente. Isso fortalece o movimento.
Outro dado bom diz respeito ao surgimento de lideranças
no governo dispostas a respeitar as leis e a dialogar com a
oposição. É, pelo menos, um começo.
Veja O
que você vai fazer com o prêmio de 500 000 dólares
que acaba de receber? Goicoechea Investir numa escola em Caracas para capacitar líderes.
A idéia é ajudar a formar uma juventude com a
mentalidade mais aberta e, antes de tudo, voltada para temas
minimamente relevantes. É o contrário do que se
passa na Venezuela e em tantos outros países da América
Latina todos com uma forte inclinação para
assuntos já sepultados pela própria história.
Fico angustiado ao ver como questões tão ultrapassadas
e ideológicas impedem as pessoas, ainda hoje, de aspirar
a uma sociedade mais moderna.