A primeira capa de VEJA sobre
inflação é de 1972 (à esq.),
a última, de 2002: de olho no monstro
Em seus 40 anos, a
ser completados em setembro, VEJA manteve sempre um olhar vigilante
sobre uma silenciosa praga destruidora de riqueza chamada inflação.
Ilustrada por uma cédula decalcada em um balão,
a inflação estreou na capa da revista em maio
de 1972, quando o índice oficial, então medido
pela Fundação Getulio Vargas em apenas um estado,
a extinta Guanabara, hoje Rio de Janeiro, apontava 18,1% ao
ano. Sua última aparição na capa da revista
deu-se em dezembro de 2002. Já medida nacionalmente pelo
IBGE e representada por um dragão, a inflação
anual chegara a 10%. Nocauteada em 1994 pelo engenhoso Plano
Real, sua volta levou VEJA a alertar: "Como os gigantes,
que também nascem pequenos, o dragão da inflação,
especialmente o da espécie brasileira, sai do ovo cuspindo
um foguinho brando e com uma carinha inocente. Logo, porém,
ele se transforma num monstro incontrolável". Nos
trinta anos que se passaram entre a reportagem de 1972 e a de
2002, a inflação acumulada no Brasil chegou à
cifra cósmica de 134.000.000.000.000% e foi tema de capa
da revista mais 32 vezes.
Por ter sido detonada
pelo disparo no preço dos alimentos em todo o mundo,
ela ressurge agora no cenário mundial e brasileiro com
o nome de "agrinflação". Uma reportagem
da presente edição de VEJA mostra que a inflação
já reapareceu outras vezes no passado com diferentes
nomes e disfarces. O de agora é se mostrar como uma "inflação
importada", imune, portanto, às armas que realmente
funcionam contra ela: o corte drástico de gastos públicos
ou o aumento dos juros pelo Banco Central ou a combinação
de ambos. Se caírem no conto da "inflação
importada", as autoridades abrirão caminho para
a alta generalizada e constante de preços, com a erosão
do poder de compra da moeda e o conseqüente empobrecimento
geral do país, em especial das pessoas na base da pirâmide
social.
Os brasileiros com
menos de 20 anos conhecem essa praga apenas por ouvir falar
dela. Mas a inflação na economia brasileira foi
o equivalente dos tsunamis, terremotos e erupções
vulcânicas na natureza. Ela destrói riquezas, desorganiza
a vida e espalha desgraças. Por essa razão, é
preciso agora a mesma coragem que o Banco Central demonstrou
em 2003 para impedir que o "foguinho brando" da inflação
se torne um incêndio provocado por um "monstro incontrolável".