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Edição 2063

4 de junho de 2008
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Auto-retrato
Leandrinho Barbosa

Chris Covatta/Getty Images


O armador Leandrinho Barbosa foi, em 2005, o primeiro brasileiro a chegar à final da Conferência Oeste da NBA, a liga profissional americana de basquete. Aos 25 anos, ele renovou seu contrato com o Phoenix Suns: vai receber um total de 32 milhões de dólares até 2012. Leandrinho seria um dos titulares da seleção brasileira de basquete no Pré-Olímpico de julho, última chance de o time obter uma vaga e ir a Pequim. Mas fará uma cirurgia no joelho e não poderá jogar. De férias no Brasil, ele falou à repórter Cíntia Borsato.

COMO FOI SUA ADAPTAÇÃO AO PHOENIX SUNS?
Foi um choque. Quando cheguei aos Estados Unidos, há cinco anos, comprei uma bicicleta por 80 dólares para ir aos treinos. Era o meu meio de locomoção quando treinava no time de Bauru, no interior de São Paulo. Ao chegar pedalando ao treino no primeiro dia, só vi carrões estacionados: Lamborghini, Ferrari, Porsche. "Estacionei" a bicicleta na minha vaga e fui treinar. Quando voltei, ela estava no lixo, e todos os jogadores riam da minha cara. Fiquei muito bravo, não disse uma palavra. No dia seguinte, o Stephon Marbury (colega de time) me entregou a chave de um Cadillac. Eu não falava inglês, mas entendi que era um presente. Não queria aceitar, mas ele saiu correndo. Não sabia o que fazer. Comecei a chorar de emoção.

COMO É O APOIO OFERECIDO AOS JOGADORES?
É só olhar para o estádio. Em Bauru, tinha de comprar até o Gatorade com meu dinheiro. No Phoenix tem sauna, piscina, hidromassagem, máquinas de sorvete, milk-shake, frutas... tudo, é claro, de graça. Não tinha vontade de voltar para o hotel. Dormi várias vezes no vestiário. Quis aproveitar ao máximo aquela sensação de ter realizado um sonho.

DE QUE FORMA ESSA ESTRUTURA EXPLICA A HEGEMONIA AMERICANA NO BASQUETE?
O apoio não existe apenas na NBA, começa no colégio. Crianças e adolescentes têm incentivos para jogar, e os campeonatos são entre escolas – e não entre clubes, como acontece no Brasil. Depois, o atleta concorre a bolsas de estudos nas universidades. Isso é fundamental em qualquer esporte.

COMO FOI SEU COMEÇO NO BASQUETE?
Meu irmão Artur era muito severo. Quando viu que eu tinha jeito para o esporte, montou uma cesta em casa e impôs um treinamento militar. Eu tinha de treinar todos os dias, não podia brincar na rua. Ele me acordava de madrugada para treinar arremesso ou drible. Cheguei a sentir raiva por ele não me deixar fazer outra coisa além de basquete. Hoje, só tenho a agradecer.

ATÉ ONDE VOCÊ IMAGINAVA CHEGAR QUANDO COMEÇOU A JOGAR BASQUETE?
É engraçado, porque nos primeiros contatos com o esporte, aos 5 anos de idade, disse a minha mãe um dia que traria dólares para casa. Até hoje não sei se era coisa de criança ou não, só sei que deu certo.

SUA LESÃO É GRAVE?
Já tive lesões outras vezes. Agora é um pouco mais grave porque pode ser um cisto. Vou fazer a cirurgia. Sei que vou me recuperar. Fico muito triste por causa da seleção, porque não vou poder ajudar no Pré-Olímpico.

VOCÊ RECEBEU MUITAS CRÍTICAS A SEU DESEMPENHO NA PARTIDA CONTRA A ARGENTINA, NA QUAL O BRASIL PERDEU A CHANCE DE SE CLASSIFICAR PARA A OLIMPÍADA. ISSO CONTRIBUIU PARA SUA EXCLUSÃO DO PRÉ-OLÍMPICO?
Não, de forma alguma. Se eu não tivesse de operar agora, certamente jogaria pela seleção. Pelo menos, teria a certeza de que cumpri meu papel e tentei realizar o sonho de conquistar um título pelo Brasil.

ENTÃO VOCÊ AINDA PENSA EM JOGAR PELA SELEÇÃO?
Sim, com certeza. Mas não adianta representar o meu país se não estiver em condições plenas.



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