O
armador Leandrinho Barbosa foi, em 2005, o primeiro brasileiro a chegar à
final da Conferência Oeste da NBA, a liga profissional americana de basquete.
Aos 25 anos, ele renovou seu contrato com o Phoenix Suns: vai receber um total
de 32 milhões de dólares até 2012. Leandrinho seria um dos
titulares da seleção brasileira de basquete no Pré-Olímpico
de julho, última chance de o time obter uma vaga e ir a Pequim. Mas fará
uma cirurgia no joelho e não poderá jogar. De férias no Brasil,
ele falou à repórter Cíntia Borsato.
COMO
FOI SUA ADAPTAÇÃO AO PHOENIX SUNS? Foi um choque. Quando
cheguei aos Estados Unidos, há cinco anos, comprei uma bicicleta por 80
dólares para ir aos treinos. Era o meu meio de locomoção
quando treinava no time de Bauru, no interior de São Paulo. Ao chegar pedalando
ao treino no primeiro dia, só vi carrões estacionados: Lamborghini,
Ferrari, Porsche. "Estacionei" a bicicleta na minha vaga e fui treinar.
Quando voltei, ela estava no lixo, e todos os jogadores riam da minha cara. Fiquei
muito bravo, não disse uma palavra. No dia seguinte, o Stephon Marbury
(colega de time) me entregou a chave de um Cadillac. Eu não falava
inglês, mas entendi que era um presente. Não queria aceitar, mas
ele saiu correndo. Não sabia o que fazer. Comecei a chorar de emoção.
COMO
É O APOIO OFERECIDO AOS JOGADORES? É só olhar para
o estádio. Em Bauru, tinha de comprar até o Gatorade com meu dinheiro.
No Phoenix tem sauna, piscina, hidromassagem, máquinas de sorvete, milk-shake,
frutas... tudo, é claro, de graça. Não tinha vontade de voltar
para o hotel. Dormi várias vezes no vestiário. Quis aproveitar ao
máximo aquela sensação de ter realizado um sonho.
DE
QUE FORMA ESSA ESTRUTURA EXPLICA A HEGEMONIA AMERICANA NO BASQUETE? O
apoio não existe apenas na NBA, começa no colégio. Crianças
e adolescentes têm incentivos para jogar, e os campeonatos são entre
escolas e não entre clubes, como acontece no Brasil. Depois, o atleta
concorre a bolsas de estudos nas universidades. Isso é fundamental em qualquer
esporte.
COMO FOI SEU COMEÇO
NO BASQUETE? Meu irmão Artur era muito severo. Quando viu que eu
tinha jeito para o esporte, montou uma cesta em casa e impôs um treinamento
militar. Eu tinha de treinar todos os dias, não podia brincar na rua. Ele
me acordava de madrugada para treinar arremesso ou drible. Cheguei a sentir raiva
por ele não me deixar fazer outra coisa além de basquete. Hoje,
só tenho a agradecer.
ATÉ ONDE
VOCÊ IMAGINAVA CHEGAR QUANDO COMEÇOU A JOGAR BASQUETE? É engraçado,
porque nos primeiros contatos com o esporte, aos 5 anos de idade, disse a minha
mãe um dia que traria dólares para casa. Até hoje não
sei se era coisa de criança ou não, só sei que deu certo.
SUA
LESÃO É GRAVE? Já tive lesões outras vezes.
Agora é um pouco mais grave porque pode ser um cisto. Vou fazer a cirurgia.
Sei que vou me recuperar. Fico muito triste por causa da seleção,
porque não vou poder ajudar no Pré-Olímpico.
VOCÊ
RECEBEU MUITAS CRÍTICAS A SEU DESEMPENHO NA PARTIDA CONTRA A ARGENTINA, NA QUAL
O BRASIL PERDEU A CHANCE DE SE CLASSIFICAR PARA A OLIMPÍADA. ISSO CONTRIBUIU PARA
SUA EXCLUSÃO DO PRÉ-OLÍMPICO? Não, de forma alguma. Se eu não
tivesse de operar agora, certamente jogaria pela seleção. Pelo menos,
teria a certeza de que cumpri meu papel e tentei realizar o sonho de conquistar
um título pelo Brasil.
ENTÃO
VOCÊ AINDA PENSA EM JOGAR PELA SELEÇÃO? Sim, com certeza. Mas não
adianta representar o meu país se não estiver em condições
plenas.