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Tales
Alvarenga Espelho, espelho meu
"Olha,
presidente Lula, se há um brasileiro que não tira o traseiro
da cadeira para combater os juros altos, ele se
chama, com todo o respeito, Luiz Inácio Lula da Silva"
A frase do presidente Lula mandando a classe média
tirar o traseiro da cadeira para obrigar os bancos a cobrar menos juros não
pode ser confundida com gafe, aquela declaração equivocada que as
pessoas deixam escapar num momento de desatenção. O que Lula afirmou
sobre os juros é ignorância mesmo. Achar que os juros são
altos porque o brasileiro é preguiçoso e acomodado mostra a falta
de familiaridade do presidente com uma cadeia banal de eventos, como a que determina
a taxa de juros. Com sua frase, Lula errou duas vezes. Na primeira, foi grosseiro
com os brasileiros, que sofrem com os juros estratosféricos. Na segunda,
a pior, o presidente demonstrou outra vez que desconhece os rudimentos da economia
de seu país. Por não ter a mínima
idéia do que está falando, Lula sugere uma solução
estapafúrdia para o problema dos juros. Pede que as pessoas se mexam e
dêem um aperto nos bancos. Um ministro chegou a sugerir um "levante" da
população contra os juros altos. O próximo passo desses governantes
despreparados será talvez pedir que os contribuintes boicotem a cobrança
de 36% do PIB em impostos por meio de uma revolta na qual todo e qualquer brasileiro
se tornasse um sonegador de tributos. É
triste, mas é assim que os desafios nacionais são vistos a partir
de Brasília. Não seria de espantar, levando em conta que Lula já
procurou famintos num país que tem pobres obesos, segundo o IBGE, e já
tentou impor cotas para negros na universidade, numa sociedade que tem o mesmo
porcentual de negros na faculdade e na população em geral. Na questão
dos famintos e dos negros, o que houve foi um engano estatístico, autorizado
pelas crenças tradicionais a respeito da desigualdade de renda no país.
Mas o caso dos juros não permite interpretação favorável
ao presidente, por mais boa vontade que se tenha com ele.
Juros altos são resultado da falta de confiança na capacidade do
Estado de saldar seus débitos. O Estado deve muito, gasta mais do que arrecada
e tenta arrecadar cada vez mais para poder gastar o que não tem. O ciclo
é infernal. E o governo não dispõe de uma agenda de reformas
estruturais que impeça esse mecanismo de continuar funcionando. Dívida
elevada, carga tributária excessiva, leis trabalhistas retrógradas,
burocracia enlouquecedora, ritos jurídicos e judiciários desanimadores,
rombo na Previdência. Isso tudo provoca inflação e taxas básicas
de juro perto dos 20%. Os bancos cobram muito mais e o Estado também está
por trás do custo elevadíssimo do dinheiro para o consumidor.
O governo toma nada menos do que 68% da poupança destinada ao crédito
no Brasil, pagando regiamente os bancos para que eles comprem títulos públicos.
Obriga os bancos a depositar uma parte do dinheiro que emprestam. O depósito
compulsório no Brasil é um dos maiores do mundo. As operações
de crédito sofrem ainda uma tributação draconiana
e o dinheiro vai para o bolso do governo. Por fim, a legislação
brasileira favorece o devedor inadimplente. Isso leva os bancos a cobrar taxas
ainda maiores pelo elevadíssimo risco de emprestar dinheiro no Brasil.
Olha, presidente Lula, se há um brasileiro que não tira o traseiro
da cadeira para combater os juros altos, ele se chama, com todo o respeito, Luiz
Inácio Lula da Silva. |