|
|
Especial Choque
de civilizações Passados quase 1
000 anos de sua realização, as Cruzadas são um símbolo
do confronto entre Ocidente e Oriente. Novas pesquisas históricas
lançam luz sobre o evento e desfazem mitos, enquanto uma superprodução
cinematográfica, dirigida por Ridley Scott, recria a luta por
Jerusalém no ano de 1187 
Isabela Boscov, de Los Angeles
Divulgação  |
GUERREAR PARA TER PAZ
O inglês Orlando Bloom, como o cavaleiro Balian de Ibelin: o cristão
lutou só o suficiente para levar o sultão Saladino até a
mesa de negociações |
"Não
foi por Deus que viemos aqui. Foi pela terra e pela fortuna", diz um cavaleiro,
com amargura, numa cena do filme Cruzada. A frase não resume apenas
muito do sentimento ocidental e também muçulmano para com as Cruzadas
medievais. Basta trocar "Deus" por "democracia" e "terra" por "petróleo"
para que ela passe a funcionar como uma síntese da visão popular,
a Leste e a Oeste, do atual conflito no Iraque e das tensões entre o mundo
ocidental e o islâmico. O cineasta inglês Ridley Scott, de Gladiador,
sabe que esse processo de substituição do passado pelo presente
será inevitável a partir da próxima sexta-feira, quando seu
Cruzada estréia em circuito mundial. Scott, porém, espera
que ele se torne não motivo de discórdia, mas que ajude a promover
algum entendimento (além, é claro, de recuperar o investimento de
130 milhões de dólares do estúdio Fox). Cruzada
se passa em 1187, quando o sultão Saladino, à frente de 200.000
soldados, cercou Jerusalém então a sede do Reino Latino do
Oriente e retomou-a dos cruzados, que estavam estabelecidos ali havia quase
nove décadas. Muito sangue foi derramado nessa operação
e muito mais sangue ainda deixou de ser derramado graças à inteligência
e à diplomacia com que Saladino e o cristão Balian de Ibelin, que
liderou a resistência de Jerusalém (e, no filme, é interpretado
pelo astro em ascensão Orlando Bloom), negociaram essa transferência
de poder. Para historiadores como Carole Hillenbrand, da Universidade de Edimburgo,
uma das maiores estudiosas do lado muçulmano das Cruzadas, o ano de 1187
é o símbolo de uma grande oportunidade perdida: uma trégua
que, por muito pouco, não se tornou permanente, mudando assim o curso da
história no Oriente Médio. É dessa maneira também
que o filme mostra esse momento como uma utopia, infelizmente fugidia,
de convivência entre civilizações.
Divulgação  |
"DEUS O QUER" Cavaleiros
partem em combate contra o sultão Saladino: um conflito que poderia ter terminado
de vez e de fato em 1187 | Durante
as Cruzadas, as tréguas foram em geral poucas e curtas como essa
mostrada no filme, entre a segunda e a terceira expedições ,
porque novos cavaleiros estavam sempre chegando do Ocidente e renovando a animosidade
contra os muçulmanos, a despeito de sua inferioridade numérica e
militar. Não há censo confiável, mas calcula-se em 1 milhão
as baixas entre os cristãos e o mesmo tanto entre os muçulmanos.
No fim do século XIII, quando o ciclo se encerrou, o vitorioso foi o Islã,
que conseguiu expulsar todos os cruzados de seus domínios. Hoje, quase
1.000 anos depois, a sensação que ocidentais e muçulmanos
têm e que um e outro lado alimentam e propagam ao sabor das conveniências
é a de que o Islã foi o grande perdedor do movimento deflagrado
pelos papas católicos. A trajetória simbólica das Cruzadas
é diversa no Ocidente e no Oriente, mas em ambos tem uma relação
igualmente conflituosa com a realidade dos fatos ocorridos na Idade Média.
Há muito que aprender, entretanto, ao observar-se o percurso dessas transformações:
elas formam uma crônica fascinante de como idéias, palavras e percepções
pesam tanto no destino das civilizações quanto suas riquezas, sua
estrutura social e seus regimes políticos. termo
"cruzada" é, hoje, corrente nos idiomas ocidentais. Dizemos que os americanos
estão envolvidos numa cruzada contra o tabagismo, ou que as polícias
empreendem uma cruzada contra elementos corruptos em seu interior. Desde os atentados
de 11 de setembro de 2001, porém, ele consolidou seu caráter de
palavrão ideológico. É empregado com absoluta falta de sensibilidade
como quando o presidente George W. Bush declarou "uma cruzada contra o
terrorismo", tingindo uma luta legítima com tonalidades antiislâmicas
ou com total deliberação, como a cada vez que Osama bin Laden
anuncia em seus vídeos que o sangue dos cruzados cobrirá novamente
a espada de Saladino. O curioso, porém, é que o termo deve sua força
mais às empreitadas coloniais e imperialistas dos séculos XIX e
XX do que aos eventos da Idade Média. Até as potências européias
começarem a ocupar o Oriente, em meados do século XIX, essas emoções
estavam, de certa forma, dormentes e a língua árabe não
registrava sequer um termo específico para "cruzada" ou "cruzados", valendo-se
do genérico "francos" (foi da França que partiu a maior parte das
expedições medievais). Hoje, usam-se duas frases: "guerras cruzadas"
e "ataques cruzados". Quase sempre, em contextos em que se fala de intrusões
ocidentais, tanto militares quanto culturais ou políticas. O
enorme poder simbólico das Cruzadas para os árabes do presente foi
insuflado com a ajuda decisiva dos próprios colonialistas, que adoravam
usar imagens do período medieval para caracterizar suas conquistas. Ao
entrar em Jerusalém pela primeira vez em sete séculos com um exército
cristão, em 1917, o general inglês Edmund Allenby teria declarado
que "agora, sim, as Cruzadas terminaram". A revista inglesa Punch, então
popularíssima, não perdeu tempo em retratá-lo como Ricardo
Coração-de-Leão, o maior herói cristão das
Cruzadas, numa caricatura célebre e também das mais ofensivas
aos sentimentos árabes. Para Carole Hillenbrand, não é de
estranhar, portanto, que os palestinos dos dias de hoje, em guerra pelo território
em que cristãos e muçulmanos se enfrentaram há quase 1.000
anos, se vejam como parte desse mesmo conflito. Um
dos efeitos mais claros das Cruzadas foi o de levar o Islã a fechar-se
em si mesmo. Daí, nos séculos XIX e XX, ele ter se ressentido duramente
por ser invadido não apenas por colonialistas e imperialistas, mas também
por uma retórica medieval que invocava vingança e retribuição.
É essa retórica que, forçada pela garganta do mundo árabe,
foi digerida por ele, transformada, globalizada e, desde os anos 70, ajuda a alimentar
ódios e tensões. Episódios como o do banho de sangue que
foi a primeira tomada de Jerusalém, em 1099, quando os cristãos
massacraram os muçulmanos, são relembrados não como uma cena
em que os atores principais estão mortos. São rememorados como o
primeiro ato de uma guerra que não acabou, nem nunca deixou de existir.
Por muito tempo, porém, o Ocidente praticamente
não existiu nos pensamentos dos muçulmanos e não havia
mesmo razão para que os orientais se ocupassem dele. Desde o século
VII, o Islã vinha alargando suas fronteiras a passos rápidos. Às
vezes pelo fio da espada, mas mais comumente pela simples adesão à
fé do profeta Maomé. Os muçulmanos estavam estabelecidos
no sul da Espanha e na Sicília, de onde os cristãos já começavam
a desalojá-los. A leste, haviam englobado uma porção do que
antes fora a Cristandade inclusive Jerusalém, ocupada em 638. Mas
as linhas fronteiriças com o mundo cristão eram estáveis.
Não havia nelas, no geral, um estado de guerra. Boa parte do crédito
cabe ao Islã, que praticava a tolerância religiosa e mantinha Jerusalém
aberta "às três fés de Abraão" o islamismo,
o cristianismo e o judaísmo. No século XI, porém, a balança
pendeu de vez para o lado do conflito armado. Tribos nômades de turcos seljuk
que, na verdade, estavam mais interessadas em conquistar território
para seus rebanhos do que em fazer a jihad, ou guerra santa abocanharam
toda a Ásia Menor (a moderna Turquia), que fora cristã desde o tempo
de São Paulo, reduzindo o Império Bizantino quase que só
à Grécia e à Constantinopla (hoje Istambul). O imperador
de Bizâncio pediu socorro, e foi ouvido por uma Europa que atravessava um
momento peculiar: uma Europa em crescimento populacional e econômico, repleta
de energia, mas também aterrorizada pela idéia do fim do mundo,
a qual fez redobrar o valor da penitência e da purificação.
Quando, em 1095, o papa Urbano II atendeu ao apelo
do imperador com um chamado para as Cruzadas, as metas que ele estabeleceu pareciam
razoáveis: recuperar os locais sagrados do cristianismo e garantir a passagem
de peregrinos para a Terra Santa. Quem tomava a cruz para socorrer assim seus
irmãos ganhava em troca a salvação. "As Cruzadas eram travadas
por voluntários. E seria muito difícil persuadir centenas de milhares
de homens a embarcar numa empreitada que eles vissem como imoral", disse a VEJA
Jonathan Riley-Smith, titular da Universidade de Cambridge e o estudioso do tema
atualmente mais citado em todo o mundo. Está aí, porém, um
dos nós que dividem os estudiosos: até que ponto a Igreja manipulou
essa ferramenta tão útil que acabara de inventar, exagerando o perigo
que a fé cristã corria, para fazer uma ofensiva contra os muçulmanos.
Enquanto alguns historiadores enxergam a expansão do Islã como uma
agressão inequívoca contra a Cristandade, outros argumentam que
não pode ter sido coincidência a Igreja escolher o fim do século
XI para seu ataque: nesse momento o Islã estava particularmente fragmentado,
e portanto especialmente vulnerável. "Quando os cruzados começaram
a chegar à Síria, à Palestina e ao Egito, os habitantes dessas
regiões não tinham a menor idéia do que estava acontecendo.
Sua única certeza era que não haviam feito nada que pudesse ser
entendido como provocação", defende Carole Hillenbrand.
imaginação de escritores românticos como
Sir Walter Scott (1771-1832), autor de clássicos populares como O Talismã
e Ivanhoé, também fez muito por cimentar a imagem de uma
civilização superior submetida ao assédio de invasores bárbaros.
O inglês Jonathan Riley-Smith lembra que nenhum lado era melhor do que o
outro. Os cristãos cometeram atrocidades, mas não faltam exemplos
de muçulmanos devolvendo-as na mesma moeda como o fez o sultão
as-Salih numa nova e sangrenta retomada de Jerusalém, em 1244. Riley-Smith
defende que romances como os de Walter Scott não se entranharam apenas
no inconsciente ocidental: eles contaminaram a própria Academia. O exemplo
mais claro e tremendamente influente é o do também
inglês Steven Runciman, cujos livros, publicados pela primeira vez na década
de 50, permanecem como os trabalhos históricos recordistas em vendas na
Inglaterra. É de Runciman, em boa parte, que se herdou a imagem do cruzado
como um matuto ignorante, sem terra, fortuna ou algo útil com que ocupar
seu tempo, que partia para a Terra Santa atrás de aventura, butim e brutalidade
livre de punição. De mais ou menos
duas décadas para cá, entretanto, o estudo das Cruzadas trouxe à
tona dados novos, que derrubam esses estereótipos. O levantamento demográfico
e econômico dos cavaleiros que assumiam a cruz demonstra que a imensa maioria
era de senhores com terra e com fortuna, que não raro se arruinavam para
marchar rumo a Jerusalém. A maioria voltava de mãos vazias, e freqüentemente
encontrava suas posses européias em desordem devido à ausência
prolongada e às grandes quantias sacrificadas para a expedição.
Claro que havia entre eles arruaceiros, como atestam os relatos de cavaleiros
que se gabavam de ter cavalgado com sangue muçulmano até os joelhos.
Alguns dos bandos de cruzados aproveitavam para pilhar e destruir tudo o que houvesse
pelo caminho. É célebre, por exemplo, o caso de um grupo saído
do que hoje é a Alemanha, ainda na Primeira Cruzada (1095-1099), que trucidou
centenas de judeus às margens do Rio Reno. Também houve casos de
cavaleiros que fizeram fortuna no Oriente. Mas foram poucos. Pouca
fortuna a ser amealhada, e pouca gente com vontade ou meios de se radicar nos
territórios do Oriente. Esses dois dados, sozinhos, bastam para tirar a
credibilidade da visão, propagada nos anos 60 e 70, de que as Cruzadas
foram um empreendimento protocolonialista. Houve, de fato, um pequeno movimento
colonial rumo ao Reino Latino de Jerusalém, de pessoas que aproveitaram
a trilha aberta pelos cruzados. À época de sua expulsão,
em 1291, essa gente estava quase toda imersa na cultura local e prestes a se tornar
parte dela incluídos aí desde agricultores até a família
real de Jerusalém. Nada, portanto, parecido com o colonialismo do século
XIX, em que a exportação de valores culturais e ideológicos
era parte do mesmo esforço da anexação territorial.
Do ponto de vista militar, uma cruzada era uma aventura curiosa,
sem cadeia de comando definida ou alvos estratégicos claros. Esse improviso
não causava grande impressão entre os muçulmanos. Talvez
por isso o Islã nunca tenha enxergado nas Cruzadas o equivalente cristão
da jihad. Tudo o que eles viam eram bandos desordenados de invasores, falando
de uma religião que não lhes apetecia. Se uma coisa não mudou
nos séculos desde então é que o Islã, para seus seguidores,
é a Revelação perfeita e definitiva. Os muçulmanos
achavam que havia coisas a aprender com civilizações como a chinesa
ou a indiana, mas certamente não com a européia. A Europa, aos olhos
deles, era uma terra envolta em bruma, no sentido literal e metafórico.
Para os muçulmanos que não foram diretamente atingidos pelas Cruzadas,
então, elas permaneceram como uma perturbação menor nas bordas
de seu império. Pelo menos até que os mongóis chegassem com
seu apetite incomparável para a conquista: um invasor foi somado ao outro
na imaginação árabe do período, e todos foram rejeitados
como intrusos violentos e indesejáveis. Muitas
indagações e hipóteses já foram formuladas na tentativa
de explicar por que, afinal, Leste e Oeste não se entendem. Geralmente,
porém, quando se faz a pergunta errada tem-se uma resposta incorreta. Exemplo:
em 1993, o americano Samuel Huntington, especialista em estudos internacionais
na Universidade Harvard, escreveu um texto de imenso impacto e muito polêmico
, no qual argumentava que muitos dos conflitos entre nações
são, na verdade, um "choque de civilizações". A tese de Huntington,
em resumo, é que o Leste e o Oeste vivem sob sistemas de valores totalmente
diversos, e que esses valores são o produto de séculos muito
mais significativos, portanto, do que visões divergentes acerca de ideologias
ou regimes políticos. À primeira (e rápida) vista, o pensamento
do americano parece sagaz. Mas, numa inspeção mais profunda, ele
ressurge como mais uma expressão daquilo que o intelectual palestino Edward
Said descreveu em 1978, num livro-marco de mesmo nome, como "orientalismo": a
distinção imaginária entre Ocidente e Oriente, em termos
geográficos, culturais, morais e intelectuais. O orientalismo leva à
crença de que o mundo é dividido entre "nós" e "eles", e
que "eles" são essencialmente diferentes e, por extensão,
inferiores, passíveis de dominação e iluminação
por "nós". Mas o cristianismo, o islamismo e o judaísmo são
hoje religiões globalizadas, cujos seguidores se mostram capazes de conviver
de forma pacífica e proveitosa em vários pontos do planeta. Na verdade,
acrescenta a historiadora Carole Hillenbrand, nem na Europa do século XI
essa distinção faria sentido. Entre o século VIII e o XV,
os mouros criaram na Península Ibérica um exemplo não livre
de tensão, mas ainda assim florescente, daquilo que o contato entre as
civilizações pode produzir: o reino de al-Andalus, que legou para
o presente bem mais do que as maravilhas arquitetônicas de Granada, Sevilha
e Córdoba, o sabor do gaspacho ou a música e a dança flamencas.
Foi por meio da convivência entre muçulmanos, cristãos e judeus
em al-Andalus, também, que fincaram pé no continente tradições
das quais ninguém sonharia abrir mão, como a diplomacia, a tolerância
religiosa, o livre-comércio e a pesquisa acadêmica e científica.
Se o mundo medieval foi capaz de 800 anos de relativa harmonia, não há
desculpa para que o mundo moderno não se empenhe em restabelecê-la.
O herói de todos Divulgação
 |
As
Cruzadas produziram inúmeras discórdias, mas também uma unanimidade:
o sultão Saladino (1138-1193), que, ao tomar Jerusalém, em 1187,
concordou em deixar sair da cidade todos os cristãos que pagassem um pequeno
resgate. Não só cumpriu a promessa, como dispensou centenas de indultos
a pobres, idosos, mulheres e escravos. A admiração ocidental por
Saladino (na foto, interpretado por Ghassan Massoud) se converteu em quase-adoração
quando, na Terceira Cruzada, ele encontrou em Ricardo I um oponente à altura
de seu carisma e cavalheirismo (mas não de sua força militar). Nascido
em Tikrit, atual Iraque, o sultão não particularmente devoto tornou-se
herói no Oriente por ter unificado as forças muçulmanas.
No Ocidente, virou o símbolo da sofisticação do Islã,
posto do qual governaria a imaginação européia pelos séculos
seguintes. | | |